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Mostrando postagens de Fevereiro, 2007

Desconexões

Então saio da cidade como quem quer levar escondido de si mesmo toda a cidade por dentro.
Compactada.
Zipada.
Miudinha.
Abrir minha cidade numa praça florida, parque gigante ou mar sem fim, nas outras cidades onde os pés me levarem. E poder, ao abri-la, fundindo todas as faltas que ela há anos me cravou, ampliar minha pobre minúscula cidade até o infinito. Até romper os limites de barro e feiúra com que ela me fez.


Ouvindo Stones pelo caminho.
Porque um cara bem nascido só pode querer duas coisas da vida: tocar guitarra e amar.
Você foi quem me disse tal asneira.
Mas como amar sentindo que o pulsar mais verdadeiro é a consciência viva de que o podre está infiltrado em tudo, e todos disfarçam-no com perfumes, gestos gentis.
Minha mãe-vidro-eterno-de-alfazema: “pegou o casaco, meu filho?” “Ligue assim que chegar, não se esqueça”.
O motorista do ônibus, lavanda-barata-ou-qualquer-outro-perfume-comum-de-criança: “pode descansar, eu te acordo quando chegar no ponto”.
Sarinha, seca-feito-o-cheiro-de-o…

"Sobre a minha pele navegam barcos" (José Saramago)

Imagem
Não quero a negra desnuda. Não quero o baú do morto. Eu quero o mapa das nuvens E um barco bem vagaroso.
Ai esquinas esquecidas... Ai lampiões de fins de linha... Quem me abana das antigas Janelas de guilhotina?
Que eu vou passando e passando, Como em busca de outros ares... Sempre de barco passando, Cantando os meus quintanares...
No mesmo instante olvidando Tudo o de que te lembrares. (Mário Quintana: Canção de barco e olvido) É urgente o amor. É urgente um barco no mar. É urgente destruir certas palavras, ódio, solidão e crueldade, alguns lamentos, muitas espadas. É urgente inventar alegria, multiplicar os beijos, as searas, é urgente descobrir rosas e rios e manhãs claras. Cai o silêncio nos ombros e a luzimpura, até doer. É urgente o amor, é urgente permanecer. (Eugénio de Andrade)