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domingo, novembro 06, 2016

Série: a difícil-incrível arte de viver - parte II



DO QUE FICA NAS VIAGENS

1. Duas horas andando na noite lusitana pra se perceber: Salvador e Ouro Preto me estragaram as vistas, pois todo pedaço de Lisboa me lembra algum lugar onde já estive. Lisboa, no entanto, é mais limpa. Tudo é velho e tudo funciona muito bem (estranho axioma para uma brasileira). Mesmo diante da sensação de que virando a próxima esquina vamos sair no Santo Antônio soteropolitano, andamos sem cessar. Pense que é possível andar na Baixa dos Sapateiros às 23h. Sendo esta Baixa limpa e organizada. Pense que nela há - em vez de comércio fechado, lixo nas calçadas e pessoas te ameaçando - um vento de outono, sangrias vistosas em jarros transparentes, burburinho de palavras cujo significado te escapam e restaurantes com cadeiras na porta. É quase isso.



2. O café da manhã no Borges Chiado não é nem de longe o maravilhoso café a que estamos acostumados nos hotéis do Brasil. Há três ou quatro tipos de frutas, todas inteiras e com casca, dois tipos de iogurte, pães estupendos, dois tipos de feijão sem caldo (feijão?!), uns ovos mexidos feios tão feios, ovos cozidos ainda com a casca, linguiça, pepino e tomate. Volte e novamente registre, pasmada: pepino e tomate?! Sim, alguém os come pela manhã, supõe-se! Mas café da manhã em hotel é detalhe menor, porque se come divinamente bem e barato em qualquer canto da cidade.



3. Estamos naquela passagem bíblica da Babel, quando todas as línguas do mundo são ouvidas, e a mente, tensa, quer codificá-las: isso é francês; aquilo é alemão; inglês, claro, inglês nunca há de faltar; quero saber quando falarão o português de Portugal... Agora ficou bastante estranho, será alguma variação do alemão? Esses senhores são bochechudos e rosados, russos ou poloneses? Consoantes, consoantes, ainda bem que não falo essa língua, ficaria cansada no fim do dia, não há nada mais cansativo do que atravessar uma sequência de consoantes; agora obviamente é espanhol, um espanhol um tanto mais difícil, decerto, europeu; de repente, palavras conhecidas no meio do oceano: "poxa, eu queria mesmo era um suco de limão", brasileiro, óbvio, parece carioca; mas brasileiro não vale, quero ouvir os lisboetas, afinal, onde estão? Esse espanhol é mais fácil, deve ser das Américas, cristalino como água, chileno? Opa, italiano, ah!, italiano!, esse ritmo com que abrem as vogais; japonês, tenho certeza, não vi aquele mundo de filmes em vão... Que vem a ser isso, meu Deus? Outra língua oriental? Árabe? Se seguirmos o esterótipo visual, provavelmente árabe... Mas espere: quando falarão o português de Portugal?



4. Fernando Pessoa espalha-se por todos os cantos, em estátuas, dizeres, camisetas, canecas, chaveiros, ímãs, mas no Largo do Carmo alguém exagerou: em todas as janelas de um prédio antigo há imagens de Pessoa. Desenhos na vidraça, com tinta preta e figuras a partir do que parece ser um aramado(?). João Filho fotografa. Seguimos as janelas e damos com uma porta lateral, onde há mais Pessoa retratado. Concluímos ser uma fundação ou uma exposição sobre o poeta, embora não haja qualquer identificação. A porta está entreaberta. Entramos. Numa antessala, há uma estátua de Pessoa, sentado, uma escrivaninha, máquina de datilografia, cadernos, cadernetas, livros, quadros. A luz é esverdeada e ao lado do poeta há uma cadeira vaga. Me sento e converso com ele. João Filho tira fotos. Seguimos por um corredor. Há mais portas de vidro e a cada porta que passamos mais representações: de Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis... Na sala principal, um senhor careca está sentado e lê um livro. Quando nos vê, se volta e indaga se pode nos ajudar. João Filho explica que fomos atraídos pelas imagens de Fernando Pessoa, como a porta estava entreaberta, julgamos que era um museu ou fundação. O senhor nos olha com reprovação, balança a cabeça e diz: não, isso é uma Gestalt, logo, não deveriam estar aqui, pois é para convidados. Espantados, pedimos desculpas e saímos, às gargalhadas. Na saída, avistamos um grupo enorme de turistas que também vinha atraído pelas imagens pintadas nas janelas. Falavam em inglês e obviamente iriam repetir o nosso erro. Pensamos em avisá-los: é uma Gestalt, só entrem se forem convidados. Depois repensamos: quer saber? Aquele senhor que ponha um cartaz avisando dessa restrição. Quer deixar tudo escancarado numa cidade que recebe hordas de turistas diariamente e não ser incomodado? Fosse no Brasil, até a careca dele seria roubada. Mas que diabo é uma Gestalt?, resmunga João Filho, indignado.



5. Não sei o que falar dos monumentos, do Mosteiro dos Jerônimos, da Torre de Belém, do Padrão dos Descobrimentos, do Castelo de São Jorge, da Catedral da Sé. Realmente: não sei. Você, se os conhece, que me diz?



6. Em Braga, a irmã do poeta Sebastião Alba nos mostrou uma Catedral que tem pouco mais de 900 anos. E ela aponta e fala num tom absolutamente normal: 900 anos. Tá, venho de um país que tem 500, que devo dizer? Para com isso?



7. Os diálogos roubados me apaixonam e sempre volto com páginas deles. Na Alfama, uma senhora falava ao telefone:
- Pois não quero que ela fique ressentida, ao contrário, desejo que seja livre, e que fique com muitos gajos também.
(Com muitos gajos?! Que desejo formidável pra se direcionar à outra criatura!)
Na fila da exposição de Joan Miró, uma menina de oito ou dez anos, parecia chateada e falava com a mãe:
- Mas eu preferia ver o Goya!
E a mãe, com enfado:
- Disso eu já sei, não é preciso repetir!
(Eu quis gritar à menina: eu também preferia o Goya, querida!!!)
Um cego, na rua Garret, nos pede passagem:
- Vós que estais à frente, deixai-me passar, por favor.
E o morador de rua:
- Uma ajuda a mim é possível a vós?
Reclamei com João Filho: olha essa sintaxe, quando eu for escrever isso no meu diário, não saberei onde pôr a vírgula. Não tem vírgula, ele rebateu.
Mas numa livraria do Porto, nasceu meu diálogo roubado preferido de todos, ao telefone, o livreiro dizia:
- Não, não me mande esse, porque estou a preferir traduções de poetas, e esse senhor não me parece ser um poeta, logo, esperarei sair a tradução do senhor Pinto, porque este, sim, é um poeta.
(Que critério excelente, pensei! Não sabemos quem é o senhor Pinto, pena, não? Quando teremos um raciocínio tão claro assim?)






segunda-feira, outubro 31, 2016

Série: a difícil-incrível arte de viver: parte I



DIZENDO SONOROS E REDONDOS "NÃOS"

1. Há pessoas que querem que você acredite que uma "aberração democrática" é melhor do que um idiota financiado pela fé de grupos cristãos. Essas pessoas se consideram inteligentes, juram que conhecem a verdade, sabem o que é certo não só para si mesmas, mas para a capital mais linda do País.

2. Por causa da crença nessa sabedoria-própria, passam meses fazendo "memes" e lançando frases ora maldosas, ora catastróficas nas redes sociais. Elas querem disseminar o pânico numa classe média-ideal, a que elas pertencem, mas, esquizofrenicamente, acham que não. Tudo vale, a fim de impedir que o pastor babaca vença o bandidinho vermelho. Nessa "causa carioca", elas têm, sim, e muito, o apoio em peso da mídia, mas fingem que não.

3. Aí o mundo gira, porque lhe é próprio girar, e acordamos numa segunda-feira belíssima, quando as amendoeiras e os passarinhos mais nos comunicam a primavera. A luz da vida é tão cristalina que nossos olhos, ao sair à varanda, lacrimejam. Antes do café, é preciso um banho, para só então abrimos, um a um, os canais de notícias, e sermos devidamente avisados que o Rio de Janeiro disse "não".

4.Não é não. Diante dele, às crianças restam o choro; aos adultos, a dignidade do respeito, da aceitação - esse mesmo respeito e essa mesma aceitação do outro que as tais pessoinhas tanto pregam que defendem, que conhecem, que praticam, mas que, curiosamente, desaparecem num piscar de olhos de suas cabecinhas e comportamentos, basta que o mundo concreto seja diferente daquele idealizado por elas.

5. Dentro da difícil-incrível arte de se viver nesse velho mundo, percebemos, de sobrancelhas arqueadas, que essas pessoinhas inteligentes e donas da verdade, além de não aceitarem um "não", ainda querem vomitar ressentimento e palavras amargas contra o Rio de Janeiro. Devem ter mentalmente 4 ou 5 de idade, por isso, choram, esperneiam, agridem, falam em luto no Facebook. Algumas ofendem diretamente os cariocas, outras, querendo soar irônicas, lamentam e desejam coisas ruins ao Rio. Sim, serão quatro anos de miséria, catástrofes, violência (mais?), sabe-se lá. Profetizam o apocalipse à cidade maravilhosa, porque o bandidinho acéfalo perdeu e o pastor babaca ganhou.

6. Tudo bem, nós entendemos: não levaram aquela bronca no shopping center, há anos, quando gritaram por tal brinquedo diante de pais constrangidos; sem limites, cresceram achando que o mundo tem obrigação de suportar seus calundus e sua dificuldade de raciocínio. Tudo bem, tudo bem, vamos fazer vista grossa, dar um tapinha na cabeça e pacientemente dizer: calma, respirem direito, amanhã ainda vai ser pior que hoje, tenham calma.

7. O Rio de Janeiro, Beleza-plena, Beleza-infinita, não ouvirá essas gralhas ao seu redor. É um lugar que guarda fragmentos de quando o mundo era perfeito, e de sorte não tem ouvidos, tampouco guarda mágoas. O Rio de Janeiro tem apenas uma boca coletiva, e essa está dizendo "não". Um não sonoro e redondo. Um "não" que é seu, por direito.

quarta-feira, agosto 17, 2016

Aperitivo



[...] Eros voltou a ser simpático: explicou, brevemente, que veio atendê-los em função de as correntes de orações deles estarem cada vez mais fortes e sistemáticas. O certo seria um dos guardiões vir, ponderou, mas, por razões adversas, que não poderiam ser mencionadas naquele instante, foi solicitado a ele que viesse.
— Você não é um guardião? — perguntou Ramiro, meio decepcionado.
— Não — respondeu Eros. — Ainda não sou.
— Quem é você, afinal? — questionou Maria Madalena, impaciente.
— Um leitor — afirmou Eros. — Um leitor profundamente agradecido pelos ensinamentos do Livro-Real, embora metade deles ainda esteja sendo digerida por mim.

Bastou mencionar sua condição de leitor do livro tão almejado, pros quatro amigos mudarem completamente de atitude. Entreolham-se, maravilhados. Ah, então, é leitor do Livro-Real!, disse Ramiro, levitando de satisfação. Alguém ouviu as preces do grupo e o mandou ao encontro deles, pensou Gustavo. Os quatro se desdobraram em perguntas. Gus-tavo queria saber qual era o tamanho do Livro-Real, quanto pesava, em que língua foi originalmente escrito, quem o traduzia, quem o editava, quem definia a ordem dos leitores. Ramiro perguntou quanto tempo ainda aguardariam na fila a fim de ler a obra. Vicente indagou por dados específicos: havia técnicas de meditação eficazes no Livro-Real? Alguma espécie de manual ou passo a passo pra iniciantes? Alguma postura nociva a ser evitada por quem espera ser escolhido pra leitor? As perguntas de Maria Madalena foram mais específicas ainda: de que forma se comunicavam os leitores e guardiões do Livro-Real? Quem decidia o próximo leitor? Quando Eros fora escolhido? Quantas cópias do Livro existiam no mundo? Qual a média de brasileiros que logravam acesso ao Livro-Real?

Eros sentia a cabeça formigar. Engoliu meia garrafa de água mineral. Procurou responder a cada uma das perguntas rápida e pontualmente: o Livro-Real tinha o formato de 31 X 21, se assemelhando a um desses livros de fotografia ou pintura; era pesado, não se lembrava quanto, mas devia ultrapassar dois quilos, por isso, não era bom andar com ele pra lá e pra cá, o ideal seria que fosse lido em casa; não tinha a menor ideia de quantos brasileiros leram o Livro-Real, não foram feitas estatísticas; seu conteúdo foi escrito simultaneamente em todas as línguas existentes à época de sua primeira materialização, que deve ter sido, provavelmente, na Antiguidade... Bem, bem, ele não pode afirmar com certeza em qual tempo fora escrito; os avatares o traduziam pras línguas modernas, mas ninguém tinha contato com tais entidades; quanto à edição, ninguém sabia detalhes acerca desse processo, mas a cópia a que Eros teve acesso era excelente, revelou; na prática, eram os guardiões quem definia a ordem dos leitores, entretanto, isso era mera convenção terrestre, pois a única lei usada pra gerar uma lista de leitores era a velha máxima de que quando o discípulo está pronto, o mestre naturalmente surge, ou seja, a única regra a ser observada seria a da aptidão do candidato pra receber tal conhecimento; por essa razão, não podia dizer quanto tempo concreto eles aguardariam na fila, contudo, podia desfazer um erro comum nas orações e correntes deles: a insistência pelo coletivo, isso, sim, atrapalhava a percepção dos guardiões, afirmou.

Os amigos se assustaram frente à revelação. Maria Madalena, mesmo entendendo a informação, quis esmiuçar:
— O que você quer dizer com isso? Que não devemos buscar o Livro-Real em grupo, mas cada um por si?

Em vez de responder, Eros voltou a beber vagarosamente sua água mineral. Terminou, gesticulou pedindo outra ao garçom.

— Os guardiões são contra o coletivo, é isso? — insistiu Maria Madalena.

— O que há de errado em nossas orações e correntes? — perguntou Gustavo, um tanto revoltado.

— Não há nada errado — respondeu Eros, cuidadoso. — Podem, evidentemente, continuar com elas. O que me pediram pra explicar é que... Bem, são bons exercícios, tá tudo certo, vocês criam uma atmosfera de busca, mas na prática, enquanto buscadores, vocês não devem se restringir a esses encontros. Cada um deve buscar o conhecimento de forma individual, porque o percurso de cada um é único, estamos numa era individual, en-tendem? E o mais importante: vocês não estão no mesmo nível de vibração, então, não adianta, se reúnem, oram, fazem pedidos, rituais, mas depois disso cada um retoma sua frequência...

— Não entendo nada do que você diz — murmurou Gustavo, profundamente decepcionado, pois era um dos mais simpáticos às reuniões do grupo. — Deveríamos ser parabenizados por conseguirmos, num lugar árido como Bom Jesus da Lapa, mais afeito a cachaça e maconha, nos reunirmos em torno de um objetivo maior. Em vez disso, somos criticados e aconselhados a apostarmos no individualismo, o mesmo individualismo que, em todas as épocas, foi empecilho pro crescimento espiritual! Afinal, o que os guardiões têm contra a coesão social?

— Até onde sei, os guardiões não têm nada contra a coesão social — pontuou Eros, mantendo o mesmo cuidado de antes, sentindo-se cada vez mais uma espécie de irmão mais velho daqueles quatro. — E mesmo que tivessem, não seria o caso. Vocês não formam uma coesão social.

— Claro que formamos — sustentou Gustavo, encarando Eros.

— Não — reafirmou Eros, mantendo o olhar. — Não há coesão social entre você, que é herdeiro de vários imóveis, estuda na capital, recebe gorda mesada dos pais, e Vicente, que terminou o segundo grau com muito esforço, ganha um salário de vendedor de sapa-tos e precisa somá-lo às costuras da mãe pra sustentar a família. Qual coesão social haveria entre sua prima Ioná, também herdeira de um bom patrimônio, que logo será aumentado pelos lucros da profissão da excelente advogada que ela, em breve, será, e Maria Madalena, aqui presente, cujo salário de recepcionista na única clínica oftalmológica da cidade mal dá pros remédios da mãe? Que coesão social há entre Hendrix, que já ficou dias sem ter dinheiro sequer pra se alimentar, e Ramiro, que não se levanta da cama por desprezo à vida cotidiana, mas tem a geladeira cheia de comida que, inclusive, ele mesmo joga no lixo?

Maria Madalena quase enfartou de susto ao perceber detalhes da vida dela e dos a-migos na boca do desconhecido. Ramiro abaixou a cabeça, deveras constrangido. E Vicente, pra quebrar o gelo, comentou que Hendrix não era do grupo deles, aliás, até onde sabia, Hendrix jamais fora a Bom Jesus da Lapa.

— O que você está querendo nos dizer? — indagou Gustavo, ríspido. — Que pra sermos escolhidos como leitores do Livro-Real temos de passar ao culto do individualismo, cada um por si e Deus contra todos, é isso?

— Não. Cada um por si e Deus por todos — tornou Eros, calmo. — O que quero dizer é que vocês são um grupo unido por afinidades culturais e afetivas, alguns até por laços de sangue, mas, no máximo, poderíamos falar em coesão afetiva, nada a ver, portanto, com coesão social. [...]

Lançamento "Não se vai sozinho ao paraíso", 20/08, às 17h, no Café do ICBA (Corredor da Vitória)

quarta-feira, junho 29, 2016

CANCELADO!


Pessoas queridas:

aviso que o lançamento do meu romance "Não se vai sozinho ao paraíso", marcado para dia 05/07, foi CANCELADO, pela Editora.
Quem tiver interesse pode adquirir o livro no site da editora (que o enviará a partir de 06/07):

http://www.mondrongo.com.br/index2.php?pg=noticia&id=108

Se preferir pessoalmente, o livro estará disponível no evento FLICA NA CAIXA, na Caixa Cultural, dia 09/07. Estarei na mesa Resistência na Literatura, com participação de Edney Silvestre, e mediação de Malu Fontes.

O livro também será vendido após dia 10/07, na LDM e Livraria Boto (Barra).

Peço desculpas e agradeço a divulgação e carinho de todos vocês!