domingo, setembro 10, 2017

Paulistânias II



1

Você deve esquecer que dormiu mal, que dorme mal há semanas, desde que se mudou pra cá. Esse negócio de deixar o negativo de lado (quiçá embaixo da cama), começar com o positivo (oxalá, seguir com ele até o fim), é básico, você bem sabe, então, por que não pôr em prática esse velho saber? Levante bem, levante leve. Se alongue toda antes de ir à sala abraçar o homem mais belo do mundo, que já fez café e já está no canto dele, a escrever versos, aqueles versos que, mais tarde, você amará conhecer. Para que o banho seja perfeito, além de a água estar preferencialmente fria, você também pode ouvir dez ou quinze vezes To Vals Tou Gamou, de Eleni Karaindrou. Há duas moças tagarelando embaixo da janela, mas nada de querer jogar o sabonete na cabeça delas. Concentre-se na música, tome seu banho. Se necessário, repita a canção.

2

Você deve sair de mãos dadas com seu grande amor. Constatar que a cidade está bastante esvaziada por causa do feriado da semana da pátria. Almoçar no vegetariano da Alameda Jaú (se chama Ser a fim). Ao caminhar de volta à Alameda Casa Branca, você deve reconhecer que esses pássaros rodopiando em cima do Parque Siqueira Campos são os mesmo capetinhas que cantavam às 3h30 da madrugada, zombando da sua falta de sono. Mas atenção: nada de amaldiçoar os pássaros, pois esses, todos sabem, são inocentes até que se prove o contrário.

3

Peguem o metrô em direção à Vila Madalena. Não há quase ninguém no trem. Vocês podem se sentar lado a lado. Um dos dois fará um comentário engraçado sobre metrôs e ambos se recordarão da viagem a Portugal. Desçam no Sumaré. As ruas estão ainda mais esvaziadas do que as que percorreram minutos atrás. Falem de diferenças de costumes nas cidades brasileiras, andem cerca de 20 minutos até à Luís Murat, 40. Antes, serão parados por um casal cheio de sacolas que desejará informações sobre o Beco do Batman. Não é grande a distância, você sabe, porém está quente, 28 graus, e você veio de botas, por isso, a caminhada não lhe parece nada interessante. Você vai se perguntar por que diabos calçou botas, se sabia que estava quente, se sabia que iam andar, mas logo se lembrará de que acordou se sentindo mais baixa do que o normal. E, claro, quando se acorda mais baixa do que o normal, existem apenas duas saídas: o suicídio ou usar botas. Você não tem mais idade pro suicídio, de modo que lhe restaram as botas. Não são altas, mas dão a sensação de que você está mais alta e isso é o suficiente. Também não são novas as botas e, até ontem, eram confortáveis. Porque estão a se comportar como novas é prova de que tudo muda, o tempo todo, no mundo (conforme cantou o filósofo Lulu Santos, muito bem copiando Vinícius de Moraes).

5



Como o Patuscada ainda está abrindo, encontrem o poeta que vocês vieram encontrar e andem mais duas quadras em busca de um café. Vocês verão muitos botecos com cadeiras na porta e outros bares mais chiques, até se depararem com um lugar fofinho chamado Lá Na Venda. Tomem café com bolo de milho verde (você), capuccino com pão de queijo (seu amor) e capuccino com quidim (o outro poeta que está a acompanhá-los nesta tarde). A conversa vai deslizar por literatura, vida acadêmica, a pobre situação intelectual dos cursos de Letras, equívocos da crítica e amigos em comum. Voltem pelo Beco do Batman, onde muita gente tira foto, e tirem também algumas. Retornem, sem pressa, ao Patuscada.

6

Fim de noite, voltem de Uber pro flat, mas parem antes no Bella Paulista pra comer algo, afinal, vocês beberam duas garrafas de vinho e não é bom dormir de estômago vazio depois de beber duas garrafas de vinho. O Bella Paulista está com fila de espera e, obviamente, vocês não são o tipo de casal que fica em fila, disputando mesa. O jeito é levar algo pra comer em casa. Peguem suco, umas catarinas salgadas (de queijo e palmito), outra doce (de nozes e maçã) e fujam logo desse troço. São somente três quadras de distância, vocês podem ir andando, observando o clima de fim de feira da Avenida Paulista, às 1h20. Parece uma Carlos Gomes ampliada, você diz. Bastante sinistra, retruca seu grande amor. Um casal gay passa de mãos dadas e, atrás dele, quatro boyzinhos fazem comentários ridículos.

7

Se não consegue dormir, não fique com raiva nem rumine palavrões pela casa. Esqueça. Ligue na Netflix e assista, ao lado de seu grande amor, a The Butterfly's Dream, de Yilmaz Erdogan (2013). Filme triste sobre dois poetas turcos que morreram esquecidos. Delicado e trágico, consegue mostrar a experiência de quem nasceu com o vírus da escrita. Ao contrário da maioria de filmes sobre poetas ou escritores, conhecidos ou não, em que a literatura é um dado biográfico em meio aos outros acontecimentos que perpassam a vida dos sujeitos, neste, a poesia é o alicerce onde se desenrolam dores, amizades, as descobertas, o cotidiano e todas as demais relações deles. É baseado em fatos reais, que remotam à Segunda Guerra, quando a Turquia instituiu uma lei obrigando todos os homens a trabalharem nas minas do país. Os poetas esquecidos são Rustu Onur e Muzaffer Tayyip Uslu, além do professor deles, Behçet Necatigil, que também é poeta e o único dos três cujo talento é reconhecido em seu país. A julgar pelos versos que aparecem no filme, são ambos verdadeiramente poetas (ainda que se dê um desconto de tradução e legenda).






quinta-feira, setembro 07, 2017

Ciranda-cirandinha




Contei-lhe o sonho que tivemos com ela: estava nua, presa numa casa feita de cristais e gelo. Ela respondeu que havia uma casa assim no filme do Super-homem.

— Qual Super-homem? O do Christopher Reeve? — indaguei.

Ela suspirou, impaciente:

— E por acaso existe outro Super-homem?

— Milhares. Eu já vi pelo menos uns sete.

Ela arregalou os olhos:

— Você conhece sete Super-homens?

Confirmamos. Talvez até mais.

— Não, você está maluco. Só existiram dois de verdade. E ambos eram o Christopher Reeve.

— Não, senhora! Há muitos outros. Com a mesma origem, a mesma roupa, poderes iguais, idem os problemas, ibidem os olhos azuis e a namorada jornalista.

— Mentira, você está inventando.

Não, não estávamos inventando. Havia um canal a cabo, não lembramos direito o nome, mas havia, onde passavam um Super-homem muito jovem, muito confuso. De olhos azuis também. Nem se sabe Super-homem ainda, está a se descobrir.

Ela nos olhava, perplexa:

— Como assim um super-homem que não sabe que é Super-homem?

— Exatamente. É uma série que se reporta ao início de tudo. Esse rapaz está se descobrindo ainda. Aquela velha história da jornada do herói... É um super-homem adolescente.

— Mas era só o que me faltava! E você assiste a este troço?

Assistimos, certa feita. De onde tiraríamos tais detalhes, se não víssemos ao menos alguns episódios? Vimos nalgumas tardes ociosas, é certo. Mas desistimos no meio da temporada. Era cansativo. De qualquer forma, o que queríamos com tal exemplo era justamente lhe mostrar que, ao contrário de sua mania de fixar determinadas referências como únicas, existiam muitos super-homens espalhados pelo mundo. Nós conhecíamos cerca de seis, quiçá sete, e olhe que nem éramos da geração-quadrinhos, como ela.

— Que absurdo! — ela protestou, magoada. — Sete super-homens! Com certeza, devem formar um bom rebanho de cornos.

Uma qualidade de nossa amiga era fazer comentários imprevisíveis assim. Gargalhamos juntos, enquanto ela inventava apelidos, posições e até cenas esdrúxulas para se vingar dos sete super-homens que vieram bagunçar sua compreensão de mundo. Afinal, nos esquecemos completamente do sonho com ela: nua, presa numa casa toda feita de cristais e gelo. Como no filme do Superman.

segunda-feira, setembro 04, 2017

Paulistânias


(Vista do flat onde ora me escondo, em SP)

1

- Você é vegetariana e fuma?
- Sim, porque geralmente os cigarros não têm carne.
- Mas fumar faz mal à saúde.
- Tudo bem, não sou vegetariana por causa da minha saúde.
- É vegetariana por quê?
- Birra. Mania. Falta do que fazer.
- Mas isso não tem sentido!
- Pois é. Não ter sentido é um dos pressupostos básicos da vida. Com o tempo piora.

- É verdade que você deixou de ser de esquerda pra ser de direita?
- Exatamente. Em breve deixarei de ser católica pra ser muçulmana.
- Não entendi sua resposta.
- Ah, mas eu entendi perfeitamente sua pergunta.

- É verdade que você lançou um romance com 600 páginas?
- Não, são apenas 587.
- Nossa! E você tem tanto assunto pra falar assim, Állex?
- Não tenho não, na verdade, vou escrevendo um monte de idiotices até encher as páginas.
- ?!?!

- Você sabe o que aconteceu com as farinhas, pois não encontro nenhuma nas prateleiras, nem mesmo aquelas ruins, caroçudas e fiapentas?
- Farinha de quê?
- Farinha normal, torrada, pra se pôr na comida.
- Tem de milho, na terceira fila, à esquerda.
- Obrigada, mas de milho não serve.

- Precisava vir morar, temporariamente em São Paulo, pra me dar conta de que sou baiana e não consigo comer sem farinha.
- Você não sabia que era baiana?
- Sabia, mas nunca teve qualquer importância.
- Por que não trouxe dez quilos de farinha na mala então?
- Pois é, não trouxe!

2

"A arte do romance consiste no truque de falar sobre nós mesmos como se fôssemos outra pessoa e sobre os outros como se estivéssemos no lugar deles. E assim como há um limite para a medida em que podemos falar sobre nós mesmos como se fôssemos outra pessoa, também há um limite para a medida em que podemos nos identificar com outra pessoa. O anseio de criar os muitos tipos possíveis de herói superando todas as diferenças de cultura, história, classe e gênero - de transcender a nós mesmos a fim de ver e descobrir o todo - é um anseio liberador básico que torna atraente ler e escrever romances, bem como uma aspiração que nos faz reconhecer os limites da capacidade humana de entender o outro". Orhan Pamuk, em O romancista ingênuo e o sentimental (Trad. Hildegard Feist).


3

Em vermelho, exposição de Toulouse-Lautrec (1864-1901), no MASP. Além das casas, cabarés, camarins, retratos masculinos e femininos, e cenas entre mulheres, do artista europeu, você pode rever o acervo em transformação do MASP (Portinari, Picasso, Van Gogh, Anita Mafalti, Renoir, entre outros, que vão do século 4 a.C até 2008). Trata-se de uma exposição semipermanente, nos avisa o fôlder. Um conceito bem simples, semipermanente, você sabe, né? Como tudo mais na vida. Nos outros andares tem Wanda Pimentel e Miguel Rio Branco. E no subsolo, Pedro Correia de Araújo, de quem você nunca tinha ouvido falar, mas é a melhor surpresa do dia, um pintor de se tirar o chapéu, com uma série de imagens de mulheres negras - vão de retratos de perfis, a nus delicados, flagras cotidianos e cenas eróticas (homo, hetero e swinguers). Alguns quadros estão tapados por um pano escuro donde se lê: contém cenas inapropriadas para menores de idade. Pedro Correia de Araújo, nos informa o curador no painel, viveu entre os séculos 19 e 20, entre Brasil e França. Apropriadíssima descoberta.

4

Message to Bears, álbum Folding Leaves. É o som que desembrulha esta tarde em São Paulo. A dica eu roubei do Face do escritor Emmanuel Mirdad, há uns dias. Como sempre acontece quando roubo do varal alheio, guardo nalgum esconderijo e deixo marinando, pra só depois degustar. Esse, porém, deve ter marinado demais, pois não sei se viverei mais um segundo sem essas músicas. Baixei um, dois, três, quatro álbuns... Não, não viverei mais um segundo longe desse som.

sexta-feira, junho 02, 2017

Vim ver o Roberto, cara!



1. Feira de Santana ensaia uma chuva desde cedo. Manhã de chuviscos, início de tarde nublada. Prevista por todos os telejonais e rádios, a chuva é um dos medos de quem veio ver Roberto. O Estádio Jóia da Princesa só tem proteção no palco — lugar naturalmente feito pro Rei — e nas arquibancadas especiais (um toldo branco pouco confiável). Mesmo as cadeiras azuis (R$ 380,00), as amarelas (R$ 290,00) e as brancas (R$ 170,00) não foram cobertas, assim como as arquibancadas gerais (R$100,00). As senhoras precavidas que trouxeram seus guarda-chuvas não poderão contar com eles: à porta, os seguranças revistam e tomam qualquer objeto, alegando que podem funcionar como arma. Na saída, as senhoras podem pegá-los de volta, explicam os rapazes de ternos escuros. Na saída não adianta, precisamos da sombrinha lá dentro, reclama uma senhora de vestido verde chiquérrimo, cabelos quase totalmente grisalhos. Mãe, fique calma, não vai chover, atalha a filha, voz grave, vestido prateado, sapatos de 15cm. E se chover?, teima a senhora. Não vai não, mãe, São Pedro não vai fazer essa judiação com Roberto, rebate a filha, numa segurança que faz a fila toda ficar mais calma e acreditar.

2. Sabendo que São Pedro não vai judiar de Roberto esta noite, entramos felizes no estádio, uma hora antes da hora marcada no ingresso. Os fãs do Rei têm idade variada. Nos portões podem chegar famílias inteiras, casais apaixonados, turmas de amigos que se abraçam, playboys ultrapassados com jaquetões de couro. Mulheres mais afoitas gritam que o Rei é uma delícia, outras prometem pegar uma das rosas por ele jogadas, nem que seja na unha! Os homens são mais discretos, trocam apertos de mão, dizem uns aos outros quanto tempo! Só assim te vejo, não? Pois é, rapaz, vim ver o Roberto. Vim ver o Roberto é a frase que mais se ouve entre os amigos, conhecidos e colegas que se reencontram nesta noite. Uma justificativa pra se sair de casa numa sexta-feira com ameaça de chuva? Uma razão pra se estar num estádio cheio de gente pra todo canto? Um índice de intimidade? Sim, você bem sabe que, tanto em Feira quanto no resto Bahia, não colocamos, normalmente, artigo definido à frente de nomes próprios. Por isso, vim ver o Roberto é um refrão, no mínimo, curioso, a se repetir na boca de senhores e rapazes. Até o taxista que pegamos soltou esta: nossa, tinha até me esquecido que o Roberto está em Feira!

3. Em todos os lugares, há moças indicando em qual fileira de cadeira está o número que você comprou. Quando, mesmo apontando-a, você não acerta seu lugar, as moças vêm sorridentes, a ensinar. As pessoas chegam aos seus lugares e cumprimentam a fila inteira, como se fossem vizinhos, amigos, conhecidos. Vim ver Roberto com meu poeta, e, fora uma colega de trabalho com quem me bati e uma amiga de quem me desencontrei, não conheço mais ninguém por perto, mas tanto eu quanto João Filho apertamos as mãos estendidas e respondemos aos boas noites calorosos de quem chega às cadeiras amarelas. Ou é um hábito feirense ou é porque todo mundo veio ver Roberto, penso comigo. Sim, uma dessas coisas, quiçá, ambas entrelaçadas.

4. Nunca assisti a um show do Rei. Não me pergunte a razão, pois não saberei lhe dizer o motivo dessa minha estupidez. Há alguns anos, prefiro a varanda da minha casa, e só me desloco pra ver Morrissey, nas poucas vezes que ele decidiu vir ao Brasil. Morrissey não tem nada a ver com Roberto Carlos, dirá você. É verdade, embora ninguém tenha lhe perguntado coisa alguma, certo? Isso esclarecido, eu e meu poeta ficamos na primeira fileira das cadeiras amarelas, porque quando fomos comprar os ingressos, os clientes credicard já haviam escolhido as melhores azuis, só restando lugares ruins, que não justificavam o primeiro preço. Meu irmão mais velho, que já viu o Rei outras vezes, nos preparou pro que podíamos esperar: a) Roberto não se atrasa muito, de 15 a 20 minutos, em geral; b) o show não tem bis; c) normalmente, dura 1h; d) ele não vai cantar Quero que vá tudo pro inferno; e) deve terminar com Sereia.

5. O show estava marcado pra 20h30. Às 21h20, o Rei entrou no palco, debaixo de uma explosão de aplausos e luzes de celulares, de terno branco, camisa azul aberta no peito, calças azuis. O show é mega em todos os sentidos. Que carisma, que serenidade. Mesmo em momentos nos quais a voz dele já não alcança as notas — são 75 anos recém-feitos —, ele dá um jeitinho... Improvisa, recita, brinca, dirige. Entre ele e o público há tanta familiaridade que, de repente, um feirense mais animado aproveitou o silêncio entre uma música e outra e berrou o convite: venha morar em Feira, Roberto!

6. E a orquestra do Rei, ave maria!, que se pode falar desses músicos? A palavra perfeição ficou pequena de repente. Tudo é límpido, tudo é denso, tudo é no quilo, tudo é fiel, como se tivéssemos as melhores caixas, os melhores amplificadores do planeta, e puséssemos aquele nosso vinil em volume máximo. O Rei é justo e festeja sua orquestra devidamente: apresenta, elogia, destaca, brinca com os músicos. Não menciona os nomes por trás da poderosa iluminação, mas é outro ponto fantástico no show. Nunca vi nada igual, nem com artistas brasileiros (no tempo em que vivia colecionando shows), nem estrangeiros. É um banho de luz — azul, dourada, branca, verde — que se acende quando começa uma nova canção, que se apaga quando o Rei a termina, e, de vez em quando, também apanha toda a plateia, como se fôssemos partir juntos, numa imensa nave espacial. De qualquer lugar do estádio, vê-se perfeitamente o rosto de Roberto, suas rugas, seu sorriso, bem como todos os detalhes do palco. Há telões, é claro, mas quem quiser pode se esquecer deles. Penso que talvez a iluminação do show do REM, no terceiro Rock in Rio, quando me desloquei prum Rio de Janeiro infernal, em 2003, chegue perto desse espetáculo. Perto, mas não supera.

7. Ouvir o Rei no meio da multidão me remete a um tempo outro, em que me sabia menina, em Bom Jesus da Lapa. Roberto foi meu primeiro amor. Minha primeira paixão. Devia ter uns nove anos, quando descobri que o amava. Lembro do dia dessa descoberta: algum bar perto de casa tocava O divã e eu não conseguia dormir. Rolava na cama, sentindo algo bastante estranho: um peso no coração, uma vontade sobrenatural de chorar. Quando punha a atenção na letra, a vontade de chorar triplicava. Por quê?, eu me perguntava, se ninguém me fez nada, ninguém puxou meu cabelo, ninguém me bateu, por quê? Antes do amanhecer, a verdade se desnudou entre as susis, as barbies, os pôneis de cabelos brilhantes e a bola dente de leite com o escudo do Vasco (presente de meu pai). Estou completamente apaixonada por Roberto Carlos, compreendi. Vou esperar o sol nascer pra ter certeza. O sol nasceu, vi que não era dia de aula, então corri à radiola e pus um disco do Rei, a fim de dirimir todas as dúvidas. A ideia era ouvir uma música sem história romântica, pra ver se aquele peso voltava tão forte. Pus Amigo, que sempre me alegrava, por causa do naipe de metais. Mas não deu nem pra chegar ao refrão: a vontade de chorar voltou arrepiando até os móveis de massaranduba da sala. Não havia mais qualquer dúvida, estava apaixonada pelo Rei. Foi um dia de olhos insones, em que evitei falar com as pessoas, em que busquei o silêncio, a paz do quarto. Não podia avisar minha descoberta a ninguém, mas já estava tudo preto no branco pra mim: eu amava Roberto tanto quanto ele confessava amar sabe-se lá quantas mulheres nas canções. À época, soube pelas revistas que o coração dele tinha oficialmente uma dona. Por isso, quando os adultos me perguntavam o que queria ser quando crescesse, eu rebatia na lata: Myriam Rios. Para ser atriz?, indagavam ao meu redor. Não, pra ficar com o Rei, eu explicava — o que, obviamente, provocava risos, quando não censuras.

8. Durante anos vivi intensamente meu amor por Roberto Carlos. Era minha paixão em todos os natais, quando ganhava seu novo disco de presente. Meu horizonte em todas as viagens quando íamos pra Santana ou Vitória da Conquista, no fusca do meu pai, ouvindo o Rei nas fitas cassetes, e todas as estradas estampavam o sorriso dele, ecoavam a voz dele, replicando seus amores feitos e desfeitos. Desenvolvia manias malucas, como quando o Cine Marabá anunciava a soirée aos casais, tendo ao fundo Na paz do seu sorriso, É preciso saber viver, Como é grande o meu amor por você, A primeira vez, Rotina, e eu anotava os títulos dos filmes e as canções de Roberto selecionadas pra propaganda daquela sessão. Ou quando alguém dizia sua canção preferida do Rei. Anotava no caderno como se diante de algo importante. Minha mãe, por exemplo — descobri num baile no Colégio São Vicente, em Bom Jesus da Lapa — não podia ouvir Nossa canção. Uma amiga pediu que tocassem essa música em sua homenagem e, surpresa, vi minha mãe chorar feito criança. Um ex-namorado de minha irmã me confessou que gravou De tanto amor infinitas vezes numa fita cassete, e guardava-a pras noites de bebedeira. Mas para quê anotava tudo isso?, você perguntará. Pois é, também gostaria muito de saber.

9. Enquanto o Rei canta, o vivido explode nalgum canto da memória. O show dura mais de 2h. Ele canta Quero que vá tudo pro inferno, sim!, entre outras pérolas como Sua estupidez, Se você pensa, Detalhes, Desabafo, Ilegal, imoral ou engorda, Outra vez, Lady Laura, Como é grande meu amor por você... Realmente não tem bis, mas ele passa mais de 15min distribuindo rosas (brancas e vermelhas), à plateia. Se despede com tchauzinho, enquanto a banda termina Jesus Cristo. Foi um prazer, diz uma família sorridente ao nosso lado, — mãe, vó, filha e filho —, estendendo-nos a mão, em despedida. O prazer foi nosso, respondemos. A multidão vai saindo, devagar, pelos portões estreitos. Lá fora, meu irmão e a esposa nos esperam pra brindarmos a noite com vinho francês e fondue de queijo e chocolate. Afinal, viemos ver o Roberto, cara!, e São Pedro, de fato, não judiou de ninguém.


terça-feira, janeiro 10, 2017

Série: a difícil-incrível arte de viver - parte IV



A BELEZA DO MUNDO

1. São 16h12 de uma agradável segunda-feira. Tomo meu café vespertino na varanda e ouço minhas baladas preferidas dos Scorpions - com fones, é claro. Mas logo sou obrigada a retirar os fones pra assuntar o mundo: um menininho tenta andar na rua Recife, guiado pelo pai. Deve ter 1 ano, e é todo desajustado com o espaço, parece que quer andar até com a cabeça, tamanha é a força com que se joga a cada passo. Braços, pernas, cabelos vão juntos na passada, enquanto o pai segura na mão dele e o estimula: vamos, mais uma vez, vamos, meu filho, vamos!

2. Há momentos em que o neném para e arfa. Olha a calçada, olha o pai, olha pra frente. Daqui não posso ver a cor dos seus olhos, tampouco conjecturar o que expressam. Talvez duvide que essa seja a forma certa de se aprender a andar. Quem sabe considere uma tarefa cansativa, uma brincadeira sem futuro que o pai lhe inventara nesta tarde morna. Mas, pelo sim, pelo não, ele toma fôlego e ergue o pé, como quem vai chutar o universo. O corpo todo segue junto, e o neném se desequilibra, pende prum lado, enquanto a mão do pai o segura e o conduz, de novo, ao centro da calçada.

3. De repente, temo que ele ultrapasse o ensinamento paterno e voe, pois agora se atirou pra cima, e não pra frente. Mas o pai estava atento e o impediu de virar pássaro, avião, nave espacial, super-homem, e sair afoito pelo mundo. Devagar, meu filho, diz a voz grave do pai, devagar.

4. Os carros passam pela Recife, alguns diminuem a velocidade e espiam o acontecimento. Creio que rapidamente constatam que:
- não é um escândalo político;
- não é uma rebelião de presos;
- não é uma saída pra crise;
- não é uma estúpida atriz hollywoodiana relinchando em público;
- ninguém está cometendo racismo, homofobia, misoginia ou golpe;
- é apenas um ser humano aprendendo a andar.
Decepcionados, os condutores aceleram e sobem a Carrascoza, ou entram sem dar sinal na Belém do Pará.

5. A voz do pai ignora a desatenção dos donos dos carros, ressoa, firme, paciente, no largo: vamos, meu filho, um, dois, três, muito bem, muito bem, meu filho, mais um!

6. Que processo, penso eu, na varanda, terminando meu café. Como somos minúsculos, como dependemos da boa e infinita vontade do outro. Haverá alguma outra criatura cuja condição de existência seja tão frágil e constrangedora quanto a nossa?

7. Mais tarde, o garotinho andará automaticamente, e mesmo sabendo que não há lei alguma que nos garanta o equilíbrio entre um passo e outro, jamais poderá se lembrar desse verão na rua Recife, início de 2017, em que a mão do pai o conduzia e o livrava de se esborrachar no chão, a cada nova passada.

terça-feira, dezembro 13, 2016

Série: a difícil-incrível arte de viver - parte III



PRATICANDO O ADEUS

1. Descobrir, dia após dia, que tudo aquilo que foi construído na terra do oba-oba, do mero coleguismo, da superfície dos afetos fáceis não finca raízes. Amigos de sala de aula (quando você ainda se graduava), amigos circunstanciais, amigos de afinidades culturais, amigos de enganos ideológicos onde você já não perambula.

2. Mais: descobrir que você andou a chamar de amigo pessoas que apenas gostam de livros, discos, quadros e filmes dos quais você também gosta. É perigoso entender o erro posto nisso. Mas, sim, você deve estar disposta a perceber o certo mesmo quando esse te leva ao perigo.

3. Descobrir quem sobrevive e quem se esfarela sob a máxima aristotélica: amigo é aquele com quem se tem afinidades profundas. Esses, graças a Deus, existem e são poucos e você os tem com rosto, nome e verdades na eternidade dos dedos de uma só mão. Não é desses que você ora fala, não é para esses que você está aprendendo a dar adeus.

4. Aqueles outros que pareciam tão importantes em seu passado e hoje estão se tornando a sombra de alguém conhecido num evento, alguém a quem se acena num shopping, alguém que ocupa um perfil no Facebook, de fato, jamais tiveram afinidades profundas contigo. Vocês se aproximaram devido à cegueira extraordinária da vida, e ora se distanciam por causa da clareza imperdoável dela. Então, como diria Elizabeth Bishop, "dói quase nada perdê-los".

5. Perdê-los? Não há drama, não há alarme nisso: vocês irão se cumprimentar quando houver encontros por aí. Dirão, educadamente, que bom te ver e educadamente falarão em marcar um café, um chope, sem, contudo, acreditarem nessa necessidade de marcar um café, um chope. Lembrarão, talvez, do aniversário um do outro. Podem até manter o número do whatsapp pra qualquer eventualidade social. E se acaso souberem que o outro está a precisar de ajuda, ajudar-se-ão, naturalmente, voltando depois ao conforto dos quilômetros de distância que a vida sabiamente deu de presente a vocês.

6. Descobrir mais: isso é um bem. Isso é vivo. Antes você jamais entenderia o tanto de liberdade que há nessas perdas. Que leve é poder perder o que só fez casa na superfície do passado, não? A memória, reiventada, justificada, até deu de cantar nos últimos meses.

7. Praticando o adeus, você agora tem espaço para as novas promessas de amizade que vão cercando os dedos da outra mão, ainda sem eternidade, verdades, nomes, rostos. Mas antes de abrir a porta, lembre-se: Aristóteles está com eles? Sim ou não?

domingo, novembro 06, 2016

Série: a difícil-incrível arte de viver - parte II



DO QUE FICA NAS VIAGENS

1. Duas horas andando na noite lusitana pra se perceber: Salvador e Ouro Preto me estragaram as vistas, pois todo pedaço de Lisboa me lembra algum lugar onde já estive. Lisboa, no entanto, é mais limpa. Tudo é velho e tudo funciona muito bem (estranho axioma para uma brasileira). Mesmo diante da sensação de que virando a próxima esquina vamos sair no Santo Antônio soteropolitano, andamos sem cessar. Pense que é possível andar na Baixa dos Sapateiros às 23h. Sendo esta Baixa limpa e organizada. Pense que nela há - em vez de comércio fechado, lixo nas calçadas e pessoas te ameaçando - um vento de outono, sangrias vistosas em jarros transparentes, burburinho de palavras cujo significado te escapam e restaurantes com cadeiras na porta. É quase isso.



2. O café da manhã no Borges Chiado não é nem de longe o maravilhoso café a que estamos acostumados nos hotéis do Brasil. Há três ou quatro tipos de frutas, todas inteiras e com casca, dois tipos de iogurte, pães estupendos, dois tipos de feijão sem caldo (feijão?!), uns ovos mexidos feios tão feios, ovos cozidos ainda com a casca, linguiça, pepino e tomate. Volte e novamente registre, pasmada: pepino e tomate?! Sim, alguém os come pela manhã, supõe-se! Mas café da manhã em hotel é detalhe menor, porque se come divinamente bem e barato em qualquer canto da cidade.



3. Estamos naquela passagem bíblica da Babel, quando todas as línguas do mundo são ouvidas, e a mente, tensa, quer codificá-las: isso é francês; aquilo é alemão; inglês, claro, inglês nunca há de faltar; quero saber quando falarão o português de Portugal... Agora ficou bastante estranho, será alguma variação do alemão? Esses senhores são bochechudos e rosados, russos ou poloneses? Consoantes, consoantes, ainda bem que não falo essa língua, ficaria cansada no fim do dia, não há nada mais cansativo do que atravessar uma sequência de consoantes; agora obviamente é espanhol, um espanhol um tanto mais difícil, decerto, europeu; de repente, palavras conhecidas no meio do oceano: "poxa, eu queria mesmo era um suco de limão", brasileiro, óbvio, parece carioca; mas brasileiro não vale, quero ouvir os lisboetas, afinal, onde estão? Esse espanhol é mais fácil, deve ser das Américas, cristalino como água, chileno? Opa, italiano, ah!, italiano!, esse ritmo com que abrem as vogais; japonês, tenho certeza, não vi aquele mundo de filmes em vão... Que vem a ser isso, meu Deus? Outra língua oriental? Árabe? Se seguirmos o esterótipo visual, provavelmente árabe... Mas espere: quando falarão o português de Portugal?



4. Fernando Pessoa espalha-se por todos os cantos, em estátuas, dizeres, camisetas, canecas, chaveiros, ímãs, mas no Largo do Carmo alguém exagerou: em todas as janelas de um prédio antigo há imagens de Pessoa. Desenhos na vidraça, com tinta preta e figuras a partir do que parece ser um aramado(?). João Filho fotografa. Seguimos as janelas e damos com uma porta lateral, onde há mais Pessoa retratado. Concluímos ser uma fundação ou uma exposição sobre o poeta, embora não haja qualquer identificação. A porta está entreaberta. Entramos. Numa antessala, há uma estátua de Pessoa, sentado, uma escrivaninha, máquina de datilografia, cadernos, cadernetas, livros, quadros. A luz é esverdeada e ao lado do poeta há uma cadeira vaga. Me sento e converso com ele. João Filho tira fotos. Seguimos por um corredor. Há mais portas de vidro e a cada porta que passamos mais representações: de Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis... Na sala principal, um senhor careca está sentado e lê um livro. Quando nos vê, se volta e indaga se pode nos ajudar. João Filho explica que fomos atraídos pelas imagens de Fernando Pessoa, como a porta estava entreaberta, julgamos que era um museu ou fundação. O senhor nos olha com reprovação, balança a cabeça e diz: não, isso é uma Gestalt, logo, não deveriam estar aqui, pois é para convidados. Espantados, pedimos desculpas e saímos, às gargalhadas. Na saída, avistamos um grupo enorme de turistas que também vinha atraído pelas imagens pintadas nas janelas. Falavam em inglês e obviamente iriam repetir o nosso erro. Pensamos em avisá-los: é uma Gestalt, só entrem se forem convidados. Depois repensamos: quer saber? Aquele senhor que ponha um cartaz avisando dessa restrição. Quer deixar tudo escancarado numa cidade que recebe hordas de turistas diariamente e não ser incomodado? Fosse no Brasil, até a careca dele seria roubada. Mas que diabo é uma Gestalt?, resmunga João Filho, indignado.



5. Não sei o que falar dos monumentos, do Mosteiro dos Jerônimos, da Torre de Belém, do Padrão dos Descobrimentos, do Castelo de São Jorge, da Catedral da Sé. Realmente: não sei. Você, se os conhece, que me diz?



6. Em Braga, a irmã do poeta Sebastião Alba nos mostrou uma Catedral que tem pouco mais de 900 anos. E ela aponta e fala num tom absolutamente normal: 900 anos. Tá, venho de um país que tem 500, que devo dizer? Para com isso?



7. Os diálogos roubados me apaixonam e sempre volto com páginas deles. Na Alfama, uma senhora falava ao telefone:
- Pois não quero que ela fique ressentida, ao contrário, desejo que seja livre, e que fique com muitos gajos também.
(Com muitos gajos?! Que desejo formidável pra se direcionar à outra criatura!)
Na fila da exposição de Joan Miró, uma menina de oito ou dez anos, parecia chateada e falava com a mãe:
- Mas eu preferia ver o Goya!
E a mãe, com enfado:
- Disso eu já sei, não é preciso repetir!
(Eu quis gritar à menina: eu também preferia o Goya, querida!!!)
Um cego, na rua Garret, nos pede passagem:
- Vós que estais à frente, deixai-me passar, por favor.
E o morador de rua:
- Uma ajuda a mim é possível a vós?
Reclamei com João Filho: olha essa sintaxe, quando eu for escrever isso no meu diário, não saberei onde pôr a vírgula. Não tem vírgula, ele rebateu.
Mas numa livraria do Porto, nasceu meu diálogo roubado preferido de todos, ao telefone, o livreiro dizia:
- Não, não me mande esse, porque estou a preferir traduções de poetas, e esse senhor não me parece ser um poeta, logo, esperarei sair a tradução do senhor Pinto, porque este, sim, é um poeta.
(Que critério excelente, pensei! Não sabemos quem é o senhor Pinto, pena, não? Quando teremos um raciocínio tão claro assim?)






Paulistânias II

1 Você deve esquecer que dormiu mal, que dorme mal há semanas, desde que se mudou pra cá. Esse negócio de deixar o negativo de lado (qui...