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Mostrando postagens de Junho, 2007

"Anankê" (trecho)

[...] Sem sonhos.
Como sempre.
Ir embora, ir embora, é tudo que sempre quis.
Apesar das moscas, das muriçocas e do calor, nunca viu lugar pra ter mais borboletas amarelas do que ali...
Elas ficam sobrevoando as flores dos flamboyants.
As borboletas amarelas de Bom Jesus da Lapa.
Todos os flamboyants estão carregados.
De flores, delas.
Na Manoel Novais, antiga Lauro de Freitas, ela pára.
Impossível não parar pra ver os flamboyants florindo o chão de vermelho. Senta no chão colorido.
O calçamento ainda não está quente.
Escreve qualquer bobagem.
A voz dele chegando nítida: há alguma coisa atrás dos seus olhos que eu nunca vi...
Cabeça inchada de tanto espaço vazio.
Vou embora antes do ano novo entrar.
Como é difícil escrever com o ônibus em movimento.
A sensatez que ele deu sopra o ar em seus ouvidos…
Imagem
Mais-que-perfeito

Quantas vezes eu quis que a palavra fosse um choque
terno entre teus lábios e os meus
maiores inferiores quem dera úmidos
dos teus.
Quantas vezes eletrólise
dançar ainda faz bem
ainda um pouco de nós miúdos
um pouco e mais outro
nó.
Quantas quantas vezes
ter é questão de delicadeza de pêlos
uma vez próximos
os teus nos meus
nunca foram tão perfeitos.
Mas
mais que fios e poros tinindo,
não me deixam dormir os membros, os recomeços;
mais que suores, ganidos,
não me deixam dormir os lilases
perfurando as estações.
Nada é nunca tão vazio
se um pouco de voz, um pouco de guerra,
fecham a tarde numa cidade
tão antiga assim.

Por que caras em vez de palavras? Isso simplesmente. Caras tão somente. Uma coisa tão chata que dá nó nos ossos tentar entendê-la. As pessoas, esses focinhos de porcos, essas palavras toscas, os beijinhos no rosto, “aqui em São Paulo é só um, no Rio são dois”, argh!, risinhos de puro cinismo, “eu tenho todos os livros dele editados no exterior, sabe?”, segure o vômito, “passei 20 dias na Itália”, deixa eu passar, seu nordestino imundo, por que não vai dar o cu pra outro, meu anjo?, um murro no meio da venta ainda é pouco, “porque meu tio agora é presidente da câmara, entende?”, tudo isso debaixo de um friiiiiiiiiiiio!, casacos pretos, marrons, xales, sobretudos, que coisa linda essa menina de verde, que coisa besta esse rapaz fazendo pose, quanta canseira, quanto cuspe, “vamos pra Vila Madalena ou pro Bexiga?”, veja: “o viadinho pedante recebe 500 reais do banco pra vir aqui falar mal do banco, pode?”, “ele escreve mal pra cacete mas se orgulha de ganhar dinheiro com roteiro de cinema…