Postagens

Mostrando postagens de 2009
Imagem
a Picture by André Toma

[...] caminhava jogando fumaça fora, não acreditava que tinha conseguido te trazer pra minha casa, não acreditava nas palavras que dissemos de joelhos na cama, olho no olho, coisas fortes que não se diz na primeira vez, “quero ficar contigo além dessa noite, todas as noites da minha vida, envelhecer do teu lado”. Até hoje isso me entontece, sabia? Pode dizer que é vaidade, bobeira ou romantismo barato. Não importa, fiz parte do teu segredo, eu te conduzi à noite inteira até que, exaustos, nos mordemos na boca e você adormeceu... Se você não ficar, o que será do meu peito sem este segredo? Repito que sou um homem cansado, 48 anos velhos, velhos. Já não tenho muito pra estragar, veias fodidas de heroína, fígado fodido de álcool e enlatados, narinas fodidas de pó, cigarro, São Paulo-Rio, Rio-São Paulo... Te contei que, às vezes, meu pulmão esquerdo parece abafado? Eu digo esquerdo, mas pode ser o direito também, ou ambos, algo que sufoca na altura do coração, que e…
Imagem
Veio correndo sem fôlego do país das montanhas e das rochas que não se diz.
Agora, a câmera pega de súbito o lábio superior dele, grosso que nem negro,
mas se delineando mais suave no inferior.
Clique, clique: nada escapa à máquina, ele abaixa a cabeça.
Pega os olhos. Now. Olhos sumindo. Clique, clique. São negros ou castanhos escuros os olhos dele? Clique. Só uma luz azul fugidia sobre o corpo dele. Vestido de branco. Cabelo preto. Clique. Ele quase nunca se move quando está ensimesmando-se. Ele toca o ar num gesto vago de quem apenas se dá conta que existe: vida, atomosfera, ar.
Suspende os olhos vez-em-quando, mira: parece dar adeus.
Veio correndo das montanhas, fugiu das matas fechadas daquele país distante que não se diz e, no entanto, permanecerá aqui, entre nós. O mundo é justo e verdadeiro. Façamos um brinde. Um brinde, please.
Imagem
Impossível seria se a boca acompanhasse, ávida, certeira, os pensamentos, tantos, nus, vivos, estranhos, que jogamos no ar, às moscas, aos serezinhos invisíveis que nos espreitam, nos acolhem ou nos indiferençam. Impossível porque a convivência, porta cada vez mais estreita, esfacelar-se-ia ainda mais (e isso é possível?) aqui na terra.

***

Possível seria, quiçá agora, aquela estranha coincidência da boca minha na sua, enquanto os pensamentos, meus nos seus, fariam curvas, dançariam caminhos, encontrar-se-iam, uníssonos, nus, vivos.
Imagem
[...] No entanto, o que se possui de fato é a aglomeração de seres e de sentimentos nos quais se acaba transformado. Por verdade, entenda: um tesão incontrolável, jamais amenizado, junto à cabeça que dói constantemente; em suma, um passear inútil pelo que se foi, pelo que se pode vir a ser, quando, por milagre, se achar as pontas dos nós. Essa verdade triste é o que tento, acima de tudo, fazer sorrir.
O vento bate as portas de todos os ambientes onde eu poderia penetrar. O vento me assusta. Zumbidos de casas, zumbidos de trevas, as suas vidas, as minhas, aviões que torturam o cérebro.
Paciência já não tenho.
Invento medos.
Podres mentiras.
Tremulo no espaço que piso, caio, sobrevôo.
Você, o meu grande amigo, se precipita a sair do Brasil... Você está só e não quer mais enfrentar as lembranças... Você não quer mais ninguém do seu lado? O quê? Oh, não, volte, chegue mais perto de mim... Ah, quero te mostrar os últimos recortes, as partes que sublinhei, esperando, um dia, ler junto con…
Imagem
Escritora Állex Leilla desconstrói o mito do amor romântico e seus clichês

Os filmes Antes do amanhecer e Antes do pôr do sol do diretor norte americano Richard Linklater são o mote para o debate acerca da função do amor romântico na literatura

A escritora Állex Leilla volta ao Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM) para mais um trabalho. Na oficina intitulada “O tempo do amor hoje. Uma coreografia em pedaços”. A oficina será ministrada no Espaço Educativo Sophie Calle (Galpão de Oficinas do MAM) nos dias 22 e 23 de outubro, das 15:30h às 18:30h. Serão 15 vagas e as inscrições deverão ser feitas pelo (71) 3117 6141, ou no local com 30 minutos de antecedência.

Na oficina, Leilla propõe uma problematização do mito do amor romântico e da procura da alma gêmea, discutindo valores, crenças e clichês que fazem parte do culto do amor romântico, isso tudo a partir da análise de trechos dos filmes Antes do amanhecer e Antes do pôr do sol do diretor norte americano Richard Linklater.

Segundo Állex Le…
Imagem
Papo literário: Escritora Állex Leilla ministra minicurso no MAM-BA

Um paralelo entre os recursos da obra da francesa Sophie Calle e artistas e escritores como Renato Russo e Caio Fernando Abreu norteiam o minicurso no Espaço Educativo Sophie Calle

Uma análise paralela entre a obra de Sophie Calle e os recursos presentes nas obras de personalidades como Caio Fernando Abreu e Renato Russo, serão debatidos no minicurso Infinitamente pessoal: Eu, você, eles e nós. O curso será ministrado pela escritora e doutora em letras Állex Leilla, no Espaço Educativo Sophie Calle (Galpão de Oficinas do MAM), nos dias 14, 15 e 16 de outubro, das 14h às 17h. O curso é gratuito. Mais informações (71) 3117-6141.

Em Infinitamente pessoal: Eu, você, eles e nós, será feita uma extensão de questões interessantes trazidas pela obra de Sophie, como a relação entre o artista e público; a existência ou não de personas mediando o produto e a recepção dele; a intervenção do biográfico na criação e os limites cada ve…
Imagem
Sabe-se que ela tem saudades dele. Do centro do céu sem nuvens, sem primavera, desloca-se a cabeça, olho direito, olho esquerdo, o tronco todo, pra ver o céu da janela da cozinha. Move-se cheia de soluços na garganta. Molha as mãos e o rosto. Faz café. Sabe-se, sabemos: ela sente a falta dele como ninguém. Bicho desencontrado tentando sobrevoar a terra de muros e concreto que não nos pertence. Desde que ele foi embora da Bahia, ela sente sua falta. A ópera de Nabucodonosor, ela ouve. Ela que odeia ópera. Músicas antigas, músicas novas, ela ouve, pensando nele. Logo ela que um dia o irritou seriamente dizendo: prefiro o Morrissey. De repente, ela ri e pensa: se alguém (ele) me pega agora...
Ela quer dizer: se ele a pegasse ouvindo suas músicas preferidas. Ela gravou algumas num Cd de 80 minutos e ouve sozinha, andando pela casa, deitada, consertando o cabelo, mudando de lugar os objetos.
As mulheres que melhor escrevem neste mundo, ela agora as pega pra ler. Mas não prossegue muito, va…

CUIDADO: UNIMED NÃO É PLANO DE SAÚDE, É TRÁFICO ARMADO!

Gostaria que essa mensagem servisse de alerta para que os desavisados que pretendem se associar ao Plano de Saúde UNIMED, qualquer um deles, mas, sobretudo, o sistema intercâmbio que atende pelo nome de UNIMED LESTE FLUMINENSE. Infelizmente, aderi a esse plano de saúde em setembro de 2008, minha adesão dependia de pagar uma taxa de adesão também para a UNIVERSICRED, cooperativa dos funcionários da UNIVERSO (Universidade Salgado de Oliveira, campus de Salvador, onde eu era professora). Meu marido (João Batista Fernandes Filho, ou o escritor e poeta João Filho), que também é funcionário da UNIVERSO, aderiu ao plano de saúde e à cooperativa. No entanto, tanto eu quanto ele pretendemos nos desligar da cooperativa e do plano o mais rápido possível devido ao fato de termos descoberto, na prática, que esse convênio é uma farsa.

Desde o dia 26/06/2009, meu marido tenta uma cirurgia de hérnia de disco e tem sido destratado e/ou ignorado pelo plano UNIMED LESTE FLUMINENSE. Estamos sozinhos para …
Imagem
- Por que não nos matamos quando chove fino, pirracento, quando chove assim pedaços de cinza encobrindo o sol, quando chove domingo sem horizontes, dentro e fora de nós?
- É simples - dirá você, às gargalhadas.
- Se é simples, diga-me logo, please.
Então você responde, dentro de si cada vez mais.
- Não nos matamos.
Ponto final.
Não conto nada, que já estou de saco cheio, dizem que para morrer basta estar vivo, estamos vivos e não morremos, eta, inocência! ou será burrice mesmo?, agora, ao menos, não há dissipação, e não se dissipar tem seus méritos, arriscaríamos até analogia: cinzas de cigarro, sim, por que não?, além do cheiro morno - tão morno que quando sinto me assombra o quanto ainda pode ser vivo o cheiro de alguém em algum canto deste edifício fumando cigarro -, o cigarro deixa cinzas que raramente podem ser dissipadas, ficam dias pela casa, nos objetos, na ponta dos dedos, na língua, e pensar que tantas vezes trepamos com cigarro nos dedos, na língua, foi você quem disse certa feita e nem me lembro se de tarde ou madrugada, sempre que a noite chega é este medo de contar o que não se conta mais, simplesmente porque passou o tempo disso: contar, pensar que você disse tão bendito e até gracioso, sempre que a noite chega é este medo de contar o que não se conta mais, pois é, sabíamos, há anos sabíamos, …

Lançamento de "Ao longo da linha amarela", de João Filho

Imagem
Todos estão convidados para comparecer na terça-feira, dia 07/07, às 19h., à Livraria Tom do Saber, no Rio Vermelho, para o lançamento do livro de contos "Ao longo da linha amarela", de João Filho. Abaixo o convite.

Não há domínio que dure mais de dez minutos, deitado, inerte, olhando os pingos d'água contra o muro, pedaços de gravetos são apenas pedaços de gravetos, brasa dormida que não tem o que ensinar agora nem nunca, no chão ou em Marte, é preciso escorregar entre um novelo e outro, saber/ver o que sua mão constrói e a cabeça desconstrói, não perca o ritmo, baby, se perigar, deslize e pisque os olhos mais e mais, um dia deitado ao largo da própria vida, que tem seu ritmo às vezes acasalado, às vezes divorciado de outros caros desejos, reflita/veja: nem tudo está perdido, nem tudo está salvo, há um ritmo, e isso não é conversa mole de quem perde as horas embalando sua própria sombra.
Imagem
Estamos de volta aos
dias moribundos de ca-
lor e outono
onde as folhas gordas
viram e suspiram no si-
lêncio amarelado
onde vimos pela pri-
meira vez o brilho novo
do céu

estamos de volta
atrás de nós as ondas
da memória cercam nos-
sos gestos
o nascimento da tarde
é maior que as limita-
ções sem tempo

estamos de volta e pe-
quenos e sozinhos,
olhos, dores e sonhos
abertos diante do dia

estamos de volta ao mes-
mo lugar enorme e irre-
sistível/ às sombras mo-
ribundas de calor e
outono

Ana Cristina César: Infância
Imagem
[...] Dias doentios virão. Varanda de ladrilhos cor de carne. O vácuo. Quer você tenha casa, quer viva num caixote de papelão, pouco importa. Conserte os cabelos com as mãos quando o vento marinho jogá-los na tua cara... Afaste-os do rosto em direção à nuca, depois solte-os, e eles voltarão a assanhar. Não importa quem você seja, que segredo ou missão acha que a vida guarda pra si. Estará de cara com o nada, suas forças minarão.
O sol principiará lá fora, de sua fraqueza não vai querer saber. Se revolte. Quebre copos na cozinha. Jogue os cacos pela janela. Uns brilharão no asfalto, outros, na lataria escura do tonel de lixo. O rumor de vidro caindo no asfalto pode fazer você se sentir bem. Ria, amansado(a), deite-se outra vez e não vá trabalhar, pois é um daqueles inúmeros dias em que se precisa esquecer a si mesmo, e não se esquece.
Novamente, como numa senha: choverá forte, depois tudo cessará. Ficará um mormaço e um vento gelado. Você pode lavar os cabelos, se cabelos você tiver. …

Coleção Cartas Bahianas lança:

Imagem
O sol que a chuva apagou é uma novela que traz um clima de diário de bordo ou de estrada, no clima sexo, drogas, delicadeza e rock in roll, dialogando de longe com "On the road", de Jack Kerouac. Apesar de ter começo, meio e fim, também pode funcionar como fragmentos, anotações sobre a perda de um grande amor e o início de outro, pois foi elaborada a partir da voz de um personagem que está finalizando uma etapa de sua vida e iniciando outra. Thiago era professor, casado, morava na Inglaterra, mas de repente seu companheiro morre, ele então retorna ao Brasil e é convidado a integrar a banda do irmão mais velho, onde entra para ocupar o lugar de um baixista que havia saído. Na banda, ele acaba se apaixonando por um dos músicos. O texto, então, tem esse ritmo de transição, são pequenos intervalos entre o eu e o mundo, como quando o externo nos joga pra dentro de nós mesmos e nossa interioridade, segundos depois, nos joga pra fora. No livro, os intervalos não mostram ao leitor s…

trechos para algum momento futuro

Imagem
[...] Queria uma coisa simples, funcional. Que se pudesse carregar no bolso. Formato de dicionário mesmo. O pequeno dicionário da vida comum. A idéia era permitir que pessoas como ele, intranqüilas, facilmente irritadas, que explodem facilmente ou não explodem, todavia, por dentro, matam, estupram, cegam, dão veneno de rato a todas que lhe estragam o dia, confundem seu humor, destroçam sua paciência, permitir que pessoas como ele, enfim, tivessem um livro de bolso eficaz, companheiro, não essas chatices esotéricas, nem o Novo Testamento, que não tava a fim de ficar com Novo Testamento no bolso, tenha dó! ***
Ao sonhar com o piano, percebia, desesperado, que não identificava mais algumas notas. Dó e Ré acabam sendo a mesma coisa, dizia, ironicamente, uma voz anasalada, tão irritante, tão cretina que não se daria ao trabalho de verificar de qual garganta saía. Até porque as gargantas estavam todas trocadas, umas como vasos de barro cheios de flores alaranjadas, brancas, vermelhas, amarel…