sexta-feira, março 23, 2007

Vôos (trechos)

A poeira não se assenta nas coisas por causa do vento, mas sim pela natureza semimorta dos objetos e peles de seres, plantas e paisagens que, assustados com o correr dos dias em nossas cidades, lançam sua fome sobre a poeira e a retém.
Se fosse apenas por vontade do vento, a poeira dançaria pelo, entre, sob ou em cima deste mundo e com ele rumaria pra outros, brilhante como cauda de cometa ou estrela que cai.
Ocorre que, pra se viver com alguma paz, alguma orientação, todo ser humano precisa reter as coisas por dentro, de forma que estamos permanentemente inchados do vazio delas.
Porque sim, é claro, lógico e evidente: as coisas desaparecem num rompante quando tentamos detê-las dentro de nós.
E, oh!, não queremos que passem tão depressa, seja lá o que for que elas representem pra nossos corpos cansados, não queremos de jeito algum permanecer no vazio suspenso de toda e qualquer ausência.
Nossos pés têm raízes profundas e nenhum grão ou cisco alado vai nos comover com sua leveza fugidia.
Gostamos do peso das coisas, gostamos de seu incômodo arrastar dentro de nossas retinas.
Solo, precisamos de solo.
Dos quatro elementos que aprendemos fundamentais, somos muito mais terra e é feito ela que nos movemos.
Precisamos grudar-nos ao movimento da poeira.
Ser o musgo que cobre os cantos do chão e das pedras em toda e qualquer cidade.
O quê?
Ah, sim, você nada sabe sobre a poeira, o vento, o musgo e o correr dos dias em nossas cidades. Compreendo, compreendo...
Você quer fechar os olhos e nos ouvir explicar?
É rápido:
Nesta cidade, minha querida, o melhor é andar descalça, de ouvidos tapados, pisar sem cuidado nas flores e folhas mortas que cobrem o chão.
Pelo menos de vez em quando, faça o teste: não ouça coisa alguma.
Vá passando como que desiste e não desiste da pouca vida na terra.
Finja que é sempre cedo, ignore, lance longe o foco.
Me dê a mão, vamos passando.
Girando feito pirilampos, bailarinas perdidas, rabo de cometa entre as estrelas, por cima dos telhados, quer sejam de casas, quer sejam de edifícios, olhe e descubra: insetos, gatos e almas penadas vivem por aqui. [...]

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