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quarta-feira, agosto 17, 2016

Aperitivo



[...] Eros voltou a ser simpático: explicou, brevemente, que veio atendê-los em função de as correntes de orações deles estarem cada vez mais fortes e sistemáticas. O certo seria um dos guardiões vir, ponderou, mas, por razões adversas, que não poderiam ser mencionadas naquele instante, foi solicitado a ele que viesse.
— Você não é um guardião? — perguntou Ramiro, meio decepcionado.
— Não — respondeu Eros. — Ainda não sou.
— Quem é você, afinal? — questionou Maria Madalena, impaciente.
— Um leitor — afirmou Eros. — Um leitor profundamente agradecido pelos ensinamentos do Livro-Real, embora metade deles ainda esteja sendo digerida por mim.

Bastou mencionar sua condição de leitor do livro tão almejado, pros quatro amigos mudarem completamente de atitude. Entreolham-se, maravilhados. Ah, então, é leitor do Livro-Real!, disse Ramiro, levitando de satisfação. Alguém ouviu as preces do grupo e o mandou ao encontro deles, pensou Gustavo. Os quatro se desdobraram em perguntas. Gus-tavo queria saber qual era o tamanho do Livro-Real, quanto pesava, em que língua foi originalmente escrito, quem o traduzia, quem o editava, quem definia a ordem dos leitores. Ramiro perguntou quanto tempo ainda aguardariam na fila a fim de ler a obra. Vicente indagou por dados específicos: havia técnicas de meditação eficazes no Livro-Real? Alguma espécie de manual ou passo a passo pra iniciantes? Alguma postura nociva a ser evitada por quem espera ser escolhido pra leitor? As perguntas de Maria Madalena foram mais específicas ainda: de que forma se comunicavam os leitores e guardiões do Livro-Real? Quem decidia o próximo leitor? Quando Eros fora escolhido? Quantas cópias do Livro existiam no mundo? Qual a média de brasileiros que logravam acesso ao Livro-Real?

Eros sentia a cabeça formigar. Engoliu meia garrafa de água mineral. Procurou responder a cada uma das perguntas rápida e pontualmente: o Livro-Real tinha o formato de 31 X 21, se assemelhando a um desses livros de fotografia ou pintura; era pesado, não se lembrava quanto, mas devia ultrapassar dois quilos, por isso, não era bom andar com ele pra lá e pra cá, o ideal seria que fosse lido em casa; não tinha a menor ideia de quantos brasileiros leram o Livro-Real, não foram feitas estatísticas; seu conteúdo foi escrito simultaneamente em todas as línguas existentes à época de sua primeira materialização, que deve ter sido, provavelmente, na Antiguidade... Bem, bem, ele não pode afirmar com certeza em qual tempo fora escrito; os avatares o traduziam pras línguas modernas, mas ninguém tinha contato com tais entidades; quanto à edição, ninguém sabia detalhes acerca desse processo, mas a cópia a que Eros teve acesso era excelente, revelou; na prática, eram os guardiões quem definia a ordem dos leitores, entretanto, isso era mera convenção terrestre, pois a única lei usada pra gerar uma lista de leitores era a velha máxima de que quando o discípulo está pronto, o mestre naturalmente surge, ou seja, a única regra a ser observada seria a da aptidão do candidato pra receber tal conhecimento; por essa razão, não podia dizer quanto tempo concreto eles aguardariam na fila, contudo, podia desfazer um erro comum nas orações e correntes deles: a insistência pelo coletivo, isso, sim, atrapalhava a percepção dos guardiões, afirmou.

Os amigos se assustaram frente à revelação. Maria Madalena, mesmo entendendo a informação, quis esmiuçar:
— O que você quer dizer com isso? Que não devemos buscar o Livro-Real em grupo, mas cada um por si?

Em vez de responder, Eros voltou a beber vagarosamente sua água mineral. Terminou, gesticulou pedindo outra ao garçom.

— Os guardiões são contra o coletivo, é isso? — insistiu Maria Madalena.

— O que há de errado em nossas orações e correntes? — perguntou Gustavo, um tanto revoltado.

— Não há nada errado — respondeu Eros, cuidadoso. — Podem, evidentemente, continuar com elas. O que me pediram pra explicar é que... Bem, são bons exercícios, tá tudo certo, vocês criam uma atmosfera de busca, mas na prática, enquanto buscadores, vocês não devem se restringir a esses encontros. Cada um deve buscar o conhecimento de forma individual, porque o percurso de cada um é único, estamos numa era individual, en-tendem? E o mais importante: vocês não estão no mesmo nível de vibração, então, não adianta, se reúnem, oram, fazem pedidos, rituais, mas depois disso cada um retoma sua frequência...

— Não entendo nada do que você diz — murmurou Gustavo, profundamente decepcionado, pois era um dos mais simpáticos às reuniões do grupo. — Deveríamos ser parabenizados por conseguirmos, num lugar árido como Bom Jesus da Lapa, mais afeito a cachaça e maconha, nos reunirmos em torno de um objetivo maior. Em vez disso, somos criticados e aconselhados a apostarmos no individualismo, o mesmo individualismo que, em todas as épocas, foi empecilho pro crescimento espiritual! Afinal, o que os guardiões têm contra a coesão social?

— Até onde sei, os guardiões não têm nada contra a coesão social — pontuou Eros, mantendo o mesmo cuidado de antes, sentindo-se cada vez mais uma espécie de irmão mais velho daqueles quatro. — E mesmo que tivessem, não seria o caso. Vocês não formam uma coesão social.

— Claro que formamos — sustentou Gustavo, encarando Eros.

— Não — reafirmou Eros, mantendo o olhar. — Não há coesão social entre você, que é herdeiro de vários imóveis, estuda na capital, recebe gorda mesada dos pais, e Vicente, que terminou o segundo grau com muito esforço, ganha um salário de vendedor de sapa-tos e precisa somá-lo às costuras da mãe pra sustentar a família. Qual coesão social haveria entre sua prima Ioná, também herdeira de um bom patrimônio, que logo será aumentado pelos lucros da profissão da excelente advogada que ela, em breve, será, e Maria Madalena, aqui presente, cujo salário de recepcionista na única clínica oftalmológica da cidade mal dá pros remédios da mãe? Que coesão social há entre Hendrix, que já ficou dias sem ter dinheiro sequer pra se alimentar, e Ramiro, que não se levanta da cama por desprezo à vida cotidiana, mas tem a geladeira cheia de comida que, inclusive, ele mesmo joga no lixo?

Maria Madalena quase enfartou de susto ao perceber detalhes da vida dela e dos a-migos na boca do desconhecido. Ramiro abaixou a cabeça, deveras constrangido. E Vicente, pra quebrar o gelo, comentou que Hendrix não era do grupo deles, aliás, até onde sabia, Hendrix jamais fora a Bom Jesus da Lapa.

— O que você está querendo nos dizer? — indagou Gustavo, ríspido. — Que pra sermos escolhidos como leitores do Livro-Real temos de passar ao culto do individualismo, cada um por si e Deus contra todos, é isso?

— Não. Cada um por si e Deus por todos — tornou Eros, calmo. — O que quero dizer é que vocês são um grupo unido por afinidades culturais e afetivas, alguns até por laços de sangue, mas, no máximo, poderíamos falar em coesão afetiva, nada a ver, portanto, com coesão social. [...]

Lançamento "Não se vai sozinho ao paraíso", 20/08, às 17h, no Café do ICBA (Corredor da Vitória)

quarta-feira, junho 29, 2016

CANCELADO!


Pessoas queridas:

aviso que o lançamento do meu romance "Não se vai sozinho ao paraíso", marcado para dia 05/07, foi CANCELADO, pela Editora.
Quem tiver interesse pode adquirir o livro no site da editora (que o enviará a partir de 06/07):

http://www.mondrongo.com.br/index2.php?pg=noticia&id=108

Se preferir pessoalmente, o livro estará disponível no evento FLICA NA CAIXA, na Caixa Cultural, dia 09/07. Estarei na mesa Resistência na Literatura, com participação de Edney Silvestre, e mediação de Malu Fontes.

O livro também será vendido após dia 10/07, na LDM e Livraria Boto (Barra).

Peço desculpas e agradeço a divulgação e carinho de todos vocês!

segunda-feira, maio 02, 2016

O homem sem qualidade



1. Nas minhas andanças pelo cinema inverossímil da vida, assisti, perplexa, a um diálogo entre duas irmãs, enquanto esperava minha vez de fazer as unhas, num salão. Nunca me esqueci desse diálogo e posso reconhecer suas protagonistas em qualquer lugar, por mais distante que esteja, hoje, da cena. Foi algo muito singular, mas quem conhece Salvador não vai se surpreender. Era um salão popular, e eu me recordo que ainda morava num quarto e sala, no Canela. Anotei esse diálogo, bem como seu contexto, em meu diário, assim que cheguei em casa, ansiosa por não perder nenhuma parte da experiência — plena de absurdos e falas tão espontâneas que logo pensei: darão um ótimo conto.

2. Não deram. De lá pra cá, tentei fazer literatura com esse diálogo uma meia dúzia de vezes. O resultado era bestinha, despido de qualquer traço da ironia deliciosamente esquisita que ouvi no salão. Revoltada com as leis da escrita — por vezes inegociáveis, quando não sádicas —, fiz aquilo que nossas avós costumavam aconselhar: larga isso de mão, menina. Pois bem, larguei! O uso máximo que fiz da história presenciada foi contá-la pra algumas amigas que, desconfiadas, riram, pensando que era invenção minha (elas nem disfarçam que pensam descaradamente isso de mim).

3. Mas ontem descobri o diálogo outra vez, por acaso, quando peguei erradamente uma agenda já preenchida e, por curiosidade, me pus a reler seu conteúdo. Você, obviamente, está aí de orelha em pé sem entender patavina. Não se preocupe, eu explico: embora eu escreva direto no laptop, jamais consegui escrever meus diários em tela. Escrevo-os a caneta, normalmente à tarde, ou, por vezes, deixo acumular dois, três dias, então, me sento na varanda, devoro uma caneca de café, dois cigarros, e repasso tudo. A mão. Em cadernos, blocos ou agendas.

4. Como assim agendas?, você perguntará. Pois é, por alguma razão desconhecida, todo ano as pessoas me dão duas, três agendas de papel. Tempos atrás, percebi que havia uma verdadeira papelaria em minhas estantes. No dia a dia, não costumo anotar nada em agendas — anoto meus compromissos mais importantes diretamente no calendário; os menos importantes, em papéis avulsos que logo jogo fora —, então, foram se avolumando agendas de quatro, cinco anos atrás, intactas, algumas já mofando. Resolvi usá-las pros diários e, a partir daí, tudo ficou mais dinâmico, pois quando acabo uma, logo tem mais quatro ou cinco à espera (as pessoas continuam a me dar agendas em novembro, vá entender).

5. Muitas vezes, por preguiça, acabo um diário e me esqueço de colocá-lo na caixa, encerrando-o no limbo das traças e do mofo (meu apartamento é muito úmido, mas já decidi que o amo e não vou me mudar daqui). Quando largo os diários-agendas pelos cantos, Luciene, nossa empregada, que está comigo há mais de quinze anos, os guarda nalgum lugar que ela considera adequado. Pode ser na estante dos livros de teoria e crítica, ou na de romances e afins, no meu criado, atrás das bolsas ou de uma pilha de CDs que por acaso eu disse pra ela não mexer. Nas estantes de poesia ela nunca os põe — provavelmente porque já entendeu que são as estantes de Seu João.

6. Me deparei com o diário-agenda na estante e logo o julguei novo, fui abri-lo pra iniciar novas anotações. Mas, surpresa!, ele não apenas estava preenchido, como era muito velho. De onde brotou esse troço?, foi o que pensei, sem compreender a razão de não estar na caixa dos diários, dormindo com os outros. Devia estar há anos ali, enfiado entre o I Ching (que sempre tive preguiça de consultar) e a biografia de Thomas Mann (que jamais terminei, porque o sujeito biógrafo fala mal do objeto biografado, e eu tomei um ódio mortal dessa criatura que ousa falar mal de Thomas Mann). Folheei o diário, curiosa pra saber que gente era eu nesse mundo pretérito, e me deparei de novo com esse diálogo.

7. A manicure trabalhava e repreendia a irmã (que me pareceu senão a caçula, ao menos mais nova do que sua repressora). Uma era negra e forte, a outra, dessas morenas claras, pequenas, tipicamente baianas. A mais clara e mais nova estava chorosa, sentada num banco. O salão estava quase cheio, mas ambas ignoravam isso. Quando entrei, a conversa já rolava, e a mais velha dizia: — Você não tem que conversar, não tem nem que tomar conhecimento que esse indivíduo vive, entendeu? Enquanto dava esses conselhos, que mais pareciam ordens, ia tirando o esmalte da mão da cliente, que apenas sorria, sem participar da conversa. A mais moça rebateu, com voz de choro que estava pensando em ouvir o que ele tinha pra dizer. Não!, enfatizava a manicure, não tem que ouvir nada! Pra quê? Esqueça esse homem, é um traste que não serve pra nada! A irmã mais nova disse baixinho que gostava do rapaz. Gente, foi ela dizer isso e a interlocutora espumar! Parecia que ia explodir de raiva. Gostava, gostava!, reclamou, irritada, que mania de gostar! Desde pequena que você tem isso, acusou. Tudo você quer gostar! Pois não tem nada pra gostar nele, entendeu? Nada!

8. De repente, a caçula me pareceu ganhar coragem, porque respirou fundo e disse menos chorosa: — É, Edmaura, eu gostava dele, se você não entende isso... Mas a mais velha nem a deixou concluir, esbravejou um não, não entendo!, que fez o salão todo prender a respiração. Eu logo pensei que Edmaura ia bater na outra, tamanha a rispidez com que respondeu. Mas, pra nossa surpresa, ela se levantou, foi esterilizar um dos instrumentos e, de lá mesmo, a poucos passos de onde estávamos — eu no banco esperando minha vez de ser atendida por Edmaura; a irmã chorosa sentada de frente pra mim; uma cliente sendo atendida por outra manicure; duas cabeleireiras trabalhando em mais duas clientes —, começou a desenvolver uma argumentação risível na qual ela mesma perguntava e ela mesma respondia, assim:
— Eu quero que você me diga o que tem nesse homem pra se gostar, não!, me diga, vá! Ah, pelo amor de Deus! Um homem sem serventia! Por acaso é um homem bom, que fica do seu lado, te acompanha, que é parceirão ali, pro que der e vier? Não! Uma misera que não pode ir nem no posto médico contigo! É um homem bom de cama, que te dá prazer? Sim, porque às vezes o cabra dá conta lá do recado, ué!
(O salão inteiro riu, algumas fizeram aiii, vale a pena, né!?).
— Sim! — concordou Edmaura, voltando com os instrumentos e retomando o serviço. — Se você me disser que o sujeito te dava prazer, pronto! Tá explicado, tá justificado! Eu piu!, calo logo a minha boca. Entendo perfeitamente! Se o cabra é bom de cama, a gente vai fazendo vista grossa pras outras coisas. Mas não, você mesma disse que nos últimos dias quando se achegava na criatura, ele alegava dor de cabeça! Dor de cabeça!
— Mas, Edmaura! — tentou a irmã mais nova, sem sucesso.
— Dor de cabeça! — soletrou Edmaura, revoltada. Na verdade, todas nós no salão já estávamos irritadíssimas com esse homem!
— Você já viu homem ter dor de cabeça na hora do vamô ver? — perguntava Edmaura à cliente, a mim, a todo mundo no salão, ao que respondíamos em coro claro que não!
— Quem tem dor de cabeça é mulher, entendeu? Mulher! Homem não tem dor de cabeça! — decretou, Edmaura, apoiadíssima por todas nós.
— Também não é assim — disse a irmã mais moça, sem graça.
— Não é assim o quê? — rebateu Edmaura. — É assim mesmo. É um homem sem serventia. Você nunca me disse uma qualidade pra se gostar dele. É um homem trabalhador, que bota as coisas dentro de casa? Não, o infeliz tá desempregado há meses! Meses! É um homem inteligente, que sabe conversar, desenvolver os assuntos, fazer a gente passar por mulher de homem culto nos lugares? Qual! O desgraçado mal abre a boca! Quando fala, é pra reclamar e dizer que quer ir embora, quer ir embora! É um homem bonito? Sim, porque a gente pode querer ter uma visão agradável quando chega em casa, ué! Quem não quer?
Todas nós concordamos: homem bonito é um bálsamo.
— Não! A misera do homem é feio e nem se cuida, muitas vezes você se queixou que achava que ele não tava tomando banho — tornou Edmaura.
Afff!, eu pensei em entrar na discussão e fazer coro: esquece esse encosto, mulher!
— É um homem engraçado, que te faz rir? — continuou Edmaura, ela mesma perguntava, ela mesma respondia. — Sim, porque eu já fiquei com namorado somente porque me fazia rir.
— Eu também! — disse uma das cabeleireiras.
— Mas não, a misera do homem só vive de mau humor — prosseguia Edmaura. — De cara amarrada. Com raiva do mundo. Se a gente chama pra um churrasco, não quer ir, porque demoram de servir a comida, a cerveja está sempre quente, e ele se irrita. Não gosta de feijoada, porque é uma comida pesada e ele tem desarranjo. Enfim, não gosta de nada! Ah, vai-te pro diabo! Um homem sem serventia! Gostar de que nele? Não tem o que gostar! É um bom pai? Sim, porque se é bom pai pros filhos da gente, pronto!, a gente respeita, é importante, eu faria esse sacrifício por meus meninos! Mas não!, nas três vezes que você deixou a criança com ele, o peste deixou a menina se machucar!
— Mas, Edmaura! — tentou de novo a irmã, chorosa, envergonhada com os olhares de todo o público feminino em cima da falta de noção dela. Sim, porque a essas alturas, todas nós estávamos com ódio desse cara e querendo beber o sangue dele.
— Não tem mais Edmaura nem menos Edmaura — disse a outra, impassível. — Esse homem é um zero à esquerda, você não vai conversar nada com ele, nada! Acabou em boa hora. Não é homem pra se gostar, desgoste dele logo, viu?! Desgoste logo!

09. Estávamos todas horrorizadas e solidárias com Edmaura. Mas a dona do salão, surpreendentemente, disse que não era assim que se resolvia as coisas, que a irmã estava sofrendo, bastava olhar pra ver que ela ainda gostava do rapaz. É só deixar de gostar, rebateu Edmaura, imune ao rosto consternado da irmã. E por mais que tente, jamais me esqueço da simplicidade com que ela repudiou essa intervenção:
— Ele não tem o que ela gostar, entendeu? Porque não tem nada nele, é um homem sem nenhuma qualidade — sentenciou.

domingo, abril 17, 2016

Bom domingo



1. O mar de Salvador é egoísta, lindo azul-cinzento às 7h, não quer saber de guerras, se lixa pra conflitos, não tá nem aí pros que acordaram neste 17 de abril com ânsia, esperança ou medo;

2. Idem o sol, cujo namoro com as ondas do mar chega a ser indecente: se lambem, se fundem, tingindo o mundo de prata brilhante, tão cedo;

3. Esse café espresso com espuma de leite também é deveras egoísta; idem os morangos sangrentos, em círculos em cima do bolo, esperando por degustação;

4. A serenidade da vida tão quieta mas intensamente verde-alaranjada nessas folhas que as amendoeiras dispensam pelas ruas de Salvador, como se estivéssemos vivendo um simples outono e não um caos coletivo;

5. É impressionante o grau de violência contido na alegria da menina de 4, 5 anos, toda molhada de mar, que segura mão do pai à minha frente. Ambos estão voltando de um mergulho no Porto da Barra, e ela diz que está com frio, debaixo do sol das 7h30, enquanto o pai ri, compreensivo, parando a caminhada pra vestir na pequena uma blusinha com desenhos das Monster High;

6. Mas a humanidade terá jeito algum dia?, pergunta o senhor de boné à minha frente — provavelmente um interesseiro, retórico comodista — na porta da igreja de Santa Terezinha, enquanto a senhora, toda de branco, segura em seu braço e murmura vários claro que sim, George, claro que sim;

7. Ainda mais irritantemente interesseiro e comodista é o diálogo seguinte, que se materializa há alguns metros da porta da farmácia Pague Menos:
— Senhora, me dê uma ajuda pra comprar uma passagem pra minha cidade, porque perdi meu emprego, não tenho dinheiro pra voltar pra casa, blábláblá.
— Que cidade é essa?
— Itiúba.
— Onde é isso?
— Depois de Jacobina, senhora.
— Só tenho aqui 5 reais. Tome...
— Deus lhe dê em dobro.
— Viu, Deus? — diz a mulher, com cara de puro egoísmo, fechando a bolsa. — Me deve 10 reais...

8. Libertados, desde logo, das servidões queridas, libertados da necessidade das fontes, apontamos a proa o algo longínquo. Só então, do alto de nossas trajetórias retilíneas, descobrimos o embasamento essencial, o fundo de rocha, de areia, de sal, em que, uma vez ou outra, como um pouco de musgo entre as ruínas, a vida ousa florescer. [...] Então podemos julgar o homem por uma escala cósmica, observando-o através de nossas vigias como se fora através de instrumentos de estudo. Então relemos nossa história. (Saint-Exupery).

9. Talvez você também seja uma cretina, absurdamente voltada para si e alheia aos interesses do outro, pois ao voltar pra casa, depois do banho, escolhe tomar mais café, se sentar à varanda e reler Terra dos Homens, de Saint-Exupery, fumando seu cigarro, tranquila, como se vivesse mais um domingo concedido pelos Céus.