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Mostrando postagens de 2012
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Pra você uma chuva de estrelas e a eterna magia do verbo existir.
FELIZ 2013!
Para quem me perguntou onde adquirir o romance "Primavera nos Ossos", seguem os links:
Site do Publifolha, por R$ 25,00, link:
http://livraria.folha.com.br/catalogo/1160902/primavera-nos-ossos

Na Livraria Cultura, também a R$ 25,00, link direto:
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=25000228&sid=87942824714116442621237753

Na própria editora Casarão do Verbo, pelo e-mail:
rosel@casaraodoverbo.com.br
Falar com Rosel Soares.
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É quase sempre o mesmo:
Eu te procurando no meio a tantas estrelas de ontem
Estrelas que já não brilham
ecoam mortas no firmamento
a lembrar séculos de luz e orientação
Não mais
Esta é a velha história das coisas quebradas,
as coisas desligadas que, por pirraça, ainda refletem luz morta no escuro
Oh, minha pequena estrela!
Minha vida vazia de lume
Sempre é breu quando faltas
Só a memória pura delicadeza da tua voz pela manhã
Cala o que quer de inquieto que a noite trouxe
Um segundo de novo em teus braços mornos
e minha vida se acenderia inteira
Uma vida de star?
Somente ao teu lado, doce estrela azulada.
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ANTOLOGIA DE CONTOS ERÓTICOS

Coletânea, que está saindo pela Geração Editorial (SP), será concorrente nacional do best-seller “Cinquenta tons de cinza”

“50 versões de amor e prazer – 50 contos eróticos por 13 autoras brasileiras”, livro organizado pelo professor de literatura da UFPB e escritor Rinaldo de Fernandes, é um concorrente nacional, mas primando pelo grande valor das narrativas, pela grande qualidade das autoras, do best-seller “Cinquenta tons de cinza”. A escritora baiana Állex Leilla integra a coletânea com quatro contos: “Hot dog”, “Epiceno”, “Souvenir” e “Três elefantes”.
“50 versões de amor e prazer”, que está saindo pela Geração Editorial (SP) e chega às livrarias de todo o país daqui a duas semanas. traz, segundo o organizador, uma série de contos primorosos, de alta qualidade literária. As 13 escritoras que integram o livro são todas importantes e premiadas no cenário da literatura brasileira atual. São elas: Ana Miranda, Ana Paula Maia, Andréa del Fuego, Ana Fer…
Supremo faz audiência para discutir polêmica sobre racismo na obra de Monteiro Lobato
http://educacao.uol.com.br/noticias/2012/09/08/supremo-faz-audiencia-para-discutir-polemica-sobre-racismo-na-obra-de-monteiro-lobato.htm?cmpid=cfb-educacao-news&fb_action_types=og.recommends&fb_source=other_multiline

Deveriam se reunir pra discutir Machado de Assis também, ora, ele era machista, totalmente contra as mulheres, um desserviço à causa. E Lima Barreto? Um traidor do movimento, sua visão do afrodescentente é contrangedora. Aliás, todo o cânone brasileiro, pra que precisamos de cânone, gente? Jorge Amado é um horror: nos fez preguiçosos e improdutivos aos olhos de todo o Brasil. Devemos recorrer ao Supremo a fim de limpar, higienizar a nossa literatura.
Tenho uma ideia: pra fazer valer o estatuto da igualdade racial vamos retirar toda a arte discordante das escolas e do mercado, e usar somente aquilo que está de acordo com o estatuto, façamos a revolução que nem Lênin nem Stálin co…
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Rondó Muito Louco

Sabeis promessa de vento,
viagens que não podeis.
Sabeis a lua impossível
e o corpo que não tereis.
Ai, tivesse alguma espécie
de tudo que me dareis!
Ilha de Capri não tendes,
então como prometeis?
Anel de areia luzente,
onde é que me encontrareis?
Corpo de relva molhada
por que não me inventareis?
Mar de quanta coisa louca
onde me enlouquecereis?
Sabeis promessa de vento,
Onde e quando cumprireis?

CELINA FERREIRA (poeta mineira, morta em 05/08/2012)
Mais poemas em:
http://www.ronaldowerneck.blogspot.com.br/
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Zéo: não entendo por que você foi embora tão cedo. Ficou me devendo um vinho do Porto, que tomaríamos numa tarde livre de quarta, eu, você e João, aqui em casa, na varanda, olhando as amendoeiras. Tomo este cálice agora sozinha e leio os últimos escritos que você me enviou por e-mail.
Vá em paz. Sentiremos em excesso a tua doce falta.
Te amo.

[...]
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E lá estamos: jogados no vazio. Quem nos recordará? De qual desejo fazemos parte? Nem mesmo as solidões se encontram.
4
Suicidiário – um neologismo para nomear o morrer contínuo a nos habitar.
5
Os desvios nos levam ao outro, aquele que nos multiplica e nos faz desaparecer ao dobramos esquinas.
6
As interrogações não trazem respostas. As portas e as janelas não se fecham, nem se abrem.
A inutilidade delas trai toda a paisagem.
7
O que é mesmo uma paisagem?
8
Atravesso de um lado para o outro e de novo atravesso de um lado para o outro e de novo atravesso de um lado para o outro e de novo atravesso de um lado para o outro e de novo atr…
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(Foto by João Filho, Niterói-RJ)


“PORQUE QUEM NÃO É CONTRA NÓS É POR NÓS”

Para Renato Russo
in memoriam


– Fica. Por favor, fica. Ei... olha pra mim: sou um homem cansado, tão velho e cansado me acho que fico a lembrar a coisas pequenas. Teu hálito na madrugada... Sabonetes cheios de pêlos... Tampas perdidas de xampus... Ânsias que me faziam engolir uma dúzia de analgésicos. Teu país e teus costumes. E tantos detalhes de sobrados, de tapetes, de largos, de noites, que não mais sei se são teus, mostrados por tua verdade que acasalo, ou se de repente eu mesmo os vi, tonto que ando pelas ruas nesse mundo de buracos que me espantam... Buracos que... Por que diabos estou rindo? Não, não, olha, não é nada engraçado, tem pavor de buracos públicos. Tenho os medos mais absurdos do mundo, e eles apenas significam que na verdade eu já não tenho medos, mas descargas. Uma tensão que sobe, dói, me impede de dormir seis horas de sono, me faz andar nos ladrilhos desprotegido, contrair vírus noturn…
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Depois do Fazer Poesia na Bahia, agora é a vez da prosa. Em Fazer Ficção na Bahia estarão presentes Állex Leilla (autora do romance Primavera nos ossos, selecionado pelo Programa Petrobras Cultural; doutora em Literatura, professora da Universidade Estadual de Feira de Santana), Laura Castro (premiada com a bolsa Funarte de criação literária, transformou textos publicados em blog no livro Cabidela: Bloco de Notas, lançado ano passado), Mariana Paiva (também jornalista e mestranda em Cultura e Sociedade, lançou seu primeiro livro, Barroca, de crônicas poéticas, em 2011) e Tom Correia (reconhecido ficcionista, autor de livros como Sob um Céu de Gris Profundo, editado com apoio de edital da Fundação Pedro Calmon, vinculada à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia), mediados por Luciene Azevedo, doutora em Literatura Comparada, professora do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia, pesquisadora de prosa literária latino-americana a partir dos anos 1990.

Fazer Ficção na B…
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— Ainda bem que você veio me visitar. Vamos secar todas as garrafas. Está uma tarde ótima para se encher a cara. O melhor dos domingos é a possibilidade de beber até cair. Tão triste e chinfrim acordei. Comecei a reler Orientação dos gatos, pra ver se algum raio perdido de luz matutina vinha se abrigar no meu colo. Mas a vontade é de sair por aí jogando bomba-cabeção nas garagens alheias.
— Cadê teu namorado?
— Viajou, a trabalho. Volta na próxima sexta.
— E você não quis ir com ele?
— Não pude, bem que eu queria, tenho tanto trabalho amanhã que fico cansada só de pensar.
— Incrível quanto a vida vista daqui é linda...
— Linda por quê? Por causa do mar e dos barcos atracados no Porto?
— Sim, por causa deles.
— Não sei... Eu tenho problemas com essas idas e vindas. Sempre multiplico os barcos e fico mais triste ainda pensando em quantos barquinhos e navios existem a ba-lançar, em quantos portos, cidades antigas feito esta, balançando, balançando, ao morrer do dia. Ou partindo…
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Nesta quarta-feira, dia 04/07, às 15h., no Cine-Teatro Solar Boa Vista de Brotas (Engenho Velho de Brotas), palestra com JOÃO FILHO, Ruy Espinheira Filho, Vladimir Queiroz e Ondwale, sobre o processo de FAZER POESIA na Bahia. Compareçam!
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- Alguma coisa que me apaixona... Vai e vem... Como as roseiras dos meus pais. De madrugada, eu acordava e ficava olhando pela janela a luz cinza-prata-branca da lua sobre elas, o vento da madrugada... lá e cá... Era como se olhasse o paraíso de dentro do meu quarto, tão perto...
- Teus pais tinham roseiras?
- Tinham... ainda têm, quer dizer, mais ou menos: é que meu pai mora na mesma casa até hoje... Vou te levar lá pra conhecer...
- Que tipo de rosas elas dão?
- Todos os tipos de rosas, que nem você...
- Por isso que você é poeta assim?
- Não sou poeta...
- E por que começa falar desse jeito então?
- Por causa do teu cheiro que me leva de novo pra lá...
- Meu cheiro? Que cheiro?
- Cheiro de rosa levada pelo vento...
- Hmmmm... romântico você, né?
- Não, realista... Vem mais pra cá...
- Assim?
- ...
- Ai... Não morde...
- ...
- Você é doido... Vai acabar rasgando minha roupa...
- ...
- O que você quer, afinal?
- Adivinha!
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INVAGINAÇÕES

A distensão
do teu do amor sóbrio
ópio e deglutição
ginasianos
frutíferos corpos
dão-se ao anoitecer
conto apenas 15 anos
nada sei de Maiakovski
nem de revolução.

(poeminha escrito na adolescência, quando ainda vivia em Bom Jesus da Lapa)
(na foto, surrupiada da internet, Bom Jeusus da Lapa outroramente)
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(Maria Clara quer pisar nos raios de sol; foto by João Filho)

Das utopias


Se as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
a mágica presença das estrelas!

(Mário Quintana)
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[...]
O poço-pergunta muitas vezes é perder-se.
Eis o labor que nos foi dado – crer.
Da falta de fé erguer nosso muro
de enfado e desistência?
Não foste o único e
nem será o último, quando chegaste
a urbe já estava erguida, e não se queixe,
ainda restam bons usos,
aí tem o primário para o mínimo,
entre ceia e manhã
o seu curso.
(João Filho)

Escritores baianos serão publicados em antologia alemã

Dois autores da Casarão do Verbo terão seus trabalhos traduzidos e lançados durante a Feira de Frankfurt, maior evento do mercado editorial do mundo



Em 2013, o Brasil será o país homenageado em território germânico e dois escritores da Bahia já têm presença certa no país de Goethe. Állex Leilla e Tom Correia, ambos da editora baiana Casarão do Verbo, estarão entre os 27 autores brasileiros convidados para uma antologia organizada pela tradutora e brasilianista Marlen Eckel. A ideia, segundo Eckel, é publicar um livro de crônicas e contos de autores que retrate a literatura nacional contemporânea de uma forma ampla e eclética. O volume será lançado em outubro do ano que vem pela editora Lettrétage, sediada em Berlim, durante a Feira de Livros de Frankfurt, uma das mais importantes do mundo.


Apesar de já ter sido traduzida em italiano e espanhol, para a doutora em Literatura Comparada (Universidade Estadual de Feira de Santana) e autora de “Primavera nos ossos”, Állex Leilla, a novidad…
Um conto de minha autoria "A eternidade em carne viva", tematiza a morte e o luto proveniente dela. Publicado na Revista Pesquisa da FAPESP (SP), em setembro de 2011. A revista exigia uma relação entre ficção e pesquisa, investigação científica ou questão reflexivo-acadêmica relacionada com uma área do conhecimento (exatas, humanas ou saúde). Foi escolhida a representação da morte e sua relação com as reflexões de Walter Benjamin, presentes em qualquer pós-graduação da área de Letras em todo o País. Para ler o conto na íntegra: http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/09/05/a-eternidade-em-carne-viva/

Morrisseriana

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Não choveu uma chuva desesperada sobre mim. Não entraram outra vez os raios de sol da primeira manhã em que te descobri, vivo, nalgum canto do planeta, cantando pra mim. Não abriram as derradeiras flores do dia, estupendas, coloridas, pra que eu te levasse braçadas delas em agradecimento. Os carros não cessaram lá fora. As pessoas não cessaram ao redor. Mas dentro da luz – a tua, somente a tua –, no espaço único onde apenas cores e sons juntos a tua imagem reinam, nada existia além/aquém, éramos somente eu e tua voz.
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São 6 dias em Buenos Aires, sem pacote e sem guia. Soltos feito pássaros na multidão. Andamos horas a fio, cortando avenidas largas, perdendo-se em livrarias e museus, descansando em belíssimos cafés e melancólicos parques. No Parque 3 de Febrero, de tão cansada, dormi no colo de João Filho, enquanto ele lia poemas recém-comprados de Rodolfo Godino. O dia é longo e as horas sobram. Fomos ver a casa de Borges, pequena e "cerrada" pra visitas. Palermo Viejo é como uma Vila Madalena mais vigorosa. Muitas avenidas lembram Porto Alegre, Belo Horizonte, São Paulo, mas aqui são maiores, bem maiores. É preciso ter cuidado com os "almuerzos" que já incluem bebida, prato e sobremesa: - Una copa de cerveza o de viño, señora? E nisso podemos comer demais ou adquirir novos hábitos, eu, por exemplo, tenho gostado de beber cerveja antes do almoço. Sempre tive antipatia por cerveja. A daqui é leve e sempre gelada, no ponto. Percorremos toda a rua Suipacha e não encontramos Cortáza…
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Mas a vida precisa realmente de um sentido? E se o tivermos, perderá ela o não-sentido que lhe é intrínseco? E se o tivermos, as questões sem respostas se resolverão? Diminui a dor quando se tem um sentido? Diz-me assim, e assim te digo também, ambos a buscar esporas ou atalhos, cantos abastados de luz, desde que encarnamos: pescoço fora d’água, pescoço vez em quando a querer enterrar-se, seja n’água, seja em solo, que importa o lócus quando tudo derrapa? A vida não tem dia de ir, mas este pode acontecer mesmo agora, enquanto se digere a torta de maçã e o café amargo. Pode ainda ser amanhã, quando encontras o grande amor de tua vida e inesperadamente decidem (Quem? Por quê?) que não o terás mais ao alcance. Nessa gratuidade, biológica, vazia ou divina, arrastamos-nos ou, se assim o quisermos, ou sobrevoamos: asas ora azuis, ora vermelho-carmim. Mesmo tendo, amor meu, em ti todos os sentidos, a vida continua dura quando tem de ser dura, continua bela, posto que também é beleza plena, c…
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Pena não ter nascido na época certa. Chove, a tarde é propícia, tenho comigo uma caixa colorida de giz. Pintar o sol que chuva levou embora, naquele outro tempo, quando você ainda era vivo e me fazia feliz. Os cantos da casa molhados de uma luz que me fala do impossível: o não-vivido, o não-experimentado, o que continua a impressionar, a doer. O olhar vai encontrar formigas carregando pedaços de alimento branco-amarelado, açúcar, farelo de pão, talvez. Juntas, companheiras, sobreviventes. Sei que é muito tarde pra desejar ser feliz, mas quando consigo aquela sensação de sonho e conforto das manhãs, penso ter alguma chance de tocar em você, te sentir inteiro, presente. Ontem, quando voltávamos do Nordeste, o Felipe perguntou se sofri muito com a tua perda, se estou resignado, se já te esqueci. Nunca havia reparado antes no Felipe: ele tem uns olhos límpidos, uma voz segura, ombros largos, boca perfeita. Depois dos shows, há sempre um bando de meninas no camarim atrás dele. Enlouquecida…
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Meu último cineasta vivo, Theo Angelopoulos, responsável pelos poemas em película A eternidade e um dia, Um olhar a cada dia e Paisagem na neblina, faleceu dia 24/01, vítima de uma moto desgovernada. Não era um cineasta qualquer. Sentirei muita falta dos ângulos com que ele filmava a delicadeza e a melancolia do mundo. Tenho todos os motivos para não mais ir ao cinema.

De mar & amor, in: Margens das Letras, coletânea de contos de alunos de Letras, 1998.

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[...]Parou na praia e escutou as ondas chamando-o como numa cantiga. Despiu-se e foi.
Entregou-se às avermelhações de cores que se metamorfoseavam dentro das pes-tanas cerradas pelo mergulho. Quando abriu os olhos, deixou-se ficar na claridade das estrelas e da lua, que penetrava o escuro das ondas.
Mesmo depois, quando já estava deitado na areia, de olhos fechados, sentindo o friozinho que dá no corpo molhado, tentando o impossível, que era seguir fluindo, sem pensar em nada, a claridade do céu ainda golpeava, quer com raios de luzes estrelares, quer com raios da lua, que naquela noite se fazia crescente e nítida.
Assim, tudo parecia mais perigoso. Como que ameaçando, caso ele voltasse a querer se enfiar inteiro nas suas ondas.
Ah, aquelas ondas se multiplicando num horizonte de penumbra. Elas ocultavam mundos escorregadios, pedidos de socorro, urros de alegria, e fantasmas também. Al-guns fantasmas penetravam junto com a claridade ou eram formados por ela. Desenho de bocas e corpos…

O sol que a chuva apagou, Ed. P55, 2009 (trecho)

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[...]
Acendo uma vela azul, um incenso de Noz Moscada. O Matheus me mandou cinco caixas dele. Cada uma tem 10 varetinhas. Você gosta deste cheiro, Ian? Posso acender um a um, dia-a-dia, se você me responder sure, honey, naquele seu jeito rápido de falar mal abrindo a boca, yes, Thiago, você diria como quem está de saída e volta correndo porque esqueceu algo importante, motor do carro ligado, itinerário previamente decidido, chaves, carteira, sobretudo, você diria, it´s fine, dear, jogando um beijo ou simplesmente confirmando: I do. É bom este incenso? Estou meio resfriado pra saber. Ligo o violão, vou lembrando e tocando, primeiro, aquela tua preferida da Chrissie Hynde; segundo, Giz, da Legião; terceiro, Such a woman, do Neil Young, mudando woman pra man, como você fazia, no chuveiro; quarto, The one I love, do R.E.M. Abro uma garrafa de vinho: se houver mesmo aquela história de vida eterna, esteja por aqui e brinde comigo, meu bem. Sim. Meu querido. Duas taças. Essa é pra quem eu mai…

Henrique (romance), Ed. Domínio Públicco, 2001 (trecho)

[...]
Passado o tempo das luzes, descobri que, esbagaçado no banco de um carro, eu não podia ver o mar claro, calmo e ululante. Festim de azul e verde e até amarelo-barro, um tanto gritante, é verdade, pois surge quando o sol raia depois de horas de chuva, e muita da sujeira da cidade que cobre a areia das praias contribui pra formação dessa cor estranha. A que mais silêncio me causava. Podia tentar até a exaustão que não conseguiria nunca removê-la de mim. São Conrado, Pepino, Joá. A mão de meu pai me levava — no princípio era sempre ela — e eu não aceitava retornar pra casa antes do sol se pôr.
Baratas fazem do meu resto de carne um farto banquete. Baratas? Vermes? Ou impressão? Não sei. Vermes que conscientemente odiei me devoram. Não falo dos ratos porque não os vejo. Mas devem existir porque tudo isso faz parte da miséria, entende? Os seus braços, um longo porto, a quilômetros de mim, radiantes. Num grande espaço de tempo minha vida foi tristeza agulha fina perpassando a pele. Não…