Henrique (romance), Ed. Domínio Públicco, 2001 (trecho)

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Passado o tempo das luzes, descobri que, esbagaçado no banco de um carro, eu não podia ver o mar claro, calmo e ululante. Festim de azul e verde e até amarelo-barro, um tanto gritante, é verdade, pois surge quando o sol raia depois de horas de chuva, e muita da sujeira da cidade que cobre a areia das praias contribui pra formação dessa cor estranha. A que mais silêncio me causava. Podia tentar até a exaustão que não conseguiria nunca removê-la de mim. São Conrado, Pepino, Joá. A mão de meu pai me levava — no princípio era sempre ela — e eu não aceitava retornar pra casa antes do sol se pôr.
Baratas fazem do meu resto de carne um farto banquete. Baratas? Vermes? Ou impressão? Não sei. Vermes que conscientemente odiei me devoram. Não falo dos ratos porque não os vejo. Mas devem existir porque tudo isso faz parte da miséria, entende? Os seus braços, um longo porto, a quilômetros de mim, radiantes. Num grande espaço de tempo minha vida foi tristeza agulha fina perpassando a pele. Não importa, agora não quero me importar. Me concentro e vejo a noite dentro das janelas acesas; vejo mulheres entre cebola alho óleo maridos e filhos pra jantar; vejo os televisores e o acompanhar patético dos olhos, mortos de qualquer alegria ou viço real de vida, todos muito bem nas salas de estar. É, longe de nós, meu amigo, todos creem viver verdadeiramente, mas... não sei.
Me interesso pouco pelas pessoas, poucas pessoas me incomodam, nada quero trazer pra junto de mim neste canto de mundo, que, como vê, não é bem um canto de mundo, mas apenas meu fim. Embora eu não queira o fim.
Me incomodam visões de flechas soltas no ar.
Dou de me lembrar de sua pica, Vic — e isso é puro deleite —, ereta, linda, a mais bela dentre todas as picas que um homem na Terra pode ostentar. Mais bela até que a minha, reconheço. E não é nada fácil, garanto-lhe, reconhecer. Dou de me lembrar de como você a esfregava contra a minha e, suspirando, ia subindo ao alcance de minha boca. Mas perco o momento em que você também me abocanhava. Sua cara retendo meu gozo, minhas mãos te apertando os cabelos. Perco, perco. Vago sem tempo sobre nós e lembro, com pesar, quanto de inferno eu pacificamente suportei, acreditando que um dia, uma porra de dia enfim, tudo ia ficar bem entre todos os homens e planetas e reticências, e não somente na paz de nosso quarto, de nossos corpos depois do amor.
Me lembro de qualquer coisa azul — os olhos do meu companheiro, vivos, leais? Não, não, os seus olhos são, sempre foram verdes. Um firmamento de primavera? A banheira onde, quando bebê, me lavavam? Não, acho que a banheira era branca... Talvez a cor que totaliza toda essa distância. Branco, branco, branco. Sim, quando recordo é porque estou distante.
O pior de tudo é que não há cheiros e quase se pode sentir Deus. Eu quero andar e não sou movimento. Ágeis são os arbustos, são as nódoas, são as faltas de cheiros, meu corpo não. Primeiro me dei conta disso — do corpo — que ruía a cada quarto de hora, depois percebi, aterrorizado, as formigas, rodeando-me como se faz com o alimento. Histérico, nos instantes iniciais ainda achei que reuniria forças pra quebrar a inércia, vencer.
Não consegui.
Tua mão veio viva afastando os insetos de mim. Limpou um resto mínimo de sangue, pôs rosas e perfume e me vestiu com uma camisa de seda clara.
Ri, grato a ti por tanta generosidade. Saiba que estarei sempre. Achei teu pranto extremamente belo caindo em meu rosto morto. Devia ser quente a tua dor, fazia a das outras pessoas indiferente, nula. A milímetros de mim, você arfava em desespero. Não te senti como antes, minha faculdade consistiu no verbo ver, segunda conjugação, transitivo direto. Não lembro mais.
Vi você me guardar no vão e a madeira comer minha liberdade.
Falo como corpo porque corpo preso fui depositado.
Os grãos de areia, as velas, os vermes. O regresso. Não seria exatamente areia, mas barro pútrido, enojante.
Imaginava que o alimento fosse vivo, que cada mastigar sofrido fosse uma alegria de transformação próxima. Mas não, a dor de ser absorvido é total, é cruel e leva parte dos sentidos. Abomino-me em retalhos. Eu me odeio mordido, rasgado, mastigado, comido. Pelos, gosma, meus dentes!
Nenhum cheiro exala, nenhum formigamento. Meu sexo, minhas mãos. Eu não conhecia esses tipos de vermes, só aqueles que levam parte do joelho. Lia sobre bichos que dão em água parada, matava muitos ratos quando tinha dez an.....h! Jesus! O cheiro morno da virilha pra sempre perdido. Minha unha caindo vagarosa na madeira, minha boca, eu não tenho boca!
É preciso um cigarro, um café.
Um choque elétrico.
Ainda faltam as veias. Ali, falta parte do nariz e um resto de coxa. E essa posta de carne verde, aguada, donde fazia parte? O sangue endurecido. O sangue é um requinte, quem virá sugar? Me contorço, não sei do tempo. Deve ser longo, mas não o meço mais. Incho. Inconformismo. Não voltaria a comer se tivesse novamente boca, dentes, língua, mas ainda assim quero meu corpo!
Tapa na cara.
Dentes rolando.
Baba.
Quero meu corpo.
Escuridão.
Por favor, me soltem, me deixem.
Um corte vertical no planeta.
Que todos sangrem, que se fodam, que não reste migalhas de gente.
Não é possível. Então sou isso?
Corro.
Carne moída.
Odeio. Odeio.
Subirei no topo.
Picadinho.
Mal, mal, mal.
Formigas estranhas, estranhas.
Quero tudo no lugar de antes.
Misérias se multiplicam.
Demônio.
Em toda parte: baratas.
São os bichos que mais odeio.
Eu que comia vegetais. Eu, que não andava descalço debaixo do sol por muito tempo. Eu com minhas rugas.
Eclipsado.
De mal com Deus.
E com Jesus Cristo.
Eu corro.
A mancha escura no meu quadril.
Minha pele, minhas nádegas, onde o Vic irá deslizar?
Pode ser um câncer, cara.
Eu tinha medo de câncer no pulmão.
Meus olhos eram negros... sangue AB, Rh +. Herança do meu pai.
Minha mãe nunca virá.
O banquete.
Água luz sabão.
Um dia uma puta me seguiu no Leblon. Olhava pra trás lhe sorrindo, quando por fim entendi: um homem, um homem debaixo da fantasia de se fazer exageradamente mulher.
Não me encantavam homens assim.
Tudo bem.
Não vou chorar mais.
Que se danem os cílios, que se danem os cabelos.
Posso sorrir um pouco.
Não me apavorem.
Dancem comigo. Um tango, ou dança antiga de ciganos.
Boceta!
Por quê?
Quero meu corpo.
Macho meu ele foi, homem a quem chamei de amigo.
Não suporto mais esse crânio exposto.
Por favor, um lenço. Lilás.
Um cara me esmurrou no peito, uma vez.
Galeão, Santos Dumont.
O barulhos de seres metálicos pelo ar.
Jacarepaguá.
Vozes em alto-falantes.
Passageiros com destino ao inferno, com escala no desespero e na miséria profunda, por favor, dirijam-se ao portão de embarque, e boa viagem.
Arame farpado.
Pois vou dar o troco pra aquele otário.
Irritação no estômago.
Tome a limonada, meu filho.
Não há.
Pode ser um sonho.
Vic, me espere na saída da rua, passo logo que a aula acabar.
Ele estudava língua alemã e amava escritores franceses.
O tempo. O tempo. O tempo.
A chuva podre sobre as cascas das frutas. Sobre as rosas brancas. Sobre os remédios.
Me ofertam flores. Vou cair em choro. Flores pra quê, meu avô?
A primavera me dá saudades, o leite me dá saudades.
Ossos.
Uma casa bonita, cheia de espaços.
O momento mágico de desgrudar do corpo dele e adormecer.
Sítios. Aeroportos. Calçadas. A corrente fria na cara.
Copacabana princesinha do mar.
Gozo, esperma, fluídos. Línguas. Espáduas. Coxas. Ânus.
Pai-nosso-que-estais-no-céu-santificado-seja-o-vosso-nome.
E flores, flores, flores. [...]

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