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Mostrando postagens de 2005
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Voltar. Mar de sempre. Depois de todo o enfado, tanta coisa inútil, anotar, rasgar, jogar fora da memória. Qualquer coisa. Anything: Animals. Back to the old house: Morrissey. A chuva, guarda-chuva: Ana Cesar. O prata do esmalte nas unhas. Não diga nada: Drummond. Na noite não há cérebro, só redes. Cortinas de seda vigiam o tempo. Somos tudo o que pudemos e o que não.
Feliz 2006.

A paisagem da minha janela

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Atualmente, o que vejo são menos de três pedacinhos de mar. Lá longe, no Rio Vermelho. Que se fundem ao céu e ficam indivisíveis quando o céu está muito azulzíssimo, como neste dia da foto. Prédios, vários, é claro, moro no décimo quanto andar. Olhando pra baixo, se vê também uma invasão, no fim de linha do Garcia. Invasão é aquilo que os cariocas chamam de favela. Ou quase. Moro, atualmente, no Canela, bairro central de Salvador. Mas não há barulhos. Graças a Deus. É tudo quieto na minha janela. Cortázar dizia que existiam horas que era preciso atirar tudo pela janela e nós também com elas. A primeira vez que li achei que haviam passado mal do espanhol pra o português. Pensei: tá ruim. Mas não. Está certo assim mesmo, hoje vejo, e quando mais se aproxima o fim do ano, mais certeza tenho: é preciso jogarmos tudo pela janela e nós juntos com elas. Principalmente quando vier aquela vontade de fazer balanço tão própria do fim do ano. E ainda tem coisa pior que o balanço: as listas. Os mel…

Mais poemas

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M.o.r.t.e.
I

O amor que não tive tranca as asas pela casa,
asas mortas na sede de vôos que jamais virão.
Chamava-se água-da-vida
- não sei se você se interessa, lembra, sabe -,
chamava-se água-da-vida a cachaça que sufocou o Fernando.
Perceba que longe, tão longe,
alguém se desespera,
rasgando a noite
com pedidos de socorro.
Não se aflija: não sou eu, não é ninguém.
O dia foi quieto, dentro e fora da pele,
o suor dos amores passados extirpado
na espuma do sabão.
Idade morta, mundo parado,
quase não sinto a hemorragia cristalina dessa droga
avançando pela garganta
peito, umbigo, ventre,
disfarçada com sal-&-limão,
arde tão plena,
devastando-me o corpo
que o amor não tocará. ********************************************************************* Lembrete ao Ivã Coelho que me chama de "sem coragem" pra publicar meus poemas. Primeiro: não é uma questão de coragem, publicar é sorte pura, escapa-nos, porque precisa da vontade alheia (editoras) mais do que da nossa; segundo: está no forno da Bahia, patr…
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Violinos

Queria que você me enxergasse agora, envidraçando Salvador.

Pondo as palavras em sacos plásticos,
coisinhas murchas, fios de cabelo, outonos fechados,
aglutinados, sofrendo, orando.

Luzes entrando assim quando não é tarde nem primavera.

A inocência nos ladrilhos,
entre sete portas: você sóbrio e soberano
enquanto dança em mim a mesma dor.

Cidades bailarinas, de noite: bailarinas,
mas nada hoje é muito sábio.

Solidão é tua palavra chave?
I dunno... mas os violinos partem rasgando, rasgando.

O balé da cidade, os destroços que ela pare
e me manda na madrugada, juntos ao ar.
Mesmo colocando em sacos plásticos, mesmo envidraçado,
muito pouco de nós adianta.

Erguendo pernas e braços, acho que te enlaço,
mas não sei se passas de imagem,
coisa linda que se vê na vidraça
e se se toca e ouve é feito lágrima
de violinos que retornam machucando
e ontem tão distantes pouco impressionavam.

Para Renato Pedrekal Jr.

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Cores, amores, amores, cores. Suaves. Densas. Densos. No porão. Há uma fresta. Por ela, a Vida. A Vida nem sempre chega aos bocados. 'Inda mais quando se está num porão.

Hoje aprendi a escrever de forma correta o nome de quem inventou definitivamente o vermelho, o branco e o azul: K-r-y-s-t-o-f-f K-y-e-s-l-o-v-s-k-y.

Engraçado, eu pensei que fosse com "i" e não "y".

Repare como isso é importante: praticamente ele inventou duas das três cores primárias que existem no planeta.

Leva-se anos pra entender isso. É verdade, eu sei. A Vida nem sempre chega aos bocados. Os discos já não giram, corroídos pelo tempo. Para ouví-los, acendo na tomada a memória.

Você já ouviu o novo disco do Neil Young?
Não. Mas deve estar bom de doer.

De tomada acesa, hoje, sem crise, reparo que não chove nem tem arco-íris.
Te digo com carinho: não é apenas uma rima, mas a seqüência lógica de um pensar viciado. Uma fresta é o suficiente. Crianças adoram frestas.

Exato.

E como elas, eu também adorari…

"Henrique"

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Desgraçado!, volte logo de Munique.
Por favor...
Eu tinha um tesão miserável por ele, quando gozávamos sempre jogava isso em seu ouvido. Louco, louco. Quase sem voz.
Escrevi-lhe. Dei muitas notícias. Que teve eleição pra governador no Rio – teve em todo território verde-amarelo-anil, mas só interessava falar dos nossos próprios narizes –, por protesto, não fui votar e estava me lixando pras multas folclóricas, grande merda é um país que obriga as pessoas a votarem, né, Vic? Falei sobre a duplicação das estradas: só engodo do governo federal, nunca se resolvia muita coisa e os acidentes se multiplicavam; sobre nossos amigos também. Que o Eros me visitava constantemente, que Ronaldo casou com o Décio, fizeram uma festa com cerimônia e tudo. Teve um bolo imenso, cheio de nozes e chocolate em pedaços. Superbacana. Você ia gostar de ter ido, bebemos até de manhã. O Ronaldo de branco e lilás. O Décio de amarelo clarinho. O Tavinho estava também, numa cadeira…

Henrique & o Incesto

Correio da Bahia

Mais críticas

Orelha

A orelha de "Henrique" - que muito me orgulha - foi feita por André Seffrin e republicada depois na Revista Online Bestiário.

Henrique, romance, Salvador: Ed. Domínio Públicco, 2001, 215p.

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Seu olhar, seu movimento.
Simulacros pela casa.
Cama, pasta de dentes, toalhas úmidas.
O gel pós-barba dele é a base de extrato de ginseng, está escrito que revigora as fibras elásticas da pele, que protege o rosto contra a poluição.
Está em quase toda a casa, principalmente nos colarinhos das minhas camisas, a fragrância de ervas suaves, de mato tocado por longas chuvas. Nas camisas sem colarinho também está.
Em tudo em que ele encosta o rosto.
O cheiro dele.
Só o meu cigarro dissipa.
Não queria que dissipasse.
Ele desenha uma borboleta com as cinzas dos meus cigarros.
Desenha na mesa onde tomamos café.
No vidro da mesa. Afastando a toalha de flores brancas e marrons.
Bate as pálpebras quando diz que as borboletas, Rique, sempre me lembram você.
Muito obrigado, eu digo.
Assim acabo acreditando em provas de amor.
Pondo uma música. Convidando você pra dançar.
Em meu ouvido …

Para passar o domingo

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Lista de coisas pra ajudar na relação cármica com o domingo:a) andar sem rumo por ruas onde você nunca vai; b) ler livros de poesia; c) arrumar guarda-roupa, estante, gavetas etc.,d) gravar um cd com suas músicas preferidas (depois você dá a um amigo-vítima) e) comer frutas o dia todo (por exemplo: salada de frutas gelada com mel)f) ler um conto do Julio Cortázar;g) assistir àquele filme que você ama de paixão, no vídeo ou DVD;h) escrever cartas a amigos distantes (email não vale!);i) tomar café com licor de chocolate.

Obscuros, Salvador: Ed. Oiti, 2000, 117p.

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OUTROS ELEFANTES

Sob o céu frio e cinza/ um impasse e poucas opções/ não há rosas no jardim/ e há tempos não se ouvem os rouxinóis/ se eu soubesse amar, eu cravaria/um espinho ao meu pobre coração/ vermelha então seria a rosa/ e entre as outras brilharia como o sol... (O rouxinol e a rosa: Herbert Vianna)

Quando você trouxe aquele pedaço de papel com a letra minguada dele, escrito duas horas antes do suicídio, eu estava, se não me engano, com uma taça de champanhe na mão. Se não estava bem, pelo menos eu tentava esquecer.
Não ele, que eu jamais esqueço. Mas a dor de sabê-lo morto antes de mim.
Sentada na beira da plataforma, olhando Itaparica de luzes acesas do outro lado, eu não via o vermelho das janelas, das portas, nem a vida azul-marinho do MAM e do Solar. Estava me fodendo pra tudo à minha volta. Era assim que estava, como você, aliás, já deve estar farto de saber.
O mundo baiano de exposições cretinas, quatro salas sem sequer um quadr…

Quando eu morrer que não me enterrem...

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Quando eu morrer, não me enterrem aqui. Em Bom Jesus da Lapa. Por favor. Tenho rinite alérgica. Vou ter problema de pele, com certeza. O sol racha a terra, invade a cova - aqui nem tem crematório!, é barro na cara mesmo - e nos cozinha tudo, por dentro, por fora. Depois de mortos, ainda temos o que proteger. Se é que me entende... Provavelmente, não. Com essa mentalidade de jeca que você tem: ah, não acredito na vida após a morte, Deus não existe, o ser humano é todo perecível e blábláblá, todas essas frases óbvias do Almanaque Completo Da Razão Ocidental. Ô bestage!, meu Deus. Grande merda é sua crença, seu pensar inútil, sua visão rasteira que você gosta de dizer "cética" pra criar clima em torno de ti. Vanitas Vanitatis. Todavia, não se ofenda. Foste o único que amei. Tá vendo como ainda uso a segunda do singular? O único. No universo inteiro de 306 homens, entre meninos, rapazes, coroas e gays. Me proteja, amore mio. Me proteja depois.
Trecho do romance "Longe tão lo…

E já que falei em Ana Cristina Cesar, my mother...

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... falo agora de my father, Caio Fernando Abreu. O link é pra um ensaio teórico, extraído de um capítulo da minha dissertação de mestrado (Letras-UFBA), sobre a loucura e a homossexualidade nos contos de Caio Fernando Abreu.

Sem dúvida alguma, Caio é o texto literário que mais me captura, entre todos os textos que nos estendem a rede e nos quais nos enredamos, ao longo da vida.

Só quem já teve um dragão em casa pode saber como essa casa parece deserta depois que ele parte. Dunas, geleiras, estepes. Nunca mais reflexos esverdeados pelos cantos, nem perfume de ervas pelo ar, nunca mais fumaças coloridas ou formas como serpentes espreitando pelas frestas de portas entreabertas. Mais triste: nunca mais nenhuma vontade de ser feliz dentro da gente, mesmo que essa felicidade nos deixe com o coração disparado, mãos úmidas, olhos brilhantes e aquela fome incapaz de engolir qualquer coisa.
(Caio Fernando Abreu: Os dragões não conhecem o paraíso)

Conheci a literatura de Caio em 91, quando morav…

Infância: Ana Cristina Cesar

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Estamos de volta aos
dias moribundos de ca-
lor e outono
onde as folhas gordas
viram e suspiram no si-
lêncio amarelado
onde vimos pela pri-
meira vez o brilho novo
do céu

estamos de volta
atrás de nós as ondas
da memória cercam nos-
sos gestos
o nascimento da tarde
é maior que as limita-
ções sem tempo

estamos de volta e pe-
quenos e sozinhos,
olhos, dores e sonhos
abertos diante do dia

estamos de volta ao mes-
mo lugar enorme e irre-
sistível/ às sombras mo-
ribundas de calor e
outono

Ana Cristina César: Infância

*********************************************************** Essa coisa linda aí em cima é minha afilhada, Hanna Clara. Quando estamos envelhecendo, a infância, nossa, dos outros, tomam o centro, seja como forma de fugir ao presente, seja como arma pra segurar o que não nos pertence mais. Só as narrativas do que fomos cristalizam a infância. E dão uma vaga certeza de que hoje somos a mesma pessoa de cabelos soltos, pés descalços, gritando de alegria, na porta da casa, pelo pai que chega do trabalho. …

Mais Urbanos

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GeloA descida da contorno ia ficando longe.Ela possuía um agasalho e um guarda-chuva. Floral. Mas se diz mesmo é "sombrinha", isto é, a proteção das mulheres contra o tempo molhado.Os prédios pequenos e as casas velhas, em fila, coladinhos. Ali, um prédio de oito andares todo todo amarelinho. Claro.Ia ficando cada vez mais longe.Ela tinha apenas duas pernas, nem grossas nem finas. Brancas. Como todo o resto.No asfalto, carros quase nenhum.Avistava o mar lá embaixo com tontura, porque andara muito. E a Contorno lhe fugia."Pamõõõõõõõõõõõõõõõnha", ouviu o vendedor na outra rua, "pamonha de milho, quentinha..." Parou pra um trago. Difícil acender qualquer fumo debaixo da chuva. O vento veio querendo lhe arrancar a sombrinha. Ergueu a proteção de tecido toda pra cima, e os ferrinhos se destacaram como esqueleto.Ela riu: esqueleto de guarda-chuva!Mas não, mulher diz mesmo é "sombrinha".*****************************************************Tenho que ded…

Urbanos, 1997.

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Amarelo-de-casca-de-fruta

Lutava com o vento e era de lenhar! Mesmo o amor que tinha no peito, mesmo o cão que se afastava achando estranha a sua luta, mesmo o sol que já lhe tomava os poros, nada, nada importava. Foco voltado pro piso, os olhos do rapaz só enxergavam a sujeira que com sua paciência brincava. Voava longe da vassoura. Voltava pro mesmo lugar. Corria maravilhosa pra debaixo dos móveis. Uma desgraça, uma desgraça.

O amigo veio e disse:
- Feche as janelas, meu bem...

Fecharam.

Foi o vento por hora vencido.

Mas, devagarinho, forçava os cantos da janela, da porta da rua, da fechadura. Cuspia à noite toda. Eles não viam. Corpos descobertos, os dois haviam de se entreter em suores e, depois do banho, em sonhos.

De manhã, ciscos pela casa.

A nova guerra conta com a fumaça de um incêndio num próximo terreno baldio. Fumaça que traz ruínas de papeizinhos aqui, ruínas de papeizinhos ali. Vão se aderindo ao piso, também ao tapete, também ao sofá. Alados pontos negros na atmosfera. Irritam …
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Revista AgudaQuaseGrave, Maceió/AL, 1991

Espelhos
A Arla Coqueiro e Gil Maciel,
meus primeiros editores


Não sei que tipo de sol havia quando vim ao mundo; não sei se na hora do parto usaram espelhos; sei que não há medo ou dor que não me leve a horas a fio na frente de retrovisores, pequenos espelhos de bolso, enorme vidraças, lugares em que me concentro, dispo a máscara, o feitiço, toda a encenação e, perdidamente, me olho, me odeio, me admiro, sem narcisismo, ou eu sou narciso?

Que espécie de medo enveredou em minhas sílabas tônicas? Quero fugir pro mundo sem destino das pessoas nada aflitas, nada sorridentes, nunca melancólicas, e contudo diferentes e alucinadas, a alucinação perdida do amor cruel que desumaniza toda a criação e cada tentativa de ser feliz.

Ser gente em abraços.
Ser gente e braços.
Ser gente e aço.
Eu te quero gente, letra, perfume, mormaço.
Odeio o seu cachorro maldito, esse ser mesquinho que você amarra do teu lado direito e atrapalha toda a nossa história. Você é um ser canino. Vive com fantasmas caninos. Sua i…