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O homem sem qualidade

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1. Nas minhas andanças pelo cinema inverossímil da vida, assisti, perplexa, a um diálogo entre duas irmãs, enquanto esperava minha vez de fazer as unhas, num salão. Nunca me esqueci desse diálogo e posso reconhecer suas protagonistas em qualquer lugar, por mais distante que esteja, hoje, da cena. Foi algo muito singular, mas quem conhece Salvador não vai se surpreender. Era um salão popular, e eu me recordo que ainda morava num quarto e sala, no Canela. Anotei esse diálogo, bem como seu contexto, em meu diário, assim que cheguei em casa, ansiosa por não perder nenhuma parte da experiência — plena de absurdos e falas tão espontâneas que logo pensei: darão um ótimo conto.

2. Não deram. De lá pra cá, tentei fazer literatura com esse diálogo uma meia dúzia de vezes. O resultado era bestinha, despido de qualquer traço da ironia deliciosamente esquisita que ouvi no salão. Revoltada com as leis da escrita — por vezes inegociáveis, quando não sádicas —, fiz aquilo que nossas avós costumavam…