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Mostrando postagens de 2015
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Uma mulher quase plena atravessa a lua.
Todavia, não se pode ter certeza
- e se for lágrima de chuva guardada?
- e se for purpurina solar?
É impossível saber sem erro.
Ainda estás dormindo, bem sei,
e é verde, completamente verde,
o tempo ruidoso lá fora.
Na prisão desse tempo,
nada podes perceber.
Não, não é mais cedo, ao contrário,
o mundo parece demasiado tarde
pro muito pouco que trazemos
entre os dedos.
É estranho que durmas tão alheio
enquanto uma mulher, seguramente plena,
atravessa a lua.

A granel (na íntegra)

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Recentemente, o governo estadual divulgou uma lista de professores que, sendo de regime de dedicação exclusiva, estariam acumulando cargos em outras instituições. Para comprovar o crime, foram cruzados dados do INSS. A lista, estampada na mídia e redes sociais, virou bochicho nas universidades e provocou posts maldosos de alunos e pantomimas de apresentadores de TV. As matérias expunham o salário de um professor universitário com DE, chamavam atenção para os bilhões perdidos pelos cofres públicos e enfatizavam a necessidade de ressarcimento por parte dos infratores. Após uma greve de mais de 90 dias nas quatros universidades estaduais da Bahia, e dentro de um cenário de crise não somente econômica, mas, sobretudo, estrutural, essas manchetes com a denúncia dos docentes criminosos foram mais do que constrangedoras: elas trouxeram um travo na garganta até mesmo dos simpatizantes às causas das UEBAs. Foi, também, uma oportunidade para comprovarmos a eficácia da assessoria de comunicação…

Os irrealistas (cont.)

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Anos mais tarde, acompanhado de um grupo de poetas, retornei ao local. O fantasma ainda estava lá, como se nunca houvera saído, e não fez caso da minha fuga tempos atrás. Ele quem nos falou, pela primeira vez, na existência de uma cápsula capaz de nos levar de volta a um ponto específico da memória e, uma vez lá, desenvolver o que não foi, à época, vivido. Mas não poderia ser apenas uma vivência perdida, interrompida, frustrada, era preciso haver uma verdadeira fome por aquilo que não vingou. Fome genuína = desejo concretizado, sintetizou.
De início, nada compreendemos. Ele, na sua voz esquisita, pontuou: dentro do Vasto Abismo da Memória, havia uma vereda pro Parque dos Amores Perdidos, e quando adentrássemos nele, poderíamos acessar todos os trilhos não-vividos de afetos que nos foram extirpados ou interrompidos. Esses laços podem ser recuperados, explicou, deixando claro que se referia não somente aos amores que foram interditados por ações equivocadas, nossas ou de outrem, mas, …

Os irrealistas (trecho de romance)

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Mal entrei no recinto, o fantasma me avisou:
— Não temos mais nenhum dos cinco sentidos. Aqui, só podemos perceber e sentir. Quer seja sol, quer seja lua, rabo de cometa, gente, clorofila, verme, espinho, grão... desimporta: não há mais mediação, ou sentimos tudo diretamente ou não sentimos nada.
Eu me assustei:
— Isso não é possível! Como vai se sentir o que quer que seja sem a mediação dos cinco sentidos?
— É possível, sim — ele refutou. — Pense num sonho longo: sente-se tudo, todavia, jamais se acorda. Nesse estado, não se enxerga, não se cheira, não se prova, não se ouve, tampouco se toca.
Não acreditei:
— Então, como você sabe que eu sou eu?
— Sabendo. Eu te sinto e te reconheço.
Mesmo querendo me controlar, mesmo me esforçando absurdamente pra não dar uma de mal-educado, berrei:
— Sente onde? Sente como?
O fantasma reclamou:
— Não grite! E pare com essas perguntas bobas. Não há um espaço ou uma maneira específica por onde percebemos a presença de alguém. A verdade é que senti…

Santa Maria em dois dias

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1. Você atravessou o país. E para atravessar o Brasil é preciso descer em três aeroportos (Salvador-Rio de Janeiro; Rio-Porto Alegre; POA-Santa Maria) e subir em três aviões. Você tem problemas de circulação sanguínea e, obviamente, suas pernas incham nesse vaivém pelas nuvens do país. Mas é preciso não ser tão Drummond assim, é preciso rir e ignorar as pedras do caminho, é o que você pensa, por isso, durante a viagem, toma muitos cafés com menta, fala com seu grande amor através de torpedos (pela Claro, pois a TIM não funciona no extremo Sul), e vai lendo um belíssimo texto de Orhan Pamuk, chamado A maleta do meu pai.

2. “O escritor fala de coisas que todos sabem mas não sabem que sabem”, escreve com uma simplicidade rara Pamuk, logo depois de ter afirmado: “ser escritor é reconhecer feridas secretas que carregamos, tão secretas que mal temos consciência delas, e explorá-las com paciência, conhecê-las melhor, iluminá-las, apoderar-nos dessas dores e feridas e transformá-las em parte…

Livros à metade

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1. Meu amor me deu de presente de aniversário uma garrafa de Logan, e Ar de Dylan, de Enrique Vila-Matas. Ainda não inaugurei o Logan em respeito ao Buchannas, que ainda exibe oito dedos do mais profundo e castanho líquido. Assim, ambos aguardam - castanhamente pacientes, como é próprio dos uísques - que minha recente paixão por vinhos portugueses passe - passará? -, que eu retorne ao antigo, ao que não muda. E eu retornarei - penso, planejo, imagino, só não sei quando.

2. Quanto ao Ar de Dylan (mas que título péssimo em português, não?), leio Vila-Matas sempre muito devagar. Antes eu o devorava, porém, aprendi que não se deve devorá-lo, descobri o ritmo certo depois de uns 6 livros e agora não me permito mais de cinco páginas por dia. Muitas vezes, finjo que perdi o marcador e retorno ao princípio: eu já havia lido isso?, pergunto, cinicamente. Não, creio que não! E recomeço. Como os livros dele não têm começo, nem meio, nem fim, tanto faz por onde se entre ou se retorne. É desses a…