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Mostrando postagens de 2011

Felicidade não se conta - vencedor do 20º Concurso Luiz Vilela de Contos

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Às vezes, procuro pelos meus olhos quando eles não estão juntos aos seus. Encontro-os, diversas vezes, boiando naquelas poças de chuva por onde saltaram ontem nossos pés descalços, frágeis patas de gente. Talvez essa rasidade exista para nos conter ou nos distrair, não sei. O que você sabe sobre a rasidade da chuva?

Ainda havia algumas réstias quando ele se aproximou e deixou que eu capturasse os contornos da face alva, cônica, do olhar vago, azul; pude ver o indefinível escapando de seus movimentos, juntando-se a mim. O feixe de luz, subitamente tão vivo, me assustou. Apertei os olhos, tentando aproximá-lo mais do campo de visão — quem era? Forçar as vistas daquele jeito me doía na fronte, talvez fosse melhor desistir.
É ele, pensei, gostaria muito que fosse ele. Ao mesmo tempo, senti a inquietação a um palmo: e se for, adiantará? Como iremos retê-lo? Naquele instante, não tinha como saber. Deveria ser a segunda ou terceira vez que o encontrava, sempre rápido, rumo a algum objetivo. E…
Agora a noite desce envolvendo seus olhos em sonhos, a neblina, a barreira, as fronteiras dos sonhos, preto e brancas, coloridas, povoadas, vazias. Alguma voz de criança te falará de forma vaga e escorregadia de botões de camisa perdidos, de relógios parados na parede de sangue, de flores murchas nos jarros com água apodrecida. De manhã, a voz de criança ofuscada, crepitada pelo sol não te falará mais nada. Estranho mal-estar te faz beber mais café preto e menos suco de frutas na manhã.
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Quando me perguntam por aí se ainda vejo você, dentro de minha mente teu espaço se alarga: sua mesa de trabalho, sua cadeira, seus instrumentos, a luminária jogando luz pálida sobre os corpos imóveis de tudo que te cercava. O foco em meu coração: quando você afasta a cadeira e anda dentro dele, ignorando artérias, sangue, dores. O passado dentro de um copo que você pega, leva aos lábios, prova. Que líquido ora beberiam teus lábios? Por onde entrelaçariam seus dedos? Volta a tocar os instrumentos, dentro do meu coração. Há teu quarto, tua cama, você trabalhando, a chuva fina a cair. E um espaço vazio onde eu por certo estaria, todavia, olhando daqui, percebo: não, não estou.
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Dizem que baiano não nasce, estreia, ou que baiano burro nasce morto, clichês reveladores de uma cultura local capaz de matar e morrer em defesa de sua especificidade. Evidentemente, alguns povos se consideram especiais e mostram sua autoestima através de manifestações artísticas que lhes são peculiares, enquanto outros, mais contidos, precisam de situações cruciais nas quais vemos emergir traços desse egocentrismo, como num mosaico em que a identidade some e reaparece em zonas ora de luz, ora de sombra.

Nenhum alarme nisso. Trata-se de uma construção de limites entre nós e os outros. Todavia, um traço incômodo da cultura baiana não é a crença de ser, dentre os estados brasileiros, o mais especial, mas a dificuldade infantil de aceitar críticas. Tal traço não se restringe a um grupo social, vai do escritor incapaz de aceitar uma análise negativa ao atendente que não sabe atender. O episódio envolvendo uma das grandes vozes da música brasileira mostra isso. A cantora baiana comentou, no…
Me disse que sentia ciúmes de quase tudo, mas, com o tempo, aquela inquietação foi se refinando, passou a soar menos desenfreada no peito, chegou ao ponto de abandonar a esfera crítica do real. Neste ponto, interrompi: como é que é? Esfera crítica do real? Ele confirmou, pouco se abalando com a minha ironia, percebeu que no plano concreto não havia nenhum sujeito que pudesse ameaçá-lo, então, passou a ter ciúmes do abstrato, do onírico, do espiritual. Não entendi. Ele explicou: sabia que uma pessoa que jamais teve a menor chance de rivalizar contigo pode ter os sonhos mais íntimos e mais sublimes justamente com sua mulher? Eu só poderia rir. Mas é verdade, ele continuou, os sonhos não podem ser vigiados, nos sonhos, qualquer homem poderia tê-la nos braços, delirar com ela, os sonhos alheios eram um espaço onde ele jamais penetraria, nunca poderia chegar ali e acertar um murro no meio da cara do filho da puta. E que importância tem isso?, questionei, deixe o cara sonhar, ora, ficará ap…
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1. Papéis inesperados, de Julio Cortázar: estou ainda no início, mas já me deparei com textos excelentes como "Os gatos" e "Manuscrito achado perto de uma mão". Algumas "sobras" de Um tal de Lucas são interessantes, outras, irrelevantes.
2. Em algum lugar, de Sophia Coppola: é tão engraçado ler resenhas que consideram essa "a obra mais madura de Sophia"!, outras a ligam a Antonioni (e daí?), como se fosse a maior honra ou prova de qualidade do trabalho. O filme, fora da teoria, nu diante de nossos olhos, sem "introduções e justificativas de uma inserção à cultura do tédio cinematográfica", é chatíssimo. Mas daqueles chatos que nem provocam na gente vontade dizer "chato", tamanha é a obviedade com que sua chatice se desvela diante de nós. Uma pena, porque adorei os filmes anteriores dela.
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Coisas, coisinhas & coiselhas:
1. Cópia fiel, de Abbas Kiarostami - discussão que não avança além de tudo que já sabemos (Platão, o mundo ideal, o das cópias, Deleuze, a reversão, o simulacro, blábláblá), mas tem os closes em Juliete Binoche, e tem partes de uma Itália convidativa, mais a graça espontânea de alguns personagens desimportantes, como a dona do café onde o falso casal ou a cópia fiel de um casal burguês em crise senta numa manhã de domingo; poderia ser melhor? Sim, poderia;
2. No degrau de ouro, de Tatiana Tolstaya - contista criativa, faz dos homens-sombras e das mulheres-vultos de uma Rússia desiludida sua principal matéria prima; ela imagina, cria, descreve, vê, acompanha, toca, se afasta, tentando várias maneiras de narrar aquilo que mais nos interessa e nos escapa: o humano; escrita muito dinâmica;
3. Quase feriado: e chove e para e fica aquela brisa com cheiro de chuva tão típica de Salvador em março/abril; não se quer mais dormir, e sim aproveitar a brisa; as noit…

20° Concurso de contos Luiz Vilela

Sai o resultado do 20.º Concurso de Contos Luiz Vilela
ITUIUTABA | Marco 4, 2011 as 6:53 pm

A Fundação Cultural de Ituiutaba vem há 20 anos realizando um dos mais importantes concursos literários do país, o Concurso de Contos Luiz Vilela, que homenageia com o seu nome um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, o ituiutabano Luiz Vilela, aqui atualmente residindo.

Em 2010 foi realizado o 20.º Concurso, com a inscrição de 923 contos. A comissão julgadora, formada por Claudio Willer, de São Paulo, Luzilá Gonçalves Ferreira, de Recife, e Sérgio Rodrigues, do Rio de Janeiro, depois de mais de dois meses de árduo trabalho, chegou agora, no início de março, ao resultado.

O conto ganhador foi “Felicidade não se conta”, de Állex Leilla, de Salvador. Ela receberá, como prêmio, R$ 5.000,00. Além desse conto, outros nove foram selecionados pelos jurados, sem ordem de classificação, para serem depois publicados em livro, juntamente com o conto premiado. São eles: “Lições de casa”, de An…
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(Em foco: Bom Jesus da Lapa)
1. A humilhação, de Philip Roth: broxante, um dos textos mais fracos do romancista norte-americano. A ideia é muito boa: narrar a história de um ator que, ao envelhecer, se descobre incapaz de continuar a atuar. Basta ler a sinopse em qualquer site que temos imediatamente vontade de ler, entretanto, o livro é palavroso, se perde em cenas bobas, típicas de um filminho de sessão da tarde, e o personagem principal parece mais um ser infantilizado do que alguém em crise existencial. Tem um mérito para quem se importa com a extensão das histórias: é curta. Meu desgosto pode também ser explicado devido à leitura de A humilhação ter sido precedida por O animal agonizante, que é uma narrativa-pérola de Roth acerca da velhice, do medo de se entregar, e das surpresas do destino.
2.Abrir o peito, deixar entrar o sol meio mormaço da manhã, esta sensação de partida, de logo mais estar a embarcar, um gosto de quando a infância ainda vigorava, como explicar?
3.O contraste …
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(Foto by João Filho)

Os seres deste planeta fizeram um pacto com o demônio, aonde vou, a qualquer hora do dia ou da noite, há bolas de fogo saltando, irrompendo, ofuscando. Há bolas de fogo restringindo, cerceando. O mundo é uma loucura de nervos. Alço voo até o limite do céu, mas todos os céus estão fechados, e meu corpo não os ultrapassa. Preciso ir embora deste mundo. Os seres deste planeta com suas bolas de fogo! Estou farto de viver me esquivando delas.

Cortázar, o Julio.

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1. Terminei de ler Exame final, uma narrativa experimental de Julio Cortázar, anterior ao romance Os prêmios. Sabe-se que a narrativa foi engavetada pelo autor, que não voltou a ela enquanto vivo, no entanto, voltamos nós, leitores, incapazes de dizer "não" à enxurrada de títulos póstumos oferecidos pelo mercado. Diante da admiração cada vez mais forte que tenho por Cortázar, sucumbo facilmente ao apelo e compro, todo mês, um novo livro. Não quero comprar todos de uma só vez, porque vou adiando o prazer de adquirir e, posteriormente, ler "algo novo" de Cortázar. Os "algos novos" ficam empilhados na prateleira dos não-lidos; nas férias, um deles migra pro quarto a fim de me fazer companhia duas, quatro noites, por vezes, semanas - a depender da fluência de cada livro.

2. Ler Cortázar é um prazer singular, difícil de ser transmitido, pois, para além do conteúdo das narrativas, para além da linguagem, do talento dele, há uma atmosfera típica em seus textos, u…
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Foi lá naquele pedacinho de varanda, entre o lírio branco que de uns tempos pra cá inventou de querer morrer e as samambaias em vasos de gesso pintado, que ela disse lembrar por vezes de Drummond afirmando que Deus era grande e cabia numa janela inteira para o mar.

Piscando os olhos, ela, naquele jeito meio índia desbotada por não ter mais nenhum resquício de um dia ter sido índia a não ser o leve puxado dos olhos, encarando a linha do horizonte e enrolando o cabelo lisíssimamente marrom, ela disse exatamente assim: segundo Drummond, Deus era grande e cabia numa janela inteira para o mar.

Do lado de cá, ele suspirou a fim de manter sua serenidade, conseguida há milênios, e respondeu, devagar, morno, naquele jeito de consertar o impossível, ele respondeu que não compreendia por qual razão ela pegava frases de alguém, misturava com de outrem, rasurava, mexia nos sentidos, na estrutura, e, não satisfeita com a mudança dos sentidos, ainda achava de confundir as autorias.

Ela ia gargalhar,…
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Contei a ele que sonhamos com a mãe dele presa numa casa toda de cristais e gelo. Ele respondeu que havia uma casa assim no filme do Super-homem.
— Qual Super-homem? O do Christopher Reaver?
Ele suspira, impaciente:
— E existe outro Super-homem, meu pai?
— Milhares. Eu já vi pelo menos uns sete.
Ele arregala os olhos:
— Você conhece sete Super-homens?
Confirmamos. Talvez até mais.
— Não, você está maluco. Só existiram três. E todos eram o Christopher Reaver.
— Não, senhor. Há muitos outros. Com a mesma origem, a mesma roupa, os mesmos poderes, os mesmos problemas, a mesma namorada jornalista.
— Mentira, você está inventando, meu pai.
Não, não estávamos inventando. Inclusive há um canal a cabo, não lembramos direito, mas há, onde passam um Super-homem muito jovem, confuso, confuso, o rapaz. De olhos azuis também. Nem se sabe Super-homem ainda, está a se descobrir.
Ele nos olha, confuso:
— Como assim um super-homem que não sabe que é Super-homem?
— Exatamente. É uma série que se reporta ao iníci…