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Mostrando postagens de Abril, 2015

Os irrealistas (cont.)

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Anos mais tarde, acompanhado de um grupo de poetas, retornei ao local. O fantasma ainda estava lá, como se nunca houvera saído, e não fez caso da minha fuga tempos atrás. Ele quem nos falou, pela primeira vez, na existência de uma cápsula capaz de nos levar de volta a um ponto específico da memória e, uma vez lá, desenvolver o que não foi, à época, vivido. Mas não poderia ser apenas uma vivência perdida, interrompida, frustrada, era preciso haver uma verdadeira fome por aquilo que não vingou. Fome genuína = desejo concretizado, sintetizou.
De início, nada compreendemos. Ele, na sua voz esquisita, pontuou: dentro do Vasto Abismo da Memória, havia uma vereda pro Parque dos Amores Perdidos, e quando adentrássemos nele, poderíamos acessar todos os trilhos não-vividos de afetos que nos foram extirpados ou interrompidos. Esses laços podem ser recuperados, explicou, deixando claro que se referia não somente aos amores que foram interditados por ações equivocadas, nossas ou de outrem, mas, …

Os irrealistas (trecho de romance)

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Mal entrei no recinto, o fantasma me avisou:
— Não temos mais nenhum dos cinco sentidos. Aqui, só podemos perceber e sentir. Quer seja sol, quer seja lua, rabo de cometa, gente, clorofila, verme, espinho, grão... desimporta: não há mais mediação, ou sentimos tudo diretamente ou não sentimos nada.
Eu me assustei:
— Isso não é possível! Como vai se sentir o que quer que seja sem a mediação dos cinco sentidos?
— É possível, sim — ele refutou. — Pense num sonho longo: sente-se tudo, todavia, jamais se acorda. Nesse estado, não se enxerga, não se cheira, não se prova, não se ouve, tampouco se toca.
Não acreditei:
— Então, como você sabe que eu sou eu?
— Sabendo. Eu te sinto e te reconheço.
Mesmo querendo me controlar, mesmo me esforçando absurdamente pra não dar uma de mal-educado, berrei:
— Sente onde? Sente como?
O fantasma reclamou:
— Não grite! E pare com essas perguntas bobas. Não há um espaço ou uma maneira específica por onde percebemos a presença de alguém. A verdade é que senti…