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Mostrando postagens de Agosto, 2010
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Uma das decepções mais cretinas da vida é, sem dúvidas, a decepção de esperar durante uma semana, até mais, por um livro, recebê-lo das mãos do carteiro como quem recebe um bebê de poucos dias, ser tragado por toda aquela atmosfera grave, quase diáfana, que é ter em mãos um novo livro, e, quando chegada a hora de adentrar nesse universo novo, descobrimos que o livro é fraco, nada tem a nos dizer. Nos decepcionarmos com um livro é muito, muito chato. Ratos de sebos reais há anos, depois da Internet, viramos ratos de sebos virtuais também, e hoje o paraíso ou ponto de encontro sagrado dos ratos de sebo é, sem dúvidas, a Estante Virtual. Falamos aqui tão somente de leitores, pessoas que compram livros para ler, não queremos saber de colecionadores, tampouco de exibicionistas, mas, repetimos, leitores, essa corja que adora sofrer. Pois é! Por sermos leitores, nada mais que leitores, descobrimos que podemos comprar no mesmo lugar tanto livros maravilhosos quanto funcionais, podemos reaver …
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Mas lutamos, lutamos todos os dias quando abrimos as janelas pela manhã e cerramos as cortinas imediatamente após às 17:30, só pra não ver o rápido acender de luzes deste bairro, desta rua. Se esta rua, se esta rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhar, com pedrinhas com pedrinhas de brilhantes, para o meu, para o meu amor passar. Lutamos o tempo que nos vem e muito nos cabe ou sobra ou falta, lutamos o mais que podemos, perdendo fios de cabelo, cortando unhas, suando, a cada dia, a cada minuto. Não queremos ser reles, não queremos ser banais. É um esforço indecente, sabemos. Mas não choramos nem nos descabelamos. Nosso segredo, foi Macalé quem disse, é que somos rapazes esforçados... Entretanto, a qualquer momento, podemos morrer exatamente assim: na passagem de um gesto a outro. De graça, sem razão. Sabemos, desconfiamos o quanto se pode reter a vida, estreita, estranha, dentro de nós. Reparamos: as árvores já não estão tão secas, o tempo já não esfria tanto quanto ontem. É…
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A velhice, dizem, assim como o amor que amadureceu, perdeu o frio na barriga e a tensão da incompletude, nos leva a uma espécie de resignação que pra alguns é paz, pra outros é decrepitude. Todavia, envelhecer continua sendo um processo complexo, que ultrapassa a questão da idade e pode ser reiventado pelos próprios atores que o protagonizam. No melhor filme dessa estação, "Hanami - cerejeiras em flor", a decrepitude está nos mais jovens, filhos do casal de idosos Trudi e Rudi. Enquanto seus pais conseguem, cada um a seu tempo, se reencantarem com a vida e consigo mesmos, seus filhos são representados como frios, distantes, sem tempo, impacientes, cruéis, mortalmente chatos. Esse rencantar com o mundo, com o outro, com as miudezas da vida, está nos mais velhos, especificamente no casal protagonista, e constitui a beleza do filme. O ponto de partida da história está na notícia que Trudi recebe: o marido, Rudi, tem poucos dias de vida, talvez mais alguns meses, dizem os médico…
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[...] Não lhe digo nada. Não atendo sua ligação. O zumbido se junta a milhares de chamados perdidos na capital. A essa hora, tão cedo, ela pensa: ele deve ter saído com alguém. Depois, me lê em silêncio. Ouve alguma música que eu lhe mandei. Ela está no tapete da sala, deitada. Eu, na escuridão, sem nuvens, sem estrelas, só imensidade de luzes e mormaço, vejo-a.
Penso em salvá-la de alguma forma, indo a seu encontro. A solidão dela é um círculo de fogo, mesmo que eu queira, jamais conseguirei ultrapassá-lo. Sinto apenas. As ardências. Ela diz que dói. Ela costuma dizer, às vezes, sozinha, pra casa, pro bairro velho onde mora, pro mar, pra ninguém, que dói. E nesse instante ela nem sequer chora.
Dói.
Pesado. Mais pesado que essa maldita história que nos consome. Dói, ela diz. Sozinha. Sem lágrimas, sem mão comprimindo o peito.
Todavia, não, não acabará assim. É a minha vez de buscá-la pelo telefone, ligar feito um louco pra sua casa, pro celular, mesmo sabendo que ela desligou …

Editora Casarão do Verbo

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Quem for à Bienal de São Paulo, não deixe de conferir o stand da Editora Casarão do Verbo, de Rosel Soares. Trata-se de uma pequena-grande editora baiana que aposta no bom gosto e na qualidade de suas publicações. Em outubro, a editora Casarão do Verbo lançará meu romance Primavera nos ossos, que ganhou o Edital Petrobras para Criação Literária. Dentre os livros já lançados pela Casarão, destaco a antologia Travessias Singulares, contos que versam sobre a relação entre pais e filhos, entre os autores estão Miguel Sanches Neto, Nelson de Oliveira, Silviano Santiago, Hélio Pólvora, Carlos Heitor Cony, e meu amado João Filho. É uma bela antologia.
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Se você soubesse o tanto de reajustes entre o acordar e o prosseguir... ah, se soubesse! O dia é vazio, as possibilidades minúsculas, mas se vai tentando, há tanto, vai-se tentando transformá-las em gigantes. Voltar ao luxo de estar no centro de si mesmo, não à deriva. Baixa temperatura. Suor saindo fácil sob a pressão do algodão molhado. Pensar na morte não ajuda, na vida muito menos. Vai ficando tarde por dentro. A escuridão faz traça, qualquer pensamento é inutilidade correndo nos fios dos postes. Ou no ralo da pia. Ou no barulhinho das plantas. Beber demais ora ajuda, ora não. Mas há um costume estranho, pegou-se por aí: encher lenços de éter e aspirar até à exaustão. Outro: pingar mercúrio num pedaço de espelho. Fragmentos de prata com escarlate. Ignorar as dores alheias que por ventura empestam o ar do mundo. Que mundo?
Em alguns momentos, você sabe, podemos ser tocados pela sombra das árvores. Resto de felicidade mofada que por acaso o peito escondeu. Fumar sempre dua…
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—Você sabia que Hemingway era gay, porém, não dava o cu porque tinha hemorroidas?
— Cada maluquice que você me inventa!
— É sério. Eu soube disso num congresso aí.
— Mentira sua.
— É verdade, eu juro... Ouvi numa palestra, na USP.
— Não sabe nem mentir! Uma hora é um congresso, depois uma palestra na USP. O que você foi fazer na USP?
— Eu viajo muito, meu caro...
— Sei, e nessas viagens vai à USP descobrir que Hemingway é viado e tinha hemorroidas?
— E daí? Não sei por que você está rindo desse jeito. Não tem nada de mais. Pode-se descobrir qualquer coisa em qualquer lugar, é um sinal dos novos tempos. A USP é um centro de pesquisa, ora! Podemos descobrir mil coisas lá.
— Inventa outra.
— Criatura! É verdade. Hemingway era viado.
— Não, não era.
— Estou lhe dizendo, ele era enrustido, os professores disseram.
— Pois estavam mentindo.
— Mas eram professores universitários, mestres, doutores...
— Mentirosos, que nem você.
— Eu nunca minto... Que injustiça.
— Afinal, quando você …