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Mostrando postagens de Junho, 2010
Um ruído de ferro contra a calçada de pedra. Carrinho de paralítico. Simples. Sentou pra ouvi-lo. Deve ser aquele mendigo da rua 08. Tentou acompanhar trincando os dentes. Um segundo enorme de barulho, depois, nada, tudo cessou. Passou meio século. De repente, barulho de asas. Pássaro. Não. Asas pesadas e grandes. Pato. Ou marreco. Galinha não pode ser, geralmente cortam-lhes as asas. Só havia uma frestinha de luz na porta. Haveria sorte hoje? Quando o barulho ou o ser que o produzia se encontrava naquele campo minúsculo de claridade, podia se arrastar até lá e descobrir. Mas tinha que ser dia de sorte. Às vezes, não era. Reconhecia-os vez em quando, um estampido parecido com o de arma de caça e ah!, é hoje! Então, lavava o rosto e esperava a completa solidão pra começar a descortinar imagens. Delas tirava vitalidade com a qual ia enchendo vagamente os pulmões para atravessar os dias seguintes, dias de não-sorte. Nesses, contentava-se em mastigar barulhos. Choro de criança, bombas de …