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Mostrando postagens de Dezembro, 2006

Pedaços

Ele havia mencionado que "o tempo fechou" em sua casa, depois falaria sobre isso. Não falou porra nenhuma e simplesmente sumiu. Cinco dias sem notícia.

Ela ficou preocupada. Escreveu perguntando se estava tudo bem por lá. "Por aqui, o tempo fechou também", ela brincou no email, mas em termos de clima, "está chovendo desde domingo". E acrescentou, de puro charme: "Mas é normal, já reparei que todo ano, onde quer que eu esteja, sempre chove nos dias 21 e 22 de novembro".

Isso era verdade, não charme. Não pergunte porquê nem diga que é coincidência.
Sempre chove no aniversário de André Gide, e um dia antes dele.
Isto porque Gide abre Sagitário, enquanto ela encerra Escorpião.

Sempre lhe acontece também: uma crise de coluna que, inexplicavelmente, termina em vômito. Também não pergunte porquê. Vai que ela está ainda ligada à Terra - que coisa lenta, não? - e precisa de purificação.

Já está tão acostumada com a dor de coluna dia 21 de novembro que cansou d…

Porque brilha

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Toda vez que a porra bate em seu estômago, ele não agüenta. Tira os olhos da vida porque em nada há de caber com esse corpo e essa dor. Enjoa, sua dor é só um enjôo crescendo e tomando conta da boca. Parece sem sentido que se trabalhe tanto apenas pra se conseguir isto: minúsculos comprimidos. Cápsulas de cores tão vivas. Joga toda sua energia toda atrás disto, em torno disto, buscando isto. Machucado com vodca. Vinho tinto. Conhaque. Mas bem que ele prefere com uísque. Sim, o que mais gosta é com uísque. Dois, três. Esprimidinhos no fundo do copo. Mudando a cor da bebida e dos olhos. De todo e qualquer objeto que atravessar o campo dos olhos. Na hora é tão bom. Tudo é excessivamente brilhante. Vê um cara de terno escuro com um guarda-chuva laranja. O cara brilha como se fosse de inox polido. Prata. Lataria banhada de sol. Sabe-se lá mais o quê. Mas, não, espere: o guarda-chuva ficou vermelho. E dói nos olhos. Gostoso ver como o vermelho brilha. A vida não podia ser apenas um vermelh…
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fonema não fode. sua lavra nunca traduzirá a manhã azul que se projeta da buça dela. sua lavra nunca traduzirá o cheiro-sujo que a pica aspira, mela gengivas o pau procura palavra, mas palavra nunca traduzirá a buça aberta. (João Filho)
Qual foi a natureza das coisas que amei? Está muito, muito quente. Ainda não é verão, mas a cidade ferve e é repleta de urgências como se vivesse em verão pleno.Quem sabe quando deixaremos de procurar com ânsias sentir a proporção inteira daquilo que desejamos? Quem sabe se, ao termos o que desejamos, apaixonadissimamente, perderemos o hábito/gana/angústia da posse?Talvez leve, em harmonia, como a assimilação de contéudo & forma, ficando menos longe e menos dor, ficando sempre pele e sempre viço.Conseguiremos? A manhã está doce de tão serena. As preocupações de ontem desaparecem. Efeito da indecisão do tempo. O céu está nublado e há rumores de chuva, mas o sol persiste entre nuvens com sua luz cristalina.Os olhos recaem a cada terço de hora nos flamboyants …

Mais...

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UIVO

Já não escuto o que é agudo ou grave,
Mesmo as aves são mero vôo obscuro.
Ouço apenas os mudos,
estes lobos de olhares ocos
a percorrer bosques de fome,
onde tateio uivos.
(poema de Marcus Vinícius Rodrigues, In: Tanta Poesia)

mais um pouco de Tanta Poesia

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Naftalina

Pouca pouca roupa, pouco pouco a te cobrir/ louco louco sobre mim/ coxas, línguas, passo, passas/ boca a boca, / ninguém a nos adivinhar, ninguém por nos descobrir/ o tempo todo recolhidos,/ jornais a falar, a falar por prazer/o massacre é a indefinição, o massacre é a desintegração/violentamente você saindo de dentro/ de lá do abismo mais escuro/onde não se ouve, não se julga, não se mede/ só mata-se, mata-se, mata-se/sem sol, sem frio: intactamente sobre o mármore/ nem sonho nem jardim: inescrupulamente guardados/ vedados, próximos às traças, próximos às aranhas/ mas você gosta de cupins e você sabe evitar o murmúrio/tão dentro de mim não há barulhos/ nem o ir e vir cansado dos carros diante dos prédios/ não há tua palidez, tua brochura/ tua invalidez, teus cabelos caindo brancos/ há o perfume da coisa abarrotada, da coisa apodrecida, encarcerada/ da coisa transtornada, paranóica, xilocainizada/ revertendo quadros, espera incansável/ de ser novamente aberta, novamente sopra…

Tanta Poesia

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Dia 07/12/2006, no café Goethe, do ICBA, foi
lançada a Antologia Tanta Poesia, da qual fazem
parte 07 poetas, dentre eles, io!


Poeminha retirado da antologia:


Adolescência
I

(Para Jairo Castro de Andrade)


Pássaro distante, jamais nosso,
é um vôo no deserto, no muito pouco
que escapou de ti ontem.
Nunca mais vou olhar qualquer inocência da janela,
nem o sorriso velho, que nem cristal mal reluzido,
pode acordar o que antes ardia por querer.
O nosso estar cansado, o nosso não sem sentido
foi o que mais cresceu. E cresceu tanto
que as raízes derrubaram
a doce casa de portas amarronzadas.
Eu tive que me esconder
nos cacos, na desordem
enquanto você levantava vôo.
Você hoje não pode mais saber
se houve desejo pelo teu pouso,
se eu, aliviada, sorri,
se eu, desesperada, ergui
pedra por pedra, caco por caco,
pra sentir na ponta dos dedos
onde é que o fim fere mais.
Eu te disse que tudo é passado,
mas foi outra forma de mentira,
pois dores não têm ontem, hoje, amanhãs,
elas ficam fixas,
como as cores daquela época,
entre a pe…