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Mostrando postagens de Março, 2007

Vôos (trechos)

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Apoeira não se assenta nas coisas por causa do vento, mas sim pela natureza semimorta dos objetos e peles de seres, plantas e paisagens que, assustados com o correr dos dias em nossas cidades, lançam sua fome sobre a poeira e a retém. Se fosse apenas por vontade do vento, a poeira dançaria pelo, entre, sob ou em cima deste mundo e com ele rumaria pra outros, brilhante como cauda de cometa ou estrela que cai. Ocorre que, pra se viver com alguma paz, alguma orientação, todo ser humano precisa reter as coisas por dentro, de forma que estamos permanentemente inchados do vazio delas. Porque sim, é claro, lógico e evidente: as coisas desaparecem num rompante quando tentamos detê-las dentro de nós. E, oh!, não queremos que passem tão depressa, seja lá o que for que elas representem pra nossos corpos cansados, não queremos de jeito algum permanecer no vazio suspenso de toda e qualquer ausência. Nossos pés têm raízes profundas e nenhum grão ou cisco alado vai nos comover com sua leveza fugidia…