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Mostrando postagens de Julho, 2012
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Zéo: não entendo por que você foi embora tão cedo. Ficou me devendo um vinho do Porto, que tomaríamos numa tarde livre de quarta, eu, você e João, aqui em casa, na varanda, olhando as amendoeiras. Tomo este cálice agora sozinha e leio os últimos escritos que você me enviou por e-mail.
Vá em paz. Sentiremos em excesso a tua doce falta.
Te amo.

[...]
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E lá estamos: jogados no vazio. Quem nos recordará? De qual desejo fazemos parte? Nem mesmo as solidões se encontram.
4
Suicidiário – um neologismo para nomear o morrer contínuo a nos habitar.
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Os desvios nos levam ao outro, aquele que nos multiplica e nos faz desaparecer ao dobramos esquinas.
6
As interrogações não trazem respostas. As portas e as janelas não se fecham, nem se abrem.
A inutilidade delas trai toda a paisagem.
7
O que é mesmo uma paisagem?
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Atravesso de um lado para o outro e de novo atravesso de um lado para o outro e de novo atravesso de um lado para o outro e de novo atravesso de um lado para o outro e de novo atr…
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(Foto by João Filho, Niterói-RJ)


“PORQUE QUEM NÃO É CONTRA NÓS É POR NÓS”

Para Renato Russo
in memoriam


– Fica. Por favor, fica. Ei... olha pra mim: sou um homem cansado, tão velho e cansado me acho que fico a lembrar a coisas pequenas. Teu hálito na madrugada... Sabonetes cheios de pêlos... Tampas perdidas de xampus... Ânsias que me faziam engolir uma dúzia de analgésicos. Teu país e teus costumes. E tantos detalhes de sobrados, de tapetes, de largos, de noites, que não mais sei se são teus, mostrados por tua verdade que acasalo, ou se de repente eu mesmo os vi, tonto que ando pelas ruas nesse mundo de buracos que me espantam... Buracos que... Por que diabos estou rindo? Não, não, olha, não é nada engraçado, tem pavor de buracos públicos. Tenho os medos mais absurdos do mundo, e eles apenas significam que na verdade eu já não tenho medos, mas descargas. Uma tensão que sobe, dói, me impede de dormir seis horas de sono, me faz andar nos ladrilhos desprotegido, contrair vírus noturn…
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Depois do Fazer Poesia na Bahia, agora é a vez da prosa. Em Fazer Ficção na Bahia estarão presentes Állex Leilla (autora do romance Primavera nos ossos, selecionado pelo Programa Petrobras Cultural; doutora em Literatura, professora da Universidade Estadual de Feira de Santana), Laura Castro (premiada com a bolsa Funarte de criação literária, transformou textos publicados em blog no livro Cabidela: Bloco de Notas, lançado ano passado), Mariana Paiva (também jornalista e mestranda em Cultura e Sociedade, lançou seu primeiro livro, Barroca, de crônicas poéticas, em 2011) e Tom Correia (reconhecido ficcionista, autor de livros como Sob um Céu de Gris Profundo, editado com apoio de edital da Fundação Pedro Calmon, vinculada à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia), mediados por Luciene Azevedo, doutora em Literatura Comparada, professora do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia, pesquisadora de prosa literária latino-americana a partir dos anos 1990.

Fazer Ficção na B…
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— Ainda bem que você veio me visitar. Vamos secar todas as garrafas. Está uma tarde ótima para se encher a cara. O melhor dos domingos é a possibilidade de beber até cair. Tão triste e chinfrim acordei. Comecei a reler Orientação dos gatos, pra ver se algum raio perdido de luz matutina vinha se abrigar no meu colo. Mas a vontade é de sair por aí jogando bomba-cabeção nas garagens alheias.
— Cadê teu namorado?
— Viajou, a trabalho. Volta na próxima sexta.
— E você não quis ir com ele?
— Não pude, bem que eu queria, tenho tanto trabalho amanhã que fico cansada só de pensar.
— Incrível quanto a vida vista daqui é linda...
— Linda por quê? Por causa do mar e dos barcos atracados no Porto?
— Sim, por causa deles.
— Não sei... Eu tenho problemas com essas idas e vindas. Sempre multiplico os barcos e fico mais triste ainda pensando em quantos barquinhos e navios existem a ba-lançar, em quantos portos, cidades antigas feito esta, balançando, balançando, ao morrer do dia. Ou partindo…
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Nesta quarta-feira, dia 04/07, às 15h., no Cine-Teatro Solar Boa Vista de Brotas (Engenho Velho de Brotas), palestra com JOÃO FILHO, Ruy Espinheira Filho, Vladimir Queiroz e Ondwale, sobre o processo de FAZER POESIA na Bahia. Compareçam!
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- Alguma coisa que me apaixona... Vai e vem... Como as roseiras dos meus pais. De madrugada, eu acordava e ficava olhando pela janela a luz cinza-prata-branca da lua sobre elas, o vento da madrugada... lá e cá... Era como se olhasse o paraíso de dentro do meu quarto, tão perto...
- Teus pais tinham roseiras?
- Tinham... ainda têm, quer dizer, mais ou menos: é que meu pai mora na mesma casa até hoje... Vou te levar lá pra conhecer...
- Que tipo de rosas elas dão?
- Todos os tipos de rosas, que nem você...
- Por isso que você é poeta assim?
- Não sou poeta...
- E por que começa falar desse jeito então?
- Por causa do teu cheiro que me leva de novo pra lá...
- Meu cheiro? Que cheiro?
- Cheiro de rosa levada pelo vento...
- Hmmmm... romântico você, né?
- Não, realista... Vem mais pra cá...
- Assim?
- ...
- Ai... Não morde...
- ...
- Você é doido... Vai acabar rasgando minha roupa...
- ...
- O que você quer, afinal?
- Adivinha!