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Mostrando postagens de Julho, 2008
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Falava de uma água limpa,
que correria lenta pelo solo e acordaria a manhã.
De uma água feito cachoeira
mas mansa,
num deslizar quase estudado pelas pedras,
terra,
pés de gente,
patas de bichos.
Como uma canção antiga vai ficando na cabeça desde a infância,
ressonando.
Quando nem compreendemos ainda
a relação inapreensível entre as palavras e os sons.
Fica e some vez-em-quando,
fica e retorna e dói e alegra e novamente some.
Memória de zigue-zague.
Construção meramente gideana: o pântano das lembranças.
Outra: miséria de vida.
Diria, dizíamos, dir-se-ia: pouco importa esclarecer.
É vago e lento o que desejamos: existir dentro de uma língua.
Enternecer-se.
Por isso, voltar.
Voltar ao início, por certo.
Voltemos.
Falava daquela água que a tudo limpa, que acolhe,
que abandona ribanceiras à frente, que purifica.
Aquela água.
Aquela. (In: São Franciscana)

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[...] O pior de tudo é que não há cheiros e quase se pode sentir Deus. Eu quero andar e não sou movimento. Ágeis são os arbustos, são as nódoas, são as faltas de cheiros, meu corpo não.
Primeiro me dei conta disso – do corpo – que ruía a cada quarto de hora, depois percebi aterrorizado as formigas, rodeando-me como se faz com o alimento. Histérico, nos instantes iniciais ainda achei que reuniria forças onde quer que fosse pra quebrar a inércia, vencer.
Não consegui.
Tua mão veio viva afastando os insetos de mim. Limpou um resto mínimo de sangue, pôs rosas e perfume e me vestiu com um manto de cetim claro.
Ri, grato a ti por tanta generosidade, saiba que estarei sempre, e achei teu pranto extremamente belo caindo em meu rosto morto. Devia ser quente a tua dor e fazia a das outras pessoas indiferente, nula. A milímetros de mim, você arfava em desespero. Não te senti como antes, minha faculdade consistiu no verbo ver, segunda conjugação, trans…
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Uma coisa bonita de se ver é o olho do nada, às 4:00 da manhã. Em geral, ele aponta que é véspera de tudo e de coisa alguma. Por vezes, trata-se tão somente de estar centrado no jogo perverso das imagens: a escassez do olho do nada, com sua brancura violeta, nos trazendo em cheio para o chamado "qualquer coisa da vida". É possível mesmo renascer ou trata-se apenas de uma frágil brincadeira entre as cores do novo dia e a velha vontade tão humana de "acontecer"?