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Mostrando postagens de Agosto, 2008
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[...] Fácil é pensar em falar com ele, não como se sofresse um súbito acesso de fuga e, confusa, estivesse dialogando com o que não há. Não isso de borboleta errante procurando pouso em flores baldias. Que isso, apesar de bonito, é torto e não ameniza dor nenhuma. Nada de fuga, reticências, abstrações. Se pudesse estar olhos nos olhos com ele, comentar qualquer bobagem — não da dor, da dor não, agora: não, por Deus! —, cercar-se de coisas leves, comentários sobre a primavera, sobre café expresso com creme, sobre a temperatura certa do vinho tinto, sobre cigarros, sobre as condições do tempo em Salvador. Algo meio folha de amendoeira ao vento: bela, leve, cheia de retrâncias avermelhadas. Que amigos, amigos verdadeiros, ela leu em algum lugar e ainda se lembra, precisam apenas de proximidade, não de conteúdo ou confissões, precisam é estalar a língua no ar, espairecer. Uma conversa meio apoio para o corpo, uma conversa um tanto pilastra, coluna grega pra escorar a dor. Escore esta hemo…
Há uma voz pedindo silêncio na manhã azul em que muitos ganharam, muitos perderam.
Dizem os deuses: coisas são voláteis, coisas respiram,
então, havemos de lembrá-las, havemos de esquecê-las.
A temeridade do lamento afoga a manhã,
combatendo como numa guerra o silêncio solicitado.


*** Se você pretende ser lilás, etérea, difusa, suicida, às 3 da manhã, saiba, antes que aquela porta se abra às 3 da manhã e espalhe entre as flores a ajuda que sua voz jamais formulou que todo caldo entorna devagarinho na estrada, que tudo leva a curvas desconhecidas, a rótulas misteriosas que o que hoje nos impele à inação, amanhã nos leva a dançar pierrôs perdidos, columbinas esgarçadas, arlequins inquietos, a perguntar, a responder, como na canção italiana, che cosa so?, che cosa sei?, che cosa sai? Niente, è vero. Ninguém sabe coisa alguma entre o céu e o mar. Eco il nostro destino: parlare, parlare, come la prima volta.
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Mas não era possível terminar assim: seda rasgada justamente onde a seda lilás ficaria, não podia ser tão abismo e, por isso mesmo, pontiagudo, pedregulho, arranhento. Uma vida que se desliza - marfim, âmbar, amarelo-pêssego - quase nunca círculo, tampouco linha reta, uma vida que naturalmente se inventa - Bandeira, Cecília, Quintana -, assim no aconchego do dentes e das coisas derradeiramente precisadas, escolhidas. Que terminasse de outra forma: louça partida, cristal em mil pedacinhos, água escorrendo brusca e, lá na frente, ficando intransponível, pardacenta, suja. Mas não dessa forma: seda esgarçando, morre-não morre, lupa aumentando os mil pontinhos do corte, lupa multiplicando, expandindo. Não, definitivamente não era possível terminar assim.