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Mostrando postagens de Janeiro, 2007

Dores de mim (trechos)

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A vida é engraçada: os objetos quebrados, mesmo colados, não formam mais um. O todo não se separa, porém, se for separado, jamais volta a ser todo outra vez. E é assim, dentro do absurdo, do inaceitável, que devemos, meio tortos, meio loucos, buscar alguma forma de ser felizes. (João Miguel)


A quentura da padaria encosta em mim.
Odeio perder plantas e não descobrir o por quê. Morte ingrata, toda a natureza recende à ingratidão.
Você murmura meu nome sem saber realmente quem sou. Diz que me quer bem sem nunca ter me conhecido de verdade. Nem desconfia: sou capaz de fazer coisas inimagináveis, magoaria até Deus se achasse preciso. Gosto desta palavra: preciso. Posso usá-la em vários níveis, me embriagar dela.
Não adianta.
Sofro.
No meio da calçada procurando acertar o passo. No meio da calçada, procurando, procurando. Dentro da mesma atmosfera. O verde cheira a mofo. A chuva nunca vem. Lembro de filmes que dividimos juntos e seguro o choro: mulher de verdade não chora com um saco de pão quent…
Por que nunca mudam a história: você é/não é feliz? Não, ele não quer o encontro, a possibilidade. Ele é todo neutro. O vazio sem azul, o vazio sem qualquer vestígio de mar. Felicidade, deixe-o em paz. A tempestade atravessada não se sabe quantas vezes. Não importa. As bacias d’água na chuva fazem pin-ploc, pinnnn-plooooc. Ele ignora. Ele é todo outono. Feche os olhos comigo e veja-o pleno. 1, 2, 3, 4, 5, 6... Ele está de perfil, olhos obscurecidos por uma sombra tênue que não deixa serem percebidas a íris azul-profundo, a pupila, o branco cortado por fios vermelhos, os cílios irônicos que, não se sabe exatamente por qual razão, parecem estar sempre abrindo de maneira um tanto lânguida, um tanto desafiadora – com predomínio da segunda. Nas fotos do inverno, ele só aparece até a cintura. Agarrado num poste, olhos fechados, como que fincado no meio da rua, que, recortada neste ângulo, é mais largo ou praça. A cabeça encostada no poste, as mãos como que se segurando, camisa branca de manga…
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O dia está claro, suavíssimo. Não querer fazer coisa alguma. Até as leituras podem esperar. Esticar os pés na cama, morta de vontade de nada fazer.

Deslizar e deslizar.

Lembra quando você nos deu sabonete de erva-doce, naquela primeira vez em que tomamos banho em tua casa?

Pra onde vão os sabonetes, o que fazem com eles os donos da casa quando as visitas vão embora? Usam de novo? Guardam pra novas visitas? Jogam fora?

As acácias estão mais amarelas, as folhas tão verdes, quase não conseguimos abandoná-las, sair da janela, voltar a atenção pra toda uma vida por refazer.

Aqui, se vê o mar: verde na praia, branco-marfim onde quebram ondas; azul-escuro pros lados de Barra; cinza-azulado no horizonte.

Nem as frutas nem as matas nem os bichos nem as flores. O mar. As cores saem dos nossos olhos, de nosso cérebro renovado e migram pro mar. O mar faz um tapete delas, das cores que parimos e codificamos na manhã. Usamos a luz do mundo pra ver o sol melhor, já que somos brasileiros e somos tão baiano…
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Então, a ausência.
Quando acordo, as luzes da cidade já estão acesas.
A coleção de recortes dele: pára-lamas banhados de chuvas, bacias de alumínio refletindo o sol, crianças debaixo de biqueiras, crianças nuas, alegres, molhadas, brinquedos gigantes girando num parque vazio.

Não me recordo de nenhuma pessoa em especial na cidade de origem, ando no meio das ruínas, as árvores que não voltam a crescer, o cinza-marrom-amortecido-permanente pairando sobre os esqueletos, ocupando espaço entre o resto de chão e as crateras, ando e nunca, nem por uma frestazinha de memória, consigo me lembrar de alguém.
O templo da memória. Há que se adentrar de pés nus e quentes, sem intenção de resgate, apenas implorando um sentido qualquer. Gota de chuva, raio de sol. Que quando somos assim, implorantes, a bolha do mundo acha graça e nos dá um agrado qualquer. Este: ele vem de bicicleta, cabelos assanhados, gritando meu nome antes da curva do rio. Ele vem e eu espero seu descer da bicicleta, seus braços em m…