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Mostrando postagens de 2007
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[...]
O silêncio congela o mundo, faz com que seja possível para mim o trânsito dentro dele.
Em silêncio observo sua oscilação em partir: quase ia ontem, e hoje, graças a Deus ou ao Demônio, acorda um tanto melhor.
A absurda cor do mar se cristalizando embaixo do sol.
Acordo tarde, durmo tarde, sensação de que sequer dormi.

Há anos engulo minha disposição tamanha de sair pelo mundo gritando seu nome, santo e doce é o teu nome que de súbito descubro: quase não o pronuncio mais. Por medo, talvez.
Estou comendo capim e vendo bolas de assopro pelo ar. É a infância? O desamor? Não digo nada: leio Carlos Drummond de Andrade.
O excesso de tudo, cara, o excesso...
E você resiste, você resiste.
De repente suspira e faz que ri mas fecha os olhos antes murmurando: odeio perder cabelos...
Posso contar quantas vezes por dia te ouço resmungar: odeio isso, odeio aquilo.
Você resiste.
Soberano, ora longe ora perto, num instante quase acoplado à minha pele, respondendo monossilábico sobre todas aquelas histórias …
A fome de ser você entortou os ladrilhos ou serão meus olhos vesgos? Havia água borrada de espuma de sabão e sujeira, molhei os sapatos sem dar por mim.

Toda vez que viajo me desocupo de ser você, fico inteira nos olhos dos objetos, e se eles têm raios de luz ou sombra me perco, não mais sei.

Voltar pra casa é me deixar na janela do ônibus, do carro, do avião, é te reencontrar, sistemático, retornando à rotina, às contas, ao trabalho.

Se não sou você nada faço.

Eu não existo no caminho, nas cores corretas e vivas dos ladrilhos.

Ser você me endireita o tanto espaço entre o que deixei de ser por acidente e o que, não por livre escolha, não voltarei mais a ser.
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PALAVRA NÃO É PRESENTE

Minha vida, amor meu, o claro sol do dia, que está um pouco quente, o céu de um azul inacreditável com nuvens esparsas, tudo se torna mensagem nítida para que eu comprove: você é um acontecimento único em minha vida. Agora neste exato momento vou recordando toda nossa história e fico cada diamais apaixonado por você. Como descrever o encantamento que uma paixão pode causar na gente, que muda a nossa vida numa perspectiva inesperada e exclusiva? Não dá, eu sei. Dos gestos, da fala, de cada minúcia que vamos percebendo e descobrindo na pessoa amada, até as idéias políticas, literárias etc; assim quanto mais eu te percebo mais profundamente te amo. O seu sorriso, minha vida, seu cabelo caindo no rosto, quando você vai se soltando e se tornando mais menina e lembra as brincadeiras e frases da infância; é incrível como a vida é simples, não fácil, é verdade, e nós complicamos tudo. Ontem, aqui em casa, eu estava te observando e vendo como somos amigos íntimos, como no…
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Caminhando entre nevoeiros intensos e manhãs de clara luminosidade passeia minha saudade que pergunta insistentemente ao clarão da lua cheia: onde você está? Tenho o costume de andar pelo asfalto, mas achando que percorro flocos de algodão.O brilho dos seus olhos negros se mistura ao pó do asfalto e faz brotar borboletas negras que bailam a cada nascer do sol... No meio dessa roda gigante de sentimentos e vontades meu espírito repousa vagarosamente ao recordar de um beijo seu. Parafraseando Pessoa: “o meu olhar é nítido como um girassol”, acostumo-me a sentir seu cheiro em todo lugar... Fabíolla Borges: http://livrodosdias7.blogspot.com/ (mia sorella minore)
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Uma calçada

Vim pensando nisto: felicidade demais quando não mata, aleija.
Olha as flores como ficaram tortas, olha as flores, meu amor.
Os beijos açucarados, a carne mole.
Ou nem isso.
Andar faz mal à mente.
Penso: um céu de cinza tenso, entre prata e marinho e nuvens ciganas de um lado pro outro, entretendo-nos com suas danças. Penso: pimentas. Amarelas, verdes, vermelhas. Espremidas em azeite dentro das garrafas reluzindo na beira da estrada.
Onde?
Quando?
Que nada!
Tudo mentira.
Penso é no teu sexo.
Brinco que penso em nada sério. Disfarço. Sento na calçada da casa.
Aquela-essa-esta casa antiga da Vitória.
Bebo tua saliva morna de boca ainda agora mesmo acordada. Fecho os olhos durante o beijo para ver se penso menos, des-penso o pensamento de hoje-sempre, mas não tem jeito, percebo: penso no teu sexo de novo. Mesmo te sabendo puro sono, eu: dor de cabeça leve na fronte.

Outras Moradas, antologia de contos do Banco Capital, com Állex Leilla, Adelice Souza, Marcus Vinícius Rodrigues, Aleilton Fonseca e Renata Belmonte

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Lançamento de Outras Moradas
TRECHOS DO LIVRO A casa temperada de sol

Állex Leilla

As coisas não são sentidas nem ditas por mero acaso. Os rumores de que ela estava indisposta porque lia um livro de Camus saltavam pelos cantos do hospital. Pairavam até na boca do arquivista que dissera na tarde anterior só ter lido uma biografia sobre o grande gênio francês. Falou assim um tanto empolado: grande gênio francês, com aquele tom desagradável, irônico, dos que acham todas essas coisas – leitura, afetação, sensibilidade – risíveis, apenas risíveis e, por isso mesmo, dispensáveis.
Isabel, ele pensou em definir de uma vez aquela história, você já está passando da hora de morrer.
Podia?
Estremeceu, balançando os ombros.
Veja bem: ser homem não é fácil, meus caros, não é nada fácil, vá entender.
No refeitório, podia-se ouvir, entre um comentário e outro dos médicos, preocupados com detalhes técnicos de cirurgias, atendimento, prazos, medicação, um e…
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[...] O pior de tudo é que não há cheiros e quase se pode sentir Deus. Eu quero andar e não sou movimento. Ágeis são os arbustos, são as nódoas, são as faltas de cheiros, meu corpo não. Primeiro me dei conta disso – do corpo – que ruía a cada quarto de hora, depois percebi aterrorizado as formigas, rodeando-me como se faz com o alimento. Histérico, nos instantes iniciais ainda achei que reuniria forças onde quer que fosse pra quebrar a inércia, vencer.
Não consegui.
Tua mão veio viva afastando os insetos de mim. Limpou um resto mínimo de sangue, pôs rosas e perfume e me vestiu com um manto de cetim claro.
Ri, grato a ti por tanta generosidade, saiba que estarei sempre, e achei teu pranto extremamente belo caindo em meu rosto morto. Devia ser quente a tua dor e fazia a das outras pessoas indiferente, nula. A milímetros de mim, você arfava em desespero. Não te senti como antes, minha faculdade consistiu no verbo ver, segunda conjugação, transitivo direto. Não lembro mais...
Vi você me guard…
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E digo que tem sido isto: pequenos pedaços de sono, eu me alargando, a cama se alargando, os lençóis se alargando, o mundo, espaços enormes, brancos, ameaçadores, vazios, que volta e meia me fazem tão mal. Sim, tão somente isto: a ausência de tua temperatura, de teu cheiro, aqueles pêlos teus que vão caindo, um lá, outro aqui, a noite inteira, pra na manhã grudarem-se aos meus. Francamente isto: eu sozinha dentro do quarto, dentro da rua, dentro da esquina, dentro do bairro, dentro da cidade, dentro do país, dentro da vida. Mas não por mania ou tique nervoso, que tem sido assim, mas sem gravidade ou nervura, tem sido assim, você na sala, no tapete, enfim, digo: tem sido difícil aprender a dormir novamente sem você.
[...] Ainda posso ouvi-lo terminando a última frase da única música que tocou pra mim naquela noite: “maai endlessss looove”, batendo forte nas cordas do violão, com raiva? tesão? pressa de acabar logo? cansaço? Aquela merda de música brega. Na penumbra do quarto, pisei sem querer na capa de um livro de David Leavitt - Family Dancing, anotei na cabeça - entropecei no cinzeiro e esparramei cinzas e tocos de cigarro pelo chão encarpetado. Ele deixara a mala de sei lá qual viagem entreaberta, reparei. Não arrumava nada, ao contrário, ia abrindo as janelas e fechando as cortinas - o que era inútil pois o vento as espalhava de novo -, jogando toalhas limpas, um monte, brancas e felpudas, e sabonetes em minha direção. Quer tomar banho? Tome. Não quer? Não tome. E ria num tom mais grave do que o que usava pra cantar: rá, rá, rá, rá, rá. Quer beber? Beba. Apontou as garrafas na sala. Quer comer? Coma. E apontava a cozinha. Achei que ele estava fora de si e fiquei no meu canto. Havia um quadro …
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O meu amor ignora a fome e os maltratos do mundo.
Com meu coração alheio
circulei o mar.
Você chegou da terra do frio,
com suas noites de choro e suicídio alheios.
Em carne viva e cada vez mais passível de disseminação de vírus,
estou a te adorar.

Acabar de vez com a velha história da sereiazinha e do príncipe
que agora virou pescador.
Pequena, vago à tua procura.
Estás sempre entre outros homens,
e é na boca deles, não na minha, que mergulhas
a língua que quero pra mim.
Amaldiçôo meu amor inacabado e torto,
quero que o mundo solte mais pestes e mais bombas
e quero da sacada aplaudir e olhar.
Com meu coração inteiro
caminho de volta ao mar.

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E quando passas na rua, vais deixando miúdos de mim
que o sol esmaga sobre as poças onde saltam teus pés.
Na Praça do Medo, na Av. das Flores,
no beco dos Martírios, na Tiradentes, esquina com a Canários,
antes de chegar na Rua L…
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Quarto-crescente


Botões presos às camisas, em filas, bordadinhos.
Foi molhar as plantas
e os dias abriram-se em labaredas.
Andar já não se quer,
o mato espezinha, vidas estranhas
querem acompanhar todos os prenúncios
tanto de guerra como de calma.
Vazia, já sem noite ou manhã,
no intervalo de regar ou pôr botões,
costurou uma letras,
umas letras puseram-se de pé
e já estavam a esburacar
as tristes paredes da casa.
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PAPOULAS DE JULHO
Ó papoulinhas pequenas flamas do inferno, Então não fazem mal? Vocês vibram. É impossível tocá-las. Eu ponho as mãos entre as flamas. Nada me queima.
E me fatiga ficar a olhá-las Assim vibrantes, enrugadas e rubras, como a pele de uma boca.
Uma boca sangrando. Pequenas franjas sangrentas!
Há vapores que não posso tocar. Onde estão os narcóticos, as repugnantes cápsulas?
Se eu pudesse sangrar, ou dormir! Se minha boca pudesse unir-se a tal ferida !
Ou que seus licores filtrem-se em mim, nessa cápsula de vidro, Entorpecendo e apaziguando. Mas sem cor. Sem cor alguma.
(Sylvia Plath/ Tradução de Afonso Félix de Souza )
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[...] Deixa a depressão lá. Quietinha. Esperando do outro lado da pista. Não quer se perder no trânsito por desagulhas do amor.
Que o mundo se roesse em lágrimas, se explodisse, se esturricasse longe dela. Não se importaria. Queria apenas ficar quieta. Nada pra pensar, nada pra fazer.
Com as mãos pode brincar de coelhinho: dois dedos erguidos, o indicador e o anular, e o resto dos dedos em forma de nó, juntos. Fazendo movimentos na penumbra da parede. Com a outra mão, faz a boca de um lobo, alongando os dedos e os curvando como se fosse desenhar um “C” com eles. Realmente, parece um lobo perseguindo o coelho.
Ela ri: isso aprendeu com Wim Wenders... Asas do desejo ou Tão longe, tão perto?
Levanta-se e põe uma música. A música ainda é tudo de leve e verdadeiro num mundo cretino, caduco. Look at me/ who am I supposed to be?/ look at me/ oh, my love...
Sim, amor da minha vida, o cansaço estranho outra vez.
Foi na cozinha esquentar a comida. Provou o suco de manga.
Um bilhete da mãe deixado na p…
PROGRAMA PETROBRAS CULTURAL - SELEÇÃO 2006 / 2007PRODUÇÃO E DIFUSÃO - LITERATURACRIAÇÃO LITERÁRIA: FICÇÃO E POESIA


PROJETO CONTEMPLADO


PROJETO LITERÁRIO PRIMAVERA NOS OSSOS - ROMANCE
Protocolo: 3533
Proponente: Alessandra Leila Borges Gomes
Estado do Proponente: BA
Apresentação: Romance com linguagem experimental focada na representação da experiência de uma mulher estuprada.

Acho que Alessandra Leila Borges Gomes sou eu, uauauauau!

"Anankê" (trecho)

[...] Sem sonhos.
Como sempre.
Ir embora, ir embora, é tudo que sempre quis.
Apesar das moscas, das muriçocas e do calor, nunca viu lugar pra ter mais borboletas amarelas do que ali...
Elas ficam sobrevoando as flores dos flamboyants.
As borboletas amarelas de Bom Jesus da Lapa.
Todos os flamboyants estão carregados.
De flores, delas.
Na Manoel Novais, antiga Lauro de Freitas, ela pára.
Impossível não parar pra ver os flamboyants florindo o chão de vermelho. Senta no chão colorido.
O calçamento ainda não está quente.
Escreve qualquer bobagem.
A voz dele chegando nítida: há alguma coisa atrás dos seus olhos que eu nunca vi...
Cabeça inchada de tanto espaço vazio.
Vou embora antes do ano novo entrar.
Como é difícil escrever com o ônibus em movimento.
A sensatez que ele deu sopra o ar em seus ouvidos…
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Mais-que-perfeito

Quantas vezes eu quis que a palavra fosse um choque
terno entre teus lábios e os meus
maiores inferiores quem dera úmidos
dos teus.
Quantas vezes eletrólise
dançar ainda faz bem
ainda um pouco de nós miúdos
um pouco e mais outro
nó.
Quantas quantas vezes
ter é questão de delicadeza de pêlos
uma vez próximos
os teus nos meus
nunca foram tão perfeitos.
Mas
mais que fios e poros tinindo,
não me deixam dormir os membros, os recomeços;
mais que suores, ganidos,
não me deixam dormir os lilases
perfurando as estações.
Nada é nunca tão vazio
se um pouco de voz, um pouco de guerra,
fecham a tarde numa cidade
tão antiga assim.

Por que caras em vez de palavras? Isso simplesmente. Caras tão somente. Uma coisa tão chata que dá nó nos ossos tentar entendê-la. As pessoas, esses focinhos de porcos, essas palavras toscas, os beijinhos no rosto, “aqui em São Paulo é só um, no Rio são dois”, argh!, risinhos de puro cinismo, “eu tenho todos os livros dele editados no exterior, sabe?”, segure o vômito, “passei 20 dias na Itália”, deixa eu passar, seu nordestino imundo, por que não vai dar o cu pra outro, meu anjo?, um murro no meio da venta ainda é pouco, “porque meu tio agora é presidente da câmara, entende?”, tudo isso debaixo de um friiiiiiiiiiiio!, casacos pretos, marrons, xales, sobretudos, que coisa linda essa menina de verde, que coisa besta esse rapaz fazendo pose, quanta canseira, quanto cuspe, “vamos pra Vila Madalena ou pro Bexiga?”, veja: “o viadinho pedante recebe 500 reais do banco pra vir aqui falar mal do banco, pode?”, “ele escreve mal pra cacete mas se orgulha de ganhar dinheiro com roteiro de cinema…

Por que a infância deles enche nossa vida de sonhos

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Sonhos da menina A flor com que a menina sonha está no sonho? ou na fronha?
Sonho: risonho.
O vento sozinho no seu carrinho.
De que tamanho seria o rebanho?
A vizinha apanha a sombrinha de teia de aranha . . .
Na lua há um ninho de passarinho.
A lua com que a menina sonha é o linho do sonho ou a lua da fronha? (Cecília Meireles)
[...] O mundo não é azul celeste nem marinho, ouvi minha mãe dizer assim que pus a cabeça no travesseiro, tentando dormir, o mundo não é turquesa nem royal, o mundo não é azul transparente nem sombrio, o mundo é cor de sangue, sangue esmaltado, denso, sangue compacto que não muda de tom. Seria como o meu sangue, pensei, sonolento, sem querer me dar qualquer atenção, uma parte da cabeça ainda acesa pelo barulho da rua, outra parte acesa pelo som da voz dela, de minha mãe, que continuava a caracterizar mais o vermelho do sangue, como se fosse possível, seria oriunda do meu sangue a cor do mundo? Vermelho sem variações, encorpado, vazio de qualquer suavidade, vermelho que vai pingando gota a gota, como tinta espessa numa janela de vidro, capturando todas as coisas do apartamento e encobrindo-as: meu guarda-chuva preto, a poltrona onde me sento e leio, a lâmpada apagada dentro do lustre, o armário com roupas, meus sapatos debaixo da cama, os livros, a estante, os blocos coloridos, canetas…

Lara Joazeiro Gomes

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Pra você, um punhado de estrelas e a eterna magia do verbo existir! Bem-vinda!
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Os antigos têm razão quando dizem da importância de se acordar cedo, não há nada melhor no mundo para acender o cérebro da gente do que a luz crua da manhã. Está um tempo chuvoso, e ela já acumulava milhares de imagens e frases soltas que são, em verdade, o seu passaporte pra um mundo interior. O que haveria de ser pintado, dito? Contar os passos na rua dos Escravos, entre as pedras irregulares, os acertos e topadas dos pés dentro dos sapatos. Pensou então inteira dentro dele: um amor claro, mas não tão límpido que não pudesse conter as salamandras. Era isso o que lhe prometera? Não sabia. Recordar, por vezes, é se atirar em quartos escuros.

Rarefação (trechos)

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As cinzas do cigarro e o seu rosto no espelho se abrem e se fecham num jardim sem palavras, sem promessas, num jardim sem.[1]


Meu amor, contador de histórias,
não te ter é embranquecer o nó.
Não temos mais cidades pra grafitar os muros,
correr dos cachorros, cuspir fumaça pra fora dos pulmões,
anotar placas de ônibus, bares entre dois viadutos,
pernas de prostitutas, virilhas fáceis de homens,
adoção sem fim da noite que alguém um dia disse:
é criança, vamos adentrar.
Jogos elétricos, corpos. Cinemas, bazares.
A cor verde-musgo voltando,
a improvável capacidade de amar de dois elefantes,
o inconcebível encontro: meu rosto e seu rosto roxos
no fundo do mar
.[2]


Movimentos de barcos soltos pela casa,
os cheiros do teu corpo ora vivo, ora morto,
você pintado, óleo sobre a tela,
tua boca dizendo: adoro cerejas.
Refazer o passado é morrer.
Os cadernos estão descendo na chuva,
aqui, arrisco ficar guardada,
por isso me molho lá fora
na nebulosidade azul-branca-borrada,
grade de linhas falhas,
celulose ultrapassada..…

FEIRA HYPE, TODO SÁBADO, DAS 13 ÀS 20 HORAS, NO ICBA, CORREDOR DA VITÓRIA

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Feira de Santana: Tom Zé
Viajo segunda-feira feira de santana. Quem quiser mandar recado, Remeter pacote Uma carta cativante Á rua numerada, O nome maiusculoso Pra evitar engano Ou então que o destino Se destrave longe. Meticuloso, meu prazer não tem medida Teje aqui segunda-feira antes da partida Viajo segunda-feira feira de santana Trace aqui seu endereço Sem deixar tropeço Pode seu destinatário Ter morrido ou simulado, Pousado ou avoado Nas sentenças do seu fado... Eu vou ficar avexado Com uma carta sem dono Le-levando a cuja, Penando sem ter pousada Batendo de porta em porta Como uma alma penada. Viajo segunda-feira Feira de santana... Mas se eu trouxer de volta O desencontro choroso Da missão desincumprida Devolvo seu envelope Intacto, certo e fechado Odeio disse-me-disse, Condeno a bisbilhotice. Viajo segunda-feira Feira de santana... Se se der o sucedido Me aguarde aqui no piso, Sete semanas seguidas A partir do mês em frente Não sou letra reticente Palavra de homem racha Mas não volta diferente.

O fim do mundo (trechos)

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[...] Você disse que toda a nossa saudade será em tons azuis, agora, 12:40 da manhã, o filme abre o primeiro flashback que minha mente não consegue evitar: estou naquela passagem azul quando você cortou meus cabelos. Lembra? O céu é de nuvens breves e traz as borboletas de setembro. Você encosta os lábios em meu pescoço - eu dizendo que devia estar cheio de fios do cabelo aparado, você negando -, brinca de me morder forte, beija várias vezes minha nuca, encosta o nariz, e fica esperando o resultado. Eu estremecendo, endurecendo pra você.
Memória interditada. Mais do que no cinema. Segundo café do dia. Você está na minha camisa. Acho graça. O delírio me fez avançar um pouco pro início de tudo. Eu tomando café expresso com sanduíche de tomates secos, Sexta-feira treze, praça da alimentação do Aeroclube. Você vem e pede suco de lima. Olhares cruzados. Os meus observaram o teu cabelo liso solto, voando, o violão dentro da capa escura pendurado em tuas costas, a largura dos teus ombros na ca…
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Uma vez vertigem, sempre problema. Evitemos. Visualizamos o céu de manhã bem cedo e despreocupamo-nos: tudo bem, vai dar tudo certo. Não por merecimento ou fé, mas por que, repense, meu bem: há outro jeito de sobreviver? *** A melancolia. Sim. O pessimismo. Sim. A vontade de morrer. Sim. E se morre? Não. E quando morre? Não adianta: nada. **** A linha é fina mas não tem tensão que a faça interativa: lá é lá, e cá é cá. Sem contato, sem palavras. *** Estás preenchendo o branco apenas por preencher? É verdade. Qual cabimento nisto? Pensei "lilás". Nada veio. "Automatic for the people", pensei. Veio: uma vertigem. É sempre problema. Evitemos.
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mas não sei o que te entreguei ontem, mesmo que me tortures, não me lembrarei, há tantas coisas erguidas lá fora, coisas feias e sujas, coisas mofadas, esquisitas, diferentes de roupas branquinhas cheirando à lavanda no varal.
************************************não adianta nada este olho, este lamento, este grito teu ressoando. eis o caminho sem volta, o caminho do pesadelo: você está congelado na infância, naquele tempo em que, feito o poema do Álvaro de Campos, todos te adoravam e contigo comemoravam o dia dos teus anos.**************************************então vou voltando de mansinho, me aninhando em teus braços, fazendo festa com os pêlos do peito que ora embranquecem. levaremos um tempo inútil, um tempo longo para entendermos que-foi-de-repente que nos jogou noutro canto, que-foi-de-repente que fez este corte estranho.

Vôos (trechos)

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Apoeira não se assenta nas coisas por causa do vento, mas sim pela natureza semimorta dos objetos e peles de seres, plantas e paisagens que, assustados com o correr dos dias em nossas cidades, lançam sua fome sobre a poeira e a retém. Se fosse apenas por vontade do vento, a poeira dançaria pelo, entre, sob ou em cima deste mundo e com ele rumaria pra outros, brilhante como cauda de cometa ou estrela que cai. Ocorre que, pra se viver com alguma paz, alguma orientação, todo ser humano precisa reter as coisas por dentro, de forma que estamos permanentemente inchados do vazio delas. Porque sim, é claro, lógico e evidente: as coisas desaparecem num rompante quando tentamos detê-las dentro de nós. E, oh!, não queremos que passem tão depressa, seja lá o que for que elas representem pra nossos corpos cansados, não queremos de jeito algum permanecer no vazio suspenso de toda e qualquer ausência. Nossos pés têm raízes profundas e nenhum grão ou cisco alado vai nos comover com sua leveza fugidia…

Desconexões

Então saio da cidade como quem quer levar escondido de si mesmo toda a cidade por dentro.
Compactada.
Zipada.
Miudinha.
Abrir minha cidade numa praça florida, parque gigante ou mar sem fim, nas outras cidades onde os pés me levarem. E poder, ao abri-la, fundindo todas as faltas que ela há anos me cravou, ampliar minha pobre minúscula cidade até o infinito. Até romper os limites de barro e feiúra com que ela me fez.


Ouvindo Stones pelo caminho.
Porque um cara bem nascido só pode querer duas coisas da vida: tocar guitarra e amar.
Você foi quem me disse tal asneira.
Mas como amar sentindo que o pulsar mais verdadeiro é a consciência viva de que o podre está infiltrado em tudo, e todos disfarçam-no com perfumes, gestos gentis.
Minha mãe-vidro-eterno-de-alfazema: “pegou o casaco, meu filho?” “Ligue assim que chegar, não se esqueça”.
O motorista do ônibus, lavanda-barata-ou-qualquer-outro-perfume-comum-de-criança: “pode descansar, eu te acordo quando chegar no ponto”.
Sarinha, seca-feito-o-cheiro-de-o…

"Sobre a minha pele navegam barcos" (José Saramago)

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Não quero a negra desnuda. Não quero o baú do morto. Eu quero o mapa das nuvens E um barco bem vagaroso.
Ai esquinas esquecidas... Ai lampiões de fins de linha... Quem me abana das antigas Janelas de guilhotina?
Que eu vou passando e passando, Como em busca de outros ares... Sempre de barco passando, Cantando os meus quintanares...
No mesmo instante olvidando Tudo o de que te lembrares. (Mário Quintana: Canção de barco e olvido) É urgente o amor. É urgente um barco no mar. É urgente destruir certas palavras, ódio, solidão e crueldade, alguns lamentos, muitas espadas. É urgente inventar alegria, multiplicar os beijos, as searas, é urgente descobrir rosas e rios e manhãs claras. Cai o silêncio nos ombros e a luzimpura, até doer. É urgente o amor, é urgente permanecer. (Eugénio de Andrade)

Dores de mim (trechos)

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A vida é engraçada: os objetos quebrados, mesmo colados, não formam mais um. O todo não se separa, porém, se for separado, jamais volta a ser todo outra vez. E é assim, dentro do absurdo, do inaceitável, que devemos, meio tortos, meio loucos, buscar alguma forma de ser felizes. (João Miguel)


A quentura da padaria encosta em mim.
Odeio perder plantas e não descobrir o por quê. Morte ingrata, toda a natureza recende à ingratidão.
Você murmura meu nome sem saber realmente quem sou. Diz que me quer bem sem nunca ter me conhecido de verdade. Nem desconfia: sou capaz de fazer coisas inimagináveis, magoaria até Deus se achasse preciso. Gosto desta palavra: preciso. Posso usá-la em vários níveis, me embriagar dela.
Não adianta.
Sofro.
No meio da calçada procurando acertar o passo. No meio da calçada, procurando, procurando. Dentro da mesma atmosfera. O verde cheira a mofo. A chuva nunca vem. Lembro de filmes que dividimos juntos e seguro o choro: mulher de verdade não chora com um saco de pão quent…
Por que nunca mudam a história: você é/não é feliz? Não, ele não quer o encontro, a possibilidade. Ele é todo neutro. O vazio sem azul, o vazio sem qualquer vestígio de mar. Felicidade, deixe-o em paz. A tempestade atravessada não se sabe quantas vezes. Não importa. As bacias d’água na chuva fazem pin-ploc, pinnnn-plooooc. Ele ignora. Ele é todo outono. Feche os olhos comigo e veja-o pleno. 1, 2, 3, 4, 5, 6... Ele está de perfil, olhos obscurecidos por uma sombra tênue que não deixa serem percebidas a íris azul-profundo, a pupila, o branco cortado por fios vermelhos, os cílios irônicos que, não se sabe exatamente por qual razão, parecem estar sempre abrindo de maneira um tanto lânguida, um tanto desafiadora – com predomínio da segunda. Nas fotos do inverno, ele só aparece até a cintura. Agarrado num poste, olhos fechados, como que fincado no meio da rua, que, recortada neste ângulo, é mais largo ou praça. A cabeça encostada no poste, as mãos como que se segurando, camisa branca de manga…
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O dia está claro, suavíssimo. Não querer fazer coisa alguma. Até as leituras podem esperar. Esticar os pés na cama, morta de vontade de nada fazer.

Deslizar e deslizar.

Lembra quando você nos deu sabonete de erva-doce, naquela primeira vez em que tomamos banho em tua casa?

Pra onde vão os sabonetes, o que fazem com eles os donos da casa quando as visitas vão embora? Usam de novo? Guardam pra novas visitas? Jogam fora?

As acácias estão mais amarelas, as folhas tão verdes, quase não conseguimos abandoná-las, sair da janela, voltar a atenção pra toda uma vida por refazer.

Aqui, se vê o mar: verde na praia, branco-marfim onde quebram ondas; azul-escuro pros lados de Barra; cinza-azulado no horizonte.

Nem as frutas nem as matas nem os bichos nem as flores. O mar. As cores saem dos nossos olhos, de nosso cérebro renovado e migram pro mar. O mar faz um tapete delas, das cores que parimos e codificamos na manhã. Usamos a luz do mundo pra ver o sol melhor, já que somos brasileiros e somos tão baiano…
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Então, a ausência.
Quando acordo, as luzes da cidade já estão acesas.
A coleção de recortes dele: pára-lamas banhados de chuvas, bacias de alumínio refletindo o sol, crianças debaixo de biqueiras, crianças nuas, alegres, molhadas, brinquedos gigantes girando num parque vazio.

Não me recordo de nenhuma pessoa em especial na cidade de origem, ando no meio das ruínas, as árvores que não voltam a crescer, o cinza-marrom-amortecido-permanente pairando sobre os esqueletos, ocupando espaço entre o resto de chão e as crateras, ando e nunca, nem por uma frestazinha de memória, consigo me lembrar de alguém.
O templo da memória. Há que se adentrar de pés nus e quentes, sem intenção de resgate, apenas implorando um sentido qualquer. Gota de chuva, raio de sol. Que quando somos assim, implorantes, a bolha do mundo acha graça e nos dá um agrado qualquer. Este: ele vem de bicicleta, cabelos assanhados, gritando meu nome antes da curva do rio. Ele vem e eu espero seu descer da bicicleta, seus braços em m…