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Mostrando postagens de Outubro, 2007
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Uma calçada

Vim pensando nisto: felicidade demais quando não mata, aleija.
Olha as flores como ficaram tortas, olha as flores, meu amor.
Os beijos açucarados, a carne mole.
Ou nem isso.
Andar faz mal à mente.
Penso: um céu de cinza tenso, entre prata e marinho e nuvens ciganas de um lado pro outro, entretendo-nos com suas danças. Penso: pimentas. Amarelas, verdes, vermelhas. Espremidas em azeite dentro das garrafas reluzindo na beira da estrada.
Onde?
Quando?
Que nada!
Tudo mentira.
Penso é no teu sexo.
Brinco que penso em nada sério. Disfarço. Sento na calçada da casa.
Aquela-essa-esta casa antiga da Vitória.
Bebo tua saliva morna de boca ainda agora mesmo acordada. Fecho os olhos durante o beijo para ver se penso menos, des-penso o pensamento de hoje-sempre, mas não tem jeito, percebo: penso no teu sexo de novo. Mesmo te sabendo puro sono, eu: dor de cabeça leve na fronte.

Outras Moradas, antologia de contos do Banco Capital, com Állex Leilla, Adelice Souza, Marcus Vinícius Rodrigues, Aleilton Fonseca e Renata Belmonte

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Lançamento de Outras Moradas
TRECHOS DO LIVRO A casa temperada de sol

Állex Leilla

As coisas não são sentidas nem ditas por mero acaso. Os rumores de que ela estava indisposta porque lia um livro de Camus saltavam pelos cantos do hospital. Pairavam até na boca do arquivista que dissera na tarde anterior só ter lido uma biografia sobre o grande gênio francês. Falou assim um tanto empolado: grande gênio francês, com aquele tom desagradável, irônico, dos que acham todas essas coisas – leitura, afetação, sensibilidade – risíveis, apenas risíveis e, por isso mesmo, dispensáveis.
Isabel, ele pensou em definir de uma vez aquela história, você já está passando da hora de morrer.
Podia?
Estremeceu, balançando os ombros.
Veja bem: ser homem não é fácil, meus caros, não é nada fácil, vá entender.
No refeitório, podia-se ouvir, entre um comentário e outro dos médicos, preocupados com detalhes técnicos de cirurgias, atendimento, prazos, medicação, um e…
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[...] O pior de tudo é que não há cheiros e quase se pode sentir Deus. Eu quero andar e não sou movimento. Ágeis são os arbustos, são as nódoas, são as faltas de cheiros, meu corpo não. Primeiro me dei conta disso – do corpo – que ruía a cada quarto de hora, depois percebi aterrorizado as formigas, rodeando-me como se faz com o alimento. Histérico, nos instantes iniciais ainda achei que reuniria forças onde quer que fosse pra quebrar a inércia, vencer.
Não consegui.
Tua mão veio viva afastando os insetos de mim. Limpou um resto mínimo de sangue, pôs rosas e perfume e me vestiu com um manto de cetim claro.
Ri, grato a ti por tanta generosidade, saiba que estarei sempre, e achei teu pranto extremamente belo caindo em meu rosto morto. Devia ser quente a tua dor e fazia a das outras pessoas indiferente, nula. A milímetros de mim, você arfava em desespero. Não te senti como antes, minha faculdade consistiu no verbo ver, segunda conjugação, transitivo direto. Não lembro mais...
Vi você me guard…