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Mostrando postagens de 2014

Enquanto não morro, envelheço

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1. Enquanto não morro, envelheço, neste planeta molhado, donde entramos há poucos dias - trégua que Salvador nos dá antes do verão? -, neste planeta onde ficamos bem, um tanto azul-turquesa, um tanto azul-marinho, pois por mais problemas que saibamos vir a reboque da chuva, ainda é a chuva a linguagem mais densa e verdadeira que a natureza pode ter conosco.

2. Enquanto não morro, envelheço, véspera dos 43 e pensando o quanto seria perfeito se isso ocorresse agora, entre suas pernas e braços, agora, entre seus pêlos e dentes, agora, no nosso quarto, na sala, nas escadas, na chuva lá fora, em qualquer que fosse o canto, desde que entre suas pernas.

3. Enquanto não morro, envelheço, feliz por de repente sorver o silêncio - tão raro, tão fugidio - o silêncio nas folhas das amendoeiras, o silêncio dos passarinhos se sacudindo, o silêncio que mora embaixo da reforma irritante do prédio vizinho, o silêncio massacrado pelas rodas dos carros impacientes, pelas conversas estridentes de quem pa…

"Não tenho nada com isso nem vem falar/eu não consigo entender sua lógica"

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Ampliando aqui um pedido meu postado no FACE:

Peço, por gentileza, aos meus queridos facebooquianos, quer sejam amigos, quer sejam conhecidos, alunos, colegas, ou mesmo parentes e agregados: não me marquem em posts pseudo-positivos ou pseudo-revoltosos sobre o Nordeste e os nordestinos. Eu não compactuo com essas raivinhas criadas no calor da hora e sei perfeitamente a quem elas estão promovendo. Não percam seus preciosos tempos com essa baiana-nordestina aqui. Tenho memória suficiente das eleições presidenciais, a partir de 1989, quando comecei a votar, e sei perfeitamente dessas armadilhazinhas criadas tanto por quem vence como por quem perde. Ora são os paulistas que afundam o Brasil, ora são as elites, ora são os pobres, e quem mais servir de algoz à vítima do momento. É óbvio que todos nós, de alguma forma, sabíamos que o PT iria ganhar essa eleição, porém, é facultado aos cidadãos livres dizerem "sim" ou "não" às probabilidades. E eu disse, digo e direi NÃO …

E aquela boa e velha mão na cara?

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1. Existir é realmente uma tarefa árdua, por vezes ingrata. Não é à toa que Clarice Lispector (me refiro à escritora brasileira que nasceu na Ucrânia, não à Clarice do Facebook) escreveu: "nascer me estragou a saúde para sempre". É verdade. Nada mais nocivo à saúde, quer do corpo, quer da mente - que de resto estão hiperligados; nós, esquizos, é que os separamos - do que essa estranha ódio-amorosa vida que teimamos em viver.

2. Quero que você saiba, meu caro, minha cara, que estamos juntos nesse barco. Não é muito, mas, pense, pense, estar acompanhado(a) já é alguma coisa, não? Claro que sim. Seja forte, criatura!, resista mais um pouco, resistir é do humano, lembra?

3. Você que a cada minuto respira fortemente, pra dentro/pra fora. Respira, respira, rói as unhas, torce cacho, se faz de distraído(a), surdo(a), alheio(a), solta os ombros, pensa/repensa, e dá um tempo, em vez de pôr em prática a grande e genuína vontade de meter a mão na cara do(a) próximo(a), porque sim, es…

Dicionário Amoroso de Salvador, João Filho

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É com muita alegria, e orgulho confesso de leitora e esposa, que convido todos vocês para o lançamento do Dicionário Amoroso de Salvador, de João Filho, dia 27/09, a partir das 18h, na Livraria Cultura, no Shopping Salvador.

O Dicionário Amoroso de Salvador integra o projeto da editora Casarão do Verbo que abrange, inicialmente, 12 capitais do País - aquelas que foram cenário dos jogos da Copa de 2014.

São chamados de Dicionários porque os temas entram em formato de verbetes, porém, se trata, na verdade, de crônicas amorosas, apimentadas, sensuais, satíricas, ácidas e poéticas acerca dessas 12 cidades.

Os olhares são pessoais, e as imagens que saltam nas páginas são frutos da relação complexa que cada indivíduo - neste caso, escritores, poetas, artistas - têm com a cidade onde nasceram e/ou escolheram para viver. O projeto é completado com ilustrações de artistas escolhidos a dedo, que dialogam muito bem com a linguagem literária. No caso de Salvador, as ilustrações são de Caius M…

Amizades & amizades

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1. Penso muito nos formatos, durações e sentidos das tantas amizades que fazemos ao longo da vida. Recentemente, tive um sonho muito esquisito, mais precisamente um pesadelo, em que me encontrava num lugar estilo fim de mundo e um fantasma vinha falar comigo. Ele me explicava algumas "regras" a respeito do que chamaríamos "vida após morte". Uma dessas regras me revoltava muito: quando mortos, dizia o nobre fantasma, perdemos todos os sentidos. De olhos abertos, me parece lógico, porém, lá no interior do sonho-pesadelo, aquilo me causava uma angústia enorme, seguida de grande indignação.

2. No meio da minha contenda com o fantasma - que tentava em vão me explicar por que não podemos ouvir, cheirar, saborear, tocar e ver, quando mortos -, percebi que, na verdade, eu o conhecia: era um grande amigo meu. Um amigo a quem muito amei e que morreu há cerca de dois anos.

3. De olhos abertos, me lembrei das primeiras e últimas conversas que tive com esse meu amigo. Poeta, p…
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1. Há um tipo de solidão que é pura vertigem: não passa pela razão, não tem motivos no cotidiano concreto dos afetos e relações, só tem, ao que parece, gatilhos; solidão que nada preenche nem faz entender. Você põe Cassandra Wilson, enche um copo de Buchanas, três pedras de gelo, tenta apenas dissolver a sensação. Ou piorar, por que não? Afinal, você é daqueles que Dr. Freud chamava masoquistas, não? Sure! Nada é tão ruim que não possa ficar pior! Mergulhar de vez e fazer valer o que o oráculo há séculos te previa: Escorpião, o mais obscuro dos signos.
2. O tema é: como aprofundar o corte ainda mais. Ou: como a faca pode ir além. Sim, sim, por que não? Ou: que mal há no fundo do fundo mais fundo profundo do abismo?
3. Deixe disso: o sábado é belíssimo e os passarinhos fazem seus barulhos, aos quais chamamos de "canto", nas três amendoeiras lá embaixo. O céu, azulíssimo, faz duvidar das chuvas de horas atrás.
4. Você leu há pouco dois contos magnificamente bem escritos do l…

Mais uma da Carochinha

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Conto da Carochinha para adultos que bateram demais a cabeça na infância (quedas bruscas, descuidados maternos, brigas com coleguinhas) e hoje apresentam problemas de raciocínio, porém, não sabem disso:

1. Era uma vez um lindo país varonil onde seus governantes resolveram beneficiar em 100% a indústria automobilística, aumentar consideravelmente o lucro dos banqueiros e dos demais grandes empresários, sob a desculpa de estarem melhorando a economia da nação. O mundo estava em crise? Sem problemas, carros e eletrodomésticos da linha branca para todos. Eba!!!, gritou o povo, feliz por ser governado por gente tão inteligente, cujo ministro acabava de descobrir que o problema da economia é o consumo.
2. Esse mesmo governo se orgulhava de fazer caridade com o chapéu da classe assalariada, distribuindo um negócio fantástico chamado bolsa família: ajuda os pobres, injeta dinheiro na economia de muitas cidadezinhas, garante os votos por mais umas cinco ou seis eleições, e, o melhor!, não pr…

Carochinhas Varonis

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1. De uns tempos pra cá, tenho me lembrando muito das histórias da carochinha que eu ouvia quando criança. Basta entrar no facebook ou folhear algum jornal ou revista: vemos pipocar aqui e ali textos "aparentemente inteligentes" e "independentes" acerca de problemas nacionais. São as carochinhas do Brasil varonil. As autorias são variadas, porém, os textos que chamam mais a atenção vêm de rubricas que revelam alguma figura consagrada pela opinião pública - "intelectual", "jornalista", "artista" ou "escritor". Os argumentos trazem um raciocínio "brilhante" aos olhos dos leitores pouco analíticos e de tendência a se impressionar. Sabe aquelas bobagens que soam grandiosas quando estamos num bar sob o efeito da terceira ou quinta dose de Red Labbel? Sim, pode ser de Ice, depende do que você prefere, gatinha. Com uísque você cai? Então, vá de Ice!

2. Cinco doses de Red Label ou Ice e você também achará brilhante que uma…

Entrevista com o poeta João Filho

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Entrevista com o poeta João Filho
IN: LITERATURA|POESIA
16 mai 2014



João Filho é poeta. E está lançando seu novo livro, “A Dimensão Necessária” (Editora Mondrongo, Bahia, 2014). Sou suspeito para falar de João, pois ele tem sido de uma generosidade ímpar para comigo. Quem diz que não se faz amigos pelo facebook está enganado. Eu e João nos conhecemos e vamos assim contruindo uma amizade. Na verdade, gostaríamaos de nos encontrar e tomar um café ou uma cerveja juntos, conversar sobre literatura, filosofia, música, jogar conversa fora. Mas Salvador é bem longe de Cantagalo. Por isso nos falamos por aqui. E dividimos a conversa com vocês.
Não me sinto capaz de falar da poesia de João. Mas ela é sublime. Há dias carrego comigo meu exemplar de “A Dimensão Necessária” – na minha mochila, na garupa de minha bicleta, no bolso de meu casaco. O talento de João é admirável. Estou há dias degustando ”Nitidez submersa”, o primeiro poema de “A dimensão necessária”, que é de uma beleza indizível.
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- Então parou de chover, mas o vento continua. Fortíssimo. Um gato persegue um mico, e esse sobe feito raio na árvore. E o gato não sobe atrás? Não, não sobe, fica embaixo, olhando o outro. Que estranho, não? Sequer sabia eu que gatos corriam atrás de micos. E há tantos, há muitos, há milhares no campus da UEFS.

- É preciso dar parecer num texto fruto de uma pesquisa em que se discute a imprecisão dos conceitos gramaticais e sua utilização na sala de aula. Quer o autor nos fazer crer que é esse um dos motivos do baixo aprendizado do português padrão no nosso país. São hordas de jovens que mal sabem redigir um parágrafo, hordas de portadores de diploma. E seria a imprecisão dos conceitos de sujeito, predicado, adjunto... seria essa uma das razões pra se passar anos numa escola e de lá sair sem sequer saber ler e escrever? Então temos um país que não sabe ler nem escrever por que não lhe foi ensinado corretamente os termos da oração? Será que nossos avôs sabiam disso? Ligar pra meu avô…

Resenha sobre "Chuva Secreta", Jornal Rascunho, abril de 2014

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A metáfora da chuva

A linguagem é a mais forte marca da prosa de Állex Leilla, com uma precisão milimétrica no uso de cada expressão

Desde o realismo social de Dalcídio Jurandir em Chove nos campos de Cachoeira até o surrealismo alegórico de Campos de Carvalho em A chuva imóvel, o fenômeno natural sempre nos aparece como sinônimo, ou melhor, metáfora de opressão. O tempo sem sol, o céu pesado, a chuva longa surgem bonitos e esperançosos em Graciliano Ramos, no capítulo Inverno de Vidas secas, em que o som de trovões vindo do rio e o cantar dos sapos acalentam os personagem. No entanto, mesmo aí, há uma mancha de mágoa. Fabiano movido pela alegria da invernia até ensaia contar uma história enquanto Sinhá Vitória, precavida, cuida dos filhos sabendo que a bonança tem dono, e não são eles.

Enfim tudo termina por se voltar ao parágrafo final do romance de Campos de Carvalho numa espécie de sentença fatal do destino: “Mesmo morto continuarei dando meu testemunho de morto. Esta chuva imóvel …
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Domingo ouvindo o Rei e bebendo TODAS. Acaba o Jack Daniels, mas o ser humano não quer saber de pausa. Até Bacardi com Licor de Menta rola... Quando começa "A distância", penso naquela clássica cena: abrir os pulsos com gilete numa banheira cheia de sais de jasmim, o sol entrando pelo vidro empoeirado da janela baterá direto no copo de uísque pela metade. É meu sonho antigo!
Mas então me lembro:
a) meu poeta preferido está na varanda, e me espera sorrindo;
b) não tenho mais 27 anos (idade limite pro suicídio);
c) não me despedi das busças, como morrer então?

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O áspero poema? Não mais quero.
O inviável abismo? Já descri.
Foi com inabalável esmero
que duramente me persegui.

Se tudo é insuficiente, espero.
O instante vence o tédio, senti.
Se a valsa mudou-se em bolero,
o ritmo pouco importa, vivi.

Pelo tropeço suavizei o passo.
Seu corpo é o sentido que devasso
devagar, como quem respira.

Gota que se equilibra suspensa -
a vida. Mínima que é imensa,
quando pensa que é real, delira.

In_ JOÃO FILHO. A dimensão necessária. Itabuna: Mondrongo, 2014.
À venda

Livraria Cultura:
http://pesquisa.livrariacultura.com.br/busca.php?q=a+dimens%C3%A3o+necess%C3%A1ria+jo%C3%A3o+filho

Loja Singular:
http://www.lojasingular.com.br/literatura-brasileira/a-dimens-o-necessaria_9788565170451.html

Livraria Hora de Leitura:
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