Domingo, Junho 28, 2009
Lançamento de "Ao longo da linha amarela", de João Filho
Todos estão convidados para comparecer na terça-feira, dia 07/07, às 19h., à Livraria Tom do Saber, no Rio Vermelho, para o lançamento do livro de contos "Ao longo da linha amarela", de João Filho. Abaixo o convite.
Quarta-feira, Junho 24, 2009
Não há domínio que dure mais de dez minutos, deitado, inerte, olhando os pingos d'água contra o muro, pedaços de gravetos são apenas pedaços de gravetos, brasa dormida que não tem o que ensinar agora nem nunca, no chão ou em Marte, é preciso escorregar entre um novelo e outro, saber/ver o que sua mão constrói e a cabeça desconstrói, não perca o ritmo, baby, se perigar, deslize e pisque os olhos mais e mais, um dia deitado ao largo da própria vida, que tem seu ritmo às vezes acasalado, às vezes divorciado de outros caros desejos, reflita/veja: nem tudo está perdido, nem tudo está salvo, há um ritmo, e isso não é conversa mole de quem perde as horas embalando sua própria sombra.
Segunda-feira, Maio 18, 2009

Estamos de volta aos
dias moribundos de ca-
lor e outono
onde as folhas gordas
viram e suspiram no si-
lêncio amarelado
onde vimos pela pri-
meira vez o brilho novo
do céu
estamos de volta
atrás de nós as ondas
da memória cercam nos-
sos gestos
o nascimento da tarde
é maior que as limita-
ções sem tempo
estamos de volta e pe-
quenos e sozinhos,
olhos, dores e sonhos
abertos diante do dia
estamos de volta ao mes-
mo lugar enorme e irre-
sistível/ às sombras mo-
ribundas de calor e
outono
Ana Cristina César: Infância
Segunda-feira, Abril 13, 2009

[...] Dias doentios virão. Varanda de ladrilhos cor de carne. O vácuo. Quer você tenha casa, quer viva num caixote de papelão, pouco importa. Conserte os cabelos com as mãos quando o vento marinho jogá-los na tua cara... Afaste-os do rosto em direção à nuca, depois solte-os, e eles voltarão a assanhar. Não importa quem você seja, que segredo ou missão acha que a vida guarda pra si. Estará de cara com o nada, suas forças minarão.
O sol principiará lá fora, de sua fraqueza não vai querer saber. Se revolte. Quebre copos na cozinha. Jogue os cacos pela janela. Uns brilharão no asfalto, outros, na lataria escura do tonel de lixo. O rumor de vidro caindo no asfalto pode fazer você se sentir bem. Ria, amansado(a), deite-se outra vez e não vá trabalhar, pois é um daqueles inúmeros dias em que se precisa esquecer a si mesmo, e não se esquece.
Novamente, como numa senha: choverá forte, depois tudo cessará. Ficará um mormaço e um vento gelado. Você pode lavar os cabelos, se cabelos você tiver. Você pode fechar e abrir os olhos, caso não seja cego(a). Você vai se sentir órfão(ã), mesmo tendo pai e mãe vivos. Faça um pouco mais de café. Escolha algum livro e deite na cama. Se você for dos/das que leem. Ou escolha uma boa trilha sonora. Caso goste de música.
Dias estancados na janela. Passarinhos aqui e ali. Por mais que se esqueça o lugar onde se vive: alguém passará lá embaixo com aquela fitinha branca do Senhor do Bonfim, no pulso, te lembrando, sempre: é sexta-feira, dia de Oxalá. Estará no pulso de vários pedestres. A fitinha. Molhando na chuva, mofando no inverno, umedecendo no outono e gostar-se-ia de romanticamente dizer: floreando na primavera. Mas não é ver-dade: nos dias doentios não haverá flores. A primavera estará longe, muito longe. Esqueça-a. Você está profundamente só. Dentro do seu próprio silêncio-peso. Olhando os objetos ao redor. Portanto, boa sorte. Por isso, boa sorte. Agora e sempre: boa sorte.
Segunda-feira, Março 09, 2009
Intimidade XII

[...]
- Os homens se dividem entre antes dele e depois dele. Talvez eu tenha nascido pra encontrá-lo... Não sei...
- E se desencontrarem outra vez?
- Não, não... Quer dizer, não nos desencontramos, sinto que estamos sempre juntos mesmo que distantes... Só que... Afinal, você quer a caipirinha tradicional ou com outra fruta?
- Tradicional que você fala é com limão?
- Exato.
- E não tem que ser com limão pra se chamar caipirinha?
- Depende... Na Bahia a gente faz com abacaxi, kiwi, caju, morango, uva, cajá, umbu, tangerina, siriguela...
- Sirieuga?
- Siriguela.
- O que é isso?
- Uma fruta. Você não conhece?
- Não. Que tipo de fruta é?
- Ácida. Pequena. Uma cor amarelo-avermelhada, tipo folha de amendoeira quando madura... com caroço, que nem umbu. Não acredito que não te apresentei a ela, tantas vezes você esteve em Salvador... Falha terrível...
- É boa?
- Maravilhosa.
- Então, vamos experimentar...
[...]
- Sim, você estava dizendo... só que o quê?
- Ah, só que a gente vive longe, talvez já tenhamos esgotado tudo o que podem viver juntos um homem e uma mulher. Que nem naquele filme, lembra? Por sinal, se chamava exatamente Um homem, uma mulher. Agora não me lembro se tinha uma conjunção ou uma vírgula entre eles... Ponho mais açúcar?
- Tá bom assim... Esse filme é lindo, chorei tanto quando assisti... Mas eles não esgotam nada, mulher. Eles sequer envelhecem juntos.
- É verdade...
- A menos que você esteja se referindo à segunda parte...
- Não, não, eu não gostei da segunda parte. Que bobagem isso de criar segunda parte pra filmes...
- Também acho ridículo isso...
- Veja: é justamente aquilo: na segunda parte, o cineasta tentou e não conseguiu, o encanto se perde, é impossível recuperar... Prove a capirinha... tá bom de gelo?
- Tá ótima... O que mais me chama atenção na sua fala é que quando você fala dele, nunca diz as coisas com certeza, é sempre talvez isso, talvez aquilo.
- É que não consigo ter certezas diante dele.
- Mas... sério? Essa é uma revelação bombástica... ainda mais pra alguém que há anos, antes da separação, me disse se sentir muito segura ao lado dele...
- Mas eu me sentia segura, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Não me sinto segura com meus sentimentos em relação a ele...
- Ah, querida, volte, volte! Você ainda o ama...
- Pare com essa ladainha, tá parecendo uma adolescente...
- Mas se é verdade!
- Não simplifique as coisas.
- Eu não entendo. Afinal, o que você quer? Que ele te peça perdão de joelhos?
- Não se trata de perdão.
- Se trata de quê?
- De saber quando se acaba, quando se esgota completamente uma relação a dois.
- Poxa... Será?
- É uma tentação muito forte voltar, ainda mais que agora, véspera de eu viajar pra Salvador, ele vem me dizer, ao telefone, que quer conversar, seriamente, comigo... Entretanto, voltar resolve o quê? Essa é a minha questão.
- Será que ele vai se declarar?
- Ora, se declarar... Você parece uma adolescente, às vezes.
- Ah, desculpa. É que eu sempre torço por vocês dois... Achava o verdadeiro casal 20...
- Engano seu. O verdadeiro casal 20 é John Lennon e Yoko Ono.
- Achava vocês dois perfeitos... Que nem Lennon e Yoko mesmo.
- Todavia, ninguém morreu...
- Mas então, então, é mais bonito ainda!
- Você realmente está bem adolescente hoje. Se não fossem as rugas, eu diria que você está na TPM.
- Mas eu ainda menstruo...
- Sério?
- Sério!
- Ah, eis aí a razão: ela ainda menstrua, gente...
- Você não?
- Há um ano. Não te falei?
- Até parece que você me fala alguma coisa de sua vida... Parou cedo demais, não?
- Comigo tudo sempre foi cedo demais. Primeira menstruação aos 10, primeiro beijo aos 11, primeira trepada aos 13...
- Por falar em acontecimentos. Sabe o que me aconteceu ontem?
- O quê?
- Fui sondada pra sexo anal!
- Mentira! Sondada ou assediada?
- Um assédio leve, digamos...
- De quem, criatura?
- De quem poderia ser? Do Cláudio, lógico.
- Ah, marido não vale.
- Como não vale? De quem você queria que fosse?
- Pensei que você tivesse recebido uma cantada de um garotão de 25 anos.
- Ai, ai! Garotão de 25 anos! Eu correria léguas dele.
- Eu correria pra cama dele!
- Mulher! Você tá que tá, hein?
- Ué, tô viva.
- Nunca soube dessa sua tara por rapazes de 25 anos. Aliás, seu marido é bem mais velho que você...
- Dez anos apenas...
- Tudo isso? Ele não parece ter mais de 60 anos...
- Porque ele anda muito, sempre foi um andarilho, e também não tem tendência a engordar, enbelhecer, na família dele todos são muito magros e bem conservados... Mas, realmente, você tem razão, não tenho tara específica por homem mais novo ou mais velho...
- Bem, eu sou conservadora...
- Pois eu não. Sim, mas conta, conta. E depois?
- Depois o quê?
- Foi sondada e depois?
- Fiz que não era comigo. Afinal, 16 anos de casamento, não vai ser agora...
- Não acredito!
- O quê?
- Você nunca deu o cu?
- Criatura! Pelo amor de Deus!
- Que Deus que nada! Deus não se importa com isso não. Não é à toa que ele fez cada um com o seu... Questão administrativa, meu bem...
- Você é doida de pedra!
- Não sei por quê...
- Por quê? Olha as maluquices que você fala!
- Qual maluquice? Dar o cu? Não tem nada de mais. Qual o problema?
- Pra mim, todos.
- Quais?
- Ah, vamos mudar de assunto? Eu faço as próximas caipirinhas...
- Não, você põe água, não fica boa... Deixa que eu faço...
- Claro, senhora doutora em medidas alcoólicas perfeitas...
- Gostei desse título... Mas por que não podemos continuar a falar de sexo?
- Ora, faça-me o favor...
- Outra caipirinha então?
- Por que não?
Sexta-feira, Março 06, 2009
Coleção Cartas Bahianas lança:

O sol que a chuva apagou é uma novela que traz um clima de diário de bordo ou de estrada, no clima sexo, drogas, delicadeza e rock in roll, dialogando de longe com "On the road", de Jack Kerouac. Apesar de ter começo, meio e fim, também pode funcionar como fragmentos, anotações sobre a perda de um grande amor e o início de outro, pois foi elaborada a partir da voz de um personagem que está finalizando uma etapa de sua vida e iniciando outra. Thiago era professor, casado, morava na Inglaterra, mas de repente seu companheiro morre, ele então retorna ao Brasil e é convidado a integrar a banda do irmão mais velho, onde entra para ocupar o lugar de um baixista que havia saído. Na banda, ele acaba se apaixonando por um dos músicos. O texto, então, tem esse ritmo de transição, são pequenos intervalos entre o eu e o mundo, como quando o externo nos joga pra dentro de nós mesmos e nossa interioridade, segundos depois, nos joga pra fora. No livro, os intervalos não mostram ao leitor se foram dias, semanas, horas ou segundos decorridos entre uma ação e outra. Em vez disso, trabalha-se com a perspectiva de se capturar esse tempo interno, singular, único. Assim, a história ensaia uma pergunta do começo ao fim: como se posicionar dentro de certas fases de transição em que vemos claramente que alguns ciclos de nossa vida estão se fechando e outros se abrem inesperadamente, como o sol depois da chuva?

Vestígios da Senhorita B. é um pequeno bilhete, a última fotografia: ela, já de costas para o mundo, esperando o trem que a levaria para a sua nova vida. Uma cama, um vestido, um livro: vestígios. Alguém que foge sem que se saiba o porquê. Ela: a Senhorita B. Construído com o corpo, o livro propõe uma busca sobre o verdadeiro sentido da palavra identidade. Como delimitar apenas com um combinado de letras a existência de cada ser? Sim, o nosso nome é a única coisa imutável que carregamos conosco, durante as nossas vidas. Mas como um singelo nome pode dar conta das múltiplas transformações que sofremos com o passar dos anos? Qual o limite existente entre o personagem e o autor durante o processo de escrita? Não é a literatura um meio de poder ser muitos outros? E por que precisamos dela, se não conseguimos pertencer sendo apenas um? O livro pode este ser lido tanto como uma novela quanto como um conjunto de contos. Também pode ser visto como um álbum de fotografias onde as legendas contam uma história através da poesia. E, sim, de certa forma, o Vestígios da Senhorita B. é um livro de memórias. Mas memórias de quem? Daquela que escreve, da que se diz personagem ou da que preferiu desertar no meio do caminho? Memórias reais ou inventadas? Ora, não importa. Porque qualquer memória é sempre verdadeira. Entre enredos, tempos e significados. Este é o Vestígios da Senhorita B.
Sexta-feira, Janeiro 30, 2009
trechos para algum momento futuro
[...] Queria uma coisa simples, funcional. Que se pudesse carregar no bolso. Formato de dicionário mesmo. O pequeno dicionário da vida comum. A idéia era permitir que pessoas como ele, intranqüilas, facilmente irritadas, que explodem facilmente ou não explodem, todavia, por dentro, matam, estupram, cegam, dão veneno de rato a todas que lhe estragam o dia, confundem seu humor, destroçam sua paciência, permitir que pessoas como ele, enfim, tivessem um livro de bolso eficaz, companheiro, não essas chatices esotéricas, nem o Novo Testamento, que não tava a fim de ficar com Novo Testamento no bolso, tenha dó!***
Ao sonhar com o piano, percebia, desesperado, que não identificava mais algumas notas. Dó e Ré acabam sendo a mesma coisa, dizia, ironicamente, uma voz anasalada, tão irritante, tão cretina que não se daria ao trabalho de verificar de qual garganta saía. Até porque as gargantas estavam todas trocadas, umas como vasos de barro cheios de flores alaranjadas, brancas, vermelhas, amarelas, champanhe, outras feito piscinas, ostentando água azulzíssima, imóvel, tocadas unicamente por raios fracos de sol. [...]
Ao sonhar com o piano, percebia, desesperado, que não identificava mais algumas notas. Dó e Ré acabam sendo a mesma coisa, dizia, ironicamente, uma voz anasalada, tão irritante, tão cretina que não se daria ao trabalho de verificar de qual garganta saía. Até porque as gargantas estavam todas trocadas, umas como vasos de barro cheios de flores alaranjadas, brancas, vermelhas, amarelas, champanhe, outras feito piscinas, ostentando água azulzíssima, imóvel, tocadas unicamente por raios fracos de sol. [...]
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