Postagens

Mostrando postagens de Novembro, 2005

Henrique & o Incesto

Correio da Bahia

Mais críticas

Orelha

A orelha de "Henrique" - que muito me orgulha - foi feita por André Seffrin e republicada depois na Revista Online Bestiário.

Henrique, romance, Salvador: Ed. Domínio Públicco, 2001, 215p.

Imagem
Seu olhar, seu movimento.
Simulacros pela casa.
Cama, pasta de dentes, toalhas úmidas.
O gel pós-barba dele é a base de extrato de ginseng, está escrito que revigora as fibras elásticas da pele, que protege o rosto contra a poluição.
Está em quase toda a casa, principalmente nos colarinhos das minhas camisas, a fragrância de ervas suaves, de mato tocado por longas chuvas. Nas camisas sem colarinho também está.
Em tudo em que ele encosta o rosto.
O cheiro dele.
Só o meu cigarro dissipa.
Não queria que dissipasse.
Ele desenha uma borboleta com as cinzas dos meus cigarros.
Desenha na mesa onde tomamos café.
No vidro da mesa. Afastando a toalha de flores brancas e marrons.
Bate as pálpebras quando diz que as borboletas, Rique, sempre me lembram você.
Muito obrigado, eu digo.
Assim acabo acreditando em provas de amor.
Pondo uma música. Convidando você pra dançar.
Em meu ouvido …

Para passar o domingo

Imagem
Lista de coisas pra ajudar na relação cármica com o domingo:a) andar sem rumo por ruas onde você nunca vai; b) ler livros de poesia; c) arrumar guarda-roupa, estante, gavetas etc.,d) gravar um cd com suas músicas preferidas (depois você dá a um amigo-vítima) e) comer frutas o dia todo (por exemplo: salada de frutas gelada com mel)f) ler um conto do Julio Cortázar;g) assistir àquele filme que você ama de paixão, no vídeo ou DVD;h) escrever cartas a amigos distantes (email não vale!);i) tomar café com licor de chocolate.

Obscuros, Salvador: Ed. Oiti, 2000, 117p.

Imagem
OUTROS ELEFANTES

Sob o céu frio e cinza/ um impasse e poucas opções/ não há rosas no jardim/ e há tempos não se ouvem os rouxinóis/ se eu soubesse amar, eu cravaria/um espinho ao meu pobre coração/ vermelha então seria a rosa/ e entre as outras brilharia como o sol... (O rouxinol e a rosa: Herbert Vianna)

Quando você trouxe aquele pedaço de papel com a letra minguada dele, escrito duas horas antes do suicídio, eu estava, se não me engano, com uma taça de champanhe na mão. Se não estava bem, pelo menos eu tentava esquecer.
Não ele, que eu jamais esqueço. Mas a dor de sabê-lo morto antes de mim.
Sentada na beira da plataforma, olhando Itaparica de luzes acesas do outro lado, eu não via o vermelho das janelas, das portas, nem a vida azul-marinho do MAM e do Solar. Estava me fodendo pra tudo à minha volta. Era assim que estava, como você, aliás, já deve estar farto de saber.
O mundo baiano de exposições cretinas, quatro salas sem sequer um quadr…

Quando eu morrer que não me enterrem...

Imagem
Quando eu morrer, não me enterrem aqui. Em Bom Jesus da Lapa. Por favor. Tenho rinite alérgica. Vou ter problema de pele, com certeza. O sol racha a terra, invade a cova - aqui nem tem crematório!, é barro na cara mesmo - e nos cozinha tudo, por dentro, por fora. Depois de mortos, ainda temos o que proteger. Se é que me entende... Provavelmente, não. Com essa mentalidade de jeca que você tem: ah, não acredito na vida após a morte, Deus não existe, o ser humano é todo perecível e blábláblá, todas essas frases óbvias do Almanaque Completo Da Razão Ocidental. Ô bestage!, meu Deus. Grande merda é sua crença, seu pensar inútil, sua visão rasteira que você gosta de dizer "cética" pra criar clima em torno de ti. Vanitas Vanitatis. Todavia, não se ofenda. Foste o único que amei. Tá vendo como ainda uso a segunda do singular? O único. No universo inteiro de 306 homens, entre meninos, rapazes, coroas e gays. Me proteja, amore mio. Me proteja depois.
Trecho do romance "Longe tão lo…

E já que falei em Ana Cristina Cesar, my mother...

Imagem
... falo agora de my father, Caio Fernando Abreu. O link é pra um ensaio teórico, extraído de um capítulo da minha dissertação de mestrado (Letras-UFBA), sobre a loucura e a homossexualidade nos contos de Caio Fernando Abreu.

Sem dúvida alguma, Caio é o texto literário que mais me captura, entre todos os textos que nos estendem a rede e nos quais nos enredamos, ao longo da vida.

Só quem já teve um dragão em casa pode saber como essa casa parece deserta depois que ele parte. Dunas, geleiras, estepes. Nunca mais reflexos esverdeados pelos cantos, nem perfume de ervas pelo ar, nunca mais fumaças coloridas ou formas como serpentes espreitando pelas frestas de portas entreabertas. Mais triste: nunca mais nenhuma vontade de ser feliz dentro da gente, mesmo que essa felicidade nos deixe com o coração disparado, mãos úmidas, olhos brilhantes e aquela fome incapaz de engolir qualquer coisa.
(Caio Fernando Abreu: Os dragões não conhecem o paraíso)

Conheci a literatura de Caio em 91, quando morav…

Infância: Ana Cristina Cesar

Imagem
Estamos de volta aos
dias moribundos de ca-
lor e outono
onde as folhas gordas
viram e suspiram no si-
lêncio amarelado
onde vimos pela pri-
meira vez o brilho novo
do céu

estamos de volta
atrás de nós as ondas
da memória cercam nos-
sos gestos
o nascimento da tarde
é maior que as limita-
ções sem tempo

estamos de volta e pe-
quenos e sozinhos,
olhos, dores e sonhos
abertos diante do dia

estamos de volta ao mes-
mo lugar enorme e irre-
sistível/ às sombras mo-
ribundas de calor e
outono

Ana Cristina César: Infância

*********************************************************** Essa coisa linda aí em cima é minha afilhada, Hanna Clara. Quando estamos envelhecendo, a infância, nossa, dos outros, tomam o centro, seja como forma de fugir ao presente, seja como arma pra segurar o que não nos pertence mais. Só as narrativas do que fomos cristalizam a infância. E dão uma vaga certeza de que hoje somos a mesma pessoa de cabelos soltos, pés descalços, gritando de alegria, na porta da casa, pelo pai que chega do trabalho. …

Mais Urbanos

Imagem
GeloA descida da contorno ia ficando longe.Ela possuía um agasalho e um guarda-chuva. Floral. Mas se diz mesmo é "sombrinha", isto é, a proteção das mulheres contra o tempo molhado.Os prédios pequenos e as casas velhas, em fila, coladinhos. Ali, um prédio de oito andares todo todo amarelinho. Claro.Ia ficando cada vez mais longe.Ela tinha apenas duas pernas, nem grossas nem finas. Brancas. Como todo o resto.No asfalto, carros quase nenhum.Avistava o mar lá embaixo com tontura, porque andara muito. E a Contorno lhe fugia."Pamõõõõõõõõõõõõõõõnha", ouviu o vendedor na outra rua, "pamonha de milho, quentinha..." Parou pra um trago. Difícil acender qualquer fumo debaixo da chuva. O vento veio querendo lhe arrancar a sombrinha. Ergueu a proteção de tecido toda pra cima, e os ferrinhos se destacaram como esqueleto.Ela riu: esqueleto de guarda-chuva!Mas não, mulher diz mesmo é "sombrinha".*****************************************************Tenho que ded…

Urbanos, 1997.

Imagem
Amarelo-de-casca-de-fruta

Lutava com o vento e era de lenhar! Mesmo o amor que tinha no peito, mesmo o cão que se afastava achando estranha a sua luta, mesmo o sol que já lhe tomava os poros, nada, nada importava. Foco voltado pro piso, os olhos do rapaz só enxergavam a sujeira que com sua paciência brincava. Voava longe da vassoura. Voltava pro mesmo lugar. Corria maravilhosa pra debaixo dos móveis. Uma desgraça, uma desgraça.

O amigo veio e disse:
- Feche as janelas, meu bem...

Fecharam.

Foi o vento por hora vencido.

Mas, devagarinho, forçava os cantos da janela, da porta da rua, da fechadura. Cuspia à noite toda. Eles não viam. Corpos descobertos, os dois haviam de se entreter em suores e, depois do banho, em sonhos.

De manhã, ciscos pela casa.

A nova guerra conta com a fumaça de um incêndio num próximo terreno baldio. Fumaça que traz ruínas de papeizinhos aqui, ruínas de papeizinhos ali. Vão se aderindo ao piso, também ao tapete, também ao sofá. Alados pontos negros na atmosfera. Irritam …
Imagem

Revista AgudaQuaseGrave, Maceió/AL, 1991

Espelhos
A Arla Coqueiro e Gil Maciel,
meus primeiros editores


Não sei que tipo de sol havia quando vim ao mundo; não sei se na hora do parto usaram espelhos; sei que não há medo ou dor que não me leve a horas a fio na frente de retrovisores, pequenos espelhos de bolso, enorme vidraças, lugares em que me concentro, dispo a máscara, o feitiço, toda a encenação e, perdidamente, me olho, me odeio, me admiro, sem narcisismo, ou eu sou narciso?

Que espécie de medo enveredou em minhas sílabas tônicas? Quero fugir pro mundo sem destino das pessoas nada aflitas, nada sorridentes, nunca melancólicas, e contudo diferentes e alucinadas, a alucinação perdida do amor cruel que desumaniza toda a criação e cada tentativa de ser feliz.

Ser gente em abraços.
Ser gente e braços.
Ser gente e aço.
Eu te quero gente, letra, perfume, mormaço.
Odeio o seu cachorro maldito, esse ser mesquinho que você amarra do teu lado direito e atrapalha toda a nossa história. Você é um ser canino. Vive com fantasmas caninos. Sua i…