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Mostrando postagens de 2016

Série: a difícil-incrível arte de viver - parte III

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PRATICANDO O ADEUS

1. Descobrir, dia após dia, que tudo aquilo que foi construído na terra do oba-oba, do mero coleguismo, da superfície dos afetos fáceis não finca raízes. Amigos de sala de aula (quando você ainda se graduava), amigos circunstanciais, amigos de afinidades culturais, amigos de enganos ideológicos onde você já não perambula.

2. Mais: descobrir que você andou a chamar de amigo pessoas que apenas gostam de livros, discos, quadros e filmes dos quais você também gosta. É perigoso entender o erro posto nisso. Mas, sim, você deve estar disposta a perceber o certo mesmo quando esse te leva ao perigo.

3. Descobrir quem sobrevive e quem se esfarela sob a máxima aristotélica: amigo é aquele com quem se tem afinidades profundas. Esses, graças a Deus, existem e são poucos e você os tem com rosto, nome e verdades na eternidade dos dedos de uma só mão. Não é desses que você ora fala, não é para esses que você está aprendendo a dar adeus.

4. Aqueles outros que pareciam tão importan…

Série: a difícil-incrível arte de viver - parte II

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DO QUE FICA NAS VIAGENS

1. Duas horas andando na noite lusitana pra se perceber: Salvador e Ouro Preto me estragaram as vistas, pois todo pedaço de Lisboa me lembra algum lugar onde já estive. Lisboa, no entanto, é mais limpa. Tudo é velho e tudo funciona muito bem (estranho axioma para uma brasileira). Mesmo diante da sensação de que virando a próxima esquina vamos sair no Santo Antônio soteropolitano, andamos sem cessar. Pense que é possível andar na Baixa dos Sapateiros às 23h. Sendo esta Baixa limpa e organizada. Pense que nela há - em vez de comércio fechado, lixo nas calçadas e pessoas te ameaçando - um vento de outono, sangrias vistosas em jarros transparentes, burburinho de palavras cujo significado te escapam e restaurantes com cadeiras na porta. É quase isso.



2. O café da manhã no Borges Chiado não é nem de longe o maravilhoso café a que estamos acostumados nos hotéis do Brasil. Há três ou quatro tipos de frutas, todas inteiras e com casca, dois tipos de iogurte, pães estu…

Série: a difícil-incrível arte de viver: parte I

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DIZENDO SONOROS E REDONDOS "NÃOS"

1. Há pessoas que querem que você acredite que uma "aberração democrática" é melhor do que um idiota financiado pela fé de grupos cristãos. Essas pessoas se consideram inteligentes, juram que conhecem a verdade, sabem o que é certo não só para si mesmas, mas para a capital mais linda do País.

2. Por causa da crença nessa sabedoria-própria, passam meses fazendo "memes" e lançando frases ora maldosas, ora catastróficas nas redes sociais. Elas querem disseminar o pânico numa classe média-ideal, a que elas pertencem, mas, esquizofrenicamente, acham que não. Tudo vale, a fim de impedir que o pastor babaca vença o bandidinho vermelho. Nessa "causa carioca", elas têm, sim, e muito, o apoio em peso da mídia, mas fingem que não.

3. Aí o mundo gira, porque lhe é próprio girar, e acordamos numa segunda-feira belíssima, quando as amendoeiras e os passarinhos mais nos comunicam a primavera. A luz da vida é tão cristalina …

Aperitivo

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[...] Eros voltou a ser simpático: explicou, brevemente, que veio atendê-los em função de as correntes de orações deles estarem cada vez mais fortes e sistemáticas. O certo seria um dos guardiões vir, ponderou, mas, por razões adversas, que não poderiam ser mencionadas naquele instante, foi solicitado a ele que viesse.
— Você não é um guardião? — perguntou Ramiro, meio decepcionado.
— Não — respondeu Eros. — Ainda não sou.
— Quem é você, afinal? — questionou Maria Madalena, impaciente.
— Um leitor — afirmou Eros. — Um leitor profundamente agradecido pelos ensinamentos do Livro-Real, embora metade deles ainda esteja sendo digerida por mim.

Bastou mencionar sua condição de leitor do livro tão almejado, pros quatro amigos mudarem completamente de atitude. Entreolham-se, maravilhados. Ah, então, é leitor do Livro-Real!, disse Ramiro, levitando de satisfação. Alguém ouviu as preces do grupo e o mandou ao encontro deles, pensou Gustavo. Os quatro se desdobraram em perguntas. Gus-tavo quer…

CANCELADO!

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Pessoas queridas:

aviso que o lançamento do meu romance "Não se vai sozinho ao paraíso", marcado para dia 05/07, foi CANCELADO, pela Editora.
Quem tiver interesse pode adquirir o livro no site da editora (que o enviará a partir de 06/07):

http://www.mondrongo.com.br/index2.php?pg=noticia&id=108

Se preferir pessoalmente, o livro estará disponível no evento FLICA NA CAIXA, na Caixa Cultural, dia 09/07. Estarei na mesa Resistência na Literatura, com participação de Edney Silvestre, e mediação de Malu Fontes.

O livro também será vendido após dia 10/07, na LDM e Livraria Boto (Barra).

Peço desculpas e agradeço a divulgação e carinho de todos vocês!

Mudança de data do lançamento: agora é 05 de julho de 2016!

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Não se vai sozinho ao paraíso (romance)

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O homem sem qualidade

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1. Nas minhas andanças pelo cinema inverossímil da vida, assisti, perplexa, a um diálogo entre duas irmãs, enquanto esperava minha vez de fazer as unhas, num salão. Nunca me esqueci desse diálogo e posso reconhecer suas protagonistas em qualquer lugar, por mais distante que esteja, hoje, da cena. Foi algo muito singular, mas quem conhece Salvador não vai se surpreender. Era um salão popular, e eu me recordo que ainda morava num quarto e sala, no Canela. Anotei esse diálogo, bem como seu contexto, em meu diário, assim que cheguei em casa, ansiosa por não perder nenhuma parte da experiência — plena de absurdos e falas tão espontâneas que logo pensei: darão um ótimo conto.

2. Não deram. De lá pra cá, tentei fazer literatura com esse diálogo uma meia dúzia de vezes. O resultado era bestinha, despido de qualquer traço da ironia deliciosamente esquisita que ouvi no salão. Revoltada com as leis da escrita — por vezes inegociáveis, quando não sádicas —, fiz aquilo que nossas avós costumavam…

Bom domingo

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1. O mar de Salvador é egoísta, lindo azul-cinzento às 7h, não quer saber de guerras, se lixa pra conflitos, não tá nem aí pros que acordaram neste 17 de abril com ânsia, esperança ou medo;

2. Idem o sol, cujo namoro com as ondas do mar chega a ser indecente: se lambem, se fundem, tingindo o mundo de prata brilhante, tão cedo;

3. Esse café espresso com espuma de leite também é deveras egoísta; idem os morangos sangrentos, em círculos em cima do bolo, esperando por degustação;

4. A serenidade da vida tão quieta mas intensamente verde-alaranjada nessas folhas que as amendoeiras dispensam pelas ruas de Salvador, como se estivéssemos vivendo um simples outono e não um caos coletivo;

5. É impressionante o grau de violência contido na alegria da menina de 4, 5 anos, toda molhada de mar, que segura mão do pai à minha frente. Ambos estão voltando de um mergulho no Porto da Barra, e ela diz que está com frio, debaixo do sol das 7h30, enquanto o pai ri, compreensivo, parando a caminhada pra v…

Certas coisas que aprendi com João Filho...

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Há dez anos, o poeta João Filho decidiu morar comigo. Era abril de 2006, e Salvador se desmanchava em chuvas, no seu outono geralmente abafado e molhado, que nem mesmo os passarinhos sabem que é outono. Para concretizar tal decisão, ele rompeu um casamento de quase sete anos. Nunca entendi direito porque desarrumou sua vida tão bruscamente, uma vez que só tínhamos, à época, cerca de vinte dias de namoro. Namoro escondido, diga-se de passagem, já que ele era oficialmente casado. No momento em que me disse me separo pra ficar contigo, senti que ele apostava cegamente em nós, e tratei de fazer o mesmo: apostar, de qualquer maneira, sem mais delongas e a perder de vista, em nós dois. De lá pra cá, aprendo coisas que, muitas vezes, só meses depois percebo que aprendi. Sutilmente, como é próprio dos poetas, as coisas dele vão entranhando em mim e só tempos depois percebo que, naturalmente, as absorvi e que não mais pretendo abrir mão delas. Muitas coisas não posso dizer, pois há limites en…

Caros petistas — eternos, declarados, beneficiados, insanos, sinceros, isentos e afins

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A postura abusiva de vocês já ultrapassou todos os limites do bom senso. Por isso, peço-lhes, humildemente, que atentem para algumas regras que são imprescindíveis à humanidade, independentemente de quem tem o sangue "verde-amarelo" ou "vermelho". São elas:

1. Vocês não inventaram a história, tampouco a verdade, assim como não saiu da cabecinha de vocês a noção de interpretação e perspectiva. Vocês podem, evidentemente, aproveitar as ideias foucaultianas de micro-história, micropoder e, citando Pesavento aqui e ali, trazer à tona tudo aquilo que vocês considerarem excluído dos "discursos oficiais", tudo aquilo que pode ser relacionado às histórias de vencidos e minorias. Mas isso não os transforma automaticamente em donos dessas histórias nem dessas classes, gêneros e etnias. Façam o que fizerem, usem a teoria que for, vocês continuarão sendo, na melhor das hipóteses, um pesquisador como outro qualquer. Pior: o que vocês produzem é passível de interpre…