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Mostrando postagens de Janeiro, 2012
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Meu último cineasta vivo, Theo Angelopoulos, responsável pelos poemas em película A eternidade e um dia, Um olhar a cada dia e Paisagem na neblina, faleceu dia 24/01, vítima de uma moto desgovernada. Não era um cineasta qualquer. Sentirei muita falta dos ângulos com que ele filmava a delicadeza e a melancolia do mundo. Tenho todos os motivos para não mais ir ao cinema.

De mar & amor, in: Margens das Letras, coletânea de contos de alunos de Letras, 1998.

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[...]Parou na praia e escutou as ondas chamando-o como numa cantiga. Despiu-se e foi.
Entregou-se às avermelhações de cores que se metamorfoseavam dentro das pes-tanas cerradas pelo mergulho. Quando abriu os olhos, deixou-se ficar na claridade das estrelas e da lua, que penetrava o escuro das ondas.
Mesmo depois, quando já estava deitado na areia, de olhos fechados, sentindo o friozinho que dá no corpo molhado, tentando o impossível, que era seguir fluindo, sem pensar em nada, a claridade do céu ainda golpeava, quer com raios de luzes estrelares, quer com raios da lua, que naquela noite se fazia crescente e nítida.
Assim, tudo parecia mais perigoso. Como que ameaçando, caso ele voltasse a querer se enfiar inteiro nas suas ondas.
Ah, aquelas ondas se multiplicando num horizonte de penumbra. Elas ocultavam mundos escorregadios, pedidos de socorro, urros de alegria, e fantasmas também. Al-guns fantasmas penetravam junto com a claridade ou eram formados por ela. Desenho de bocas e corpos…

O sol que a chuva apagou, Ed. P55, 2009 (trecho)

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Acendo uma vela azul, um incenso de Noz Moscada. O Matheus me mandou cinco caixas dele. Cada uma tem 10 varetinhas. Você gosta deste cheiro, Ian? Posso acender um a um, dia-a-dia, se você me responder sure, honey, naquele seu jeito rápido de falar mal abrindo a boca, yes, Thiago, você diria como quem está de saída e volta correndo porque esqueceu algo importante, motor do carro ligado, itinerário previamente decidido, chaves, carteira, sobretudo, você diria, it´s fine, dear, jogando um beijo ou simplesmente confirmando: I do. É bom este incenso? Estou meio resfriado pra saber. Ligo o violão, vou lembrando e tocando, primeiro, aquela tua preferida da Chrissie Hynde; segundo, Giz, da Legião; terceiro, Such a woman, do Neil Young, mudando woman pra man, como você fazia, no chuveiro; quarto, The one I love, do R.E.M. Abro uma garrafa de vinho: se houver mesmo aquela história de vida eterna, esteja por aqui e brinde comigo, meu bem. Sim. Meu querido. Duas taças. Essa é pra quem eu mai…

Henrique (romance), Ed. Domínio Públicco, 2001 (trecho)

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Passado o tempo das luzes, descobri que, esbagaçado no banco de um carro, eu não podia ver o mar claro, calmo e ululante. Festim de azul e verde e até amarelo-barro, um tanto gritante, é verdade, pois surge quando o sol raia depois de horas de chuva, e muita da sujeira da cidade que cobre a areia das praias contribui pra formação dessa cor estranha. A que mais silêncio me causava. Podia tentar até a exaustão que não conseguiria nunca removê-la de mim. São Conrado, Pepino, Joá. A mão de meu pai me levava — no princípio era sempre ela — e eu não aceitava retornar pra casa antes do sol se pôr.
Baratas fazem do meu resto de carne um farto banquete. Baratas? Vermes? Ou impressão? Não sei. Vermes que conscientemente odiei me devoram. Não falo dos ratos porque não os vejo. Mas devem existir porque tudo isso faz parte da miséria, entende? Os seus braços, um longo porto, a quilômetros de mim, radiantes. Num grande espaço de tempo minha vida foi tristeza agulha fina perpassando a pele. Não…