terça-feira, janeiro 02, 2007


Então, a ausência.
Quando acordo, as luzes da cidade já estão acesas.
A coleção de recortes dele: pára-lamas banhados de chuvas, bacias de alumínio refletindo o sol, crianças debaixo de biqueiras, crianças nuas, alegres, molhadas, brinquedos gigantes girando num parque vazio.

Não me recordo de nenhuma pessoa em especial na cidade de origem, ando no meio das ruínas, as árvores que não voltam a crescer, o cinza-marrom-amortecido-permanente pairando sobre os esqueletos, ocupando espaço entre o resto de chão e as crateras, ando e nunca, nem por uma frestazinha de memória, consigo me lembrar de alguém.
O templo da memória. Há que se adentrar de pés nus e quentes, sem intenção de resgate, apenas implorando um sentido qualquer. Gota de chuva, raio de sol. Que quando somos assim, implorantes, a bolha do mundo acha graça e nos dá um agrado qualquer. Este: ele vem de bicicleta, cabelos assanhados, gritando meu nome antes da curva do rio. Ele vem e eu espero seu descer da bicicleta, seus braços em meu pescoço, seu beijo em minha pele, seu hálito de café-com-leite.

Então, a presença.
Quando durmo, a extensão morna de seu corpo ainda faz giros na sala. Está tudo tão claro na cidade. Olho os seus recortes: crianças na biqueira, pára-lamas banhados de chuva, brinquedos gigantes girando num parque vazio, bacias de alumínio refletindo o sol.

Um comentário:

  1. Sua prosa poética me faz mergulhar em oceanos espessos e estranhos. Quanta literatura maravilhosa em nossa velha Bahia! Grande abraço.

    ResponderExcluir

Paulistânias II

1 Você deve esquecer que dormiu mal, que dorme mal há semanas, desde que se mudou pra cá. Esse negócio de deixar o negativo de lado (qui...