Resenha sobre "Chuva Secreta", Jornal Rascunho, abril de 2014



A metáfora da chuva

A linguagem é a mais forte marca da prosa de Állex Leilla, com uma precisão milimétrica no uso de cada expressão

Desde o realismo social de Dalcídio Jurandir em Chove nos campos de Cachoeira até o surrealismo alegórico de Campos de Carvalho em A chuva imóvel, o fenômeno natural sempre nos aparece como sinônimo, ou melhor, metáfora de opressão. O tempo sem sol, o céu pesado, a chuva longa surgem bonitos e esperançosos em Graciliano Ramos, no capítulo Inverno de Vidas secas, em que o som de trovões vindo do rio e o cantar dos sapos acalentam os personagem. No entanto, mesmo aí, há uma mancha de mágoa. Fabiano movido pela alegria da invernia até ensaia contar uma história enquanto Sinhá Vitória, precavida, cuida dos filhos sabendo que a bonança tem dono, e não são eles.

Enfim tudo termina por se voltar ao parágrafo final do romance de Campos de Carvalho numa espécie de sentença fatal do destino: “Mesmo morto continuarei dando meu testemunho de morto. Esta chuva imóvel serei eu que estarei cuspindo”.

Todas estas metáforas pluviosas espalham-se pelos nove contos de Chuva secreta, novo livro de Állex Leilla. No entanto, aviso aos navegantes, não adianta buscá-las desesperadamente. Tudo na prosa desta baiana é sutil, se reveste de uma seda fina, vai se dizendo, se revelando aos poucos, com parcimônia e no final surpreende, esmurra o leitor. Lembra Julio Cortázar e sua visão de literatura. Para o argentino, escrever era lutar boxe. No romance se vence o leitor por pontos; no conto, por nocaute. Aliás, Cortázar é o escritor que fascina as personagens apaixonadas do conto Conexo. Sob uma fina chuva nas serras mineiras, duas mulheres vivem um amor molhado e doce.

Abrir languidamente as portas de nossos mundos, aderindo-nos às novas substâncias — ácidas, alcalinas, apimentadas, amargas — e delas absorver cores, cheiros, sabores.


Állex nos nocauteia em cada novo round, ou melhor, conto. A própria expressão “chuva secreta” somente surge no texto final, Epiceno, já algo em si ambíguo.

Parto, mas deixarei programado um vento amanhecido e uma chuva secreta, porque brilhante e inconcebível.

E assim segue o texto que conta de um amor possessivo, idílico, onde a delicadeza às vezes perde as amarras, deságua na brutalidade e se envolve em linguagem, um mecanismo eficiente para superar misérias e desesperanças.
E a linguagem é a mais forte marca da escritora. Há algo de poético, sim, mas, sobretudo, existe uma precisão milimétrica no uso de cada expressão. Há muita suavidade, mesmo quando descreve as mais intensas tragédias humanas. Os filhos que simplesmente tiram todos os bens da mãe, escudados num estranho senso de justiça. Uma delicadeza até quando sente a necessidade de jogar com palavrões:

E no cuzinho não vai nada?, ironizaria você, se aqui estivesse/ chegasse de repente/ instantâneo/ mágico com aquele teu cheiro espinhento de barba malfeita.


O amor, a falta dele e as relações humanas são os temas de eleição da escritora. Todas as formas de amar são trabalhadas em todas as suas intensidades, não falta nada, sequer as inseguranças e os desesperos trazidos pelo inevitável encontro das pessoas. Do filho penalizado e carregado pela culpa das desgraças da mãe, ao poeta marginal morto de paixão pelo pintor cego, os personagens estão sempre na delicada corda bamba de se envolverem com seus quase opostos, e aí tudo segue ao sabor da inventividade da autora. Ora facilita a vida de seus viventes, dando-lhes felicidades possíveis, ou não, simplesmente os joga em abismos profundíssimos. Mas assim é mesmo a vida, e é nela que Állex Leilla busca seu fôlego.

Este realismo contemporâneo termina por criar personagens também plausíveis, embora naturalmente contraditórios. Sem perder pontos de delicadeza, essa gente se marca por torturas, separações e mortes. Aliás, há nestes contos certo fascínio pela morte. Não que se banhem de tragédias, apenas vai dando espaços para todas as partes fundamentais da vida e aí a morte surge como acontecimento natural, mesmo quando não se abre mão de toda carga de dor e impotência que ela lega a quem sobrevive.
Uma curiosidade sobre a ambientação dos textos. Ela, a ambientação, praticamente não se repete e cada conto se passa num espaço próprio. Maceió, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, os personagens vagueiam por quase todo o país. Naturalmente que a escritora não teve a intenção, mas terminou por brincar com um dos mais chatos e inócuos debates da atualidade, aquele que tenta insistentemente fundamentar uma espécie de neorregionalismo. A rigor nunca houve de fato uma literatura regional, mas literaturas que se ocuparam de espaços, localidades onde o homem se movimenta respeitando ou rompendo com as particularidades do ambiente. E tal fato, antes de ser característica de uma região, é uma condicionante da natureza humana.

Enfim, Állex Leilla é uma escritora que rompe com amarras teóricas infundadas para criar uma obra própria, forte e marcante. Isso faz dela, não somente uma das maiores vozes de sua época, mas indiscutivelmente uma das mais seguras e conscientes escritoras da literatura brasileira.

MAURÍCIO MELO JÚNIOR

O autor
ÁLLEX LEILLA


Nasceu em 1971, em Bom Jesus da Lapa (BA). Publicou Urbanos (contos, 1997), Obscuros (contos, 1999), Henrique (romance, 2001), O sol que a chuva apagou (novela, 2009) e Primavera nos ossos (romance, 2010). Em 2010, venceu o concurso de contos Luiz Vilela e foi selecionada para a antologia alemã Wir Sir Bereit.

TRECHO
O ser humano não se repete. Somos banais e desimportantes, ainda que cada um se considere, em segredo, portador de uma misteriosa missão, protagonista de um destino ímpar. Não é verdade. Nossa trivialidade é inata. Contudo, por baixo da ordinariedade, somos, paradoxalmente, irrepetíveis, cada qual um molde perdido, cada qual um calo específico, doendo na infinitude.



Casarão do Verbo
158 págs.

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