— Ainda bem que você veio me visitar. Vamos secar todas as garrafas. Está uma tarde ótima para se encher a cara. O melhor dos domingos é a possibilidade de beber até cair. Tão triste e chinfrim acordei. Comecei a reler Orientação dos gatos, pra ver se algum raio perdido de luz matutina vinha se abrigar no meu colo. Mas a vontade é de sair por aí jogando bomba-cabeção nas garagens alheias.
— Cadê teu namorado?
— Viajou, a trabalho. Volta na próxima sexta.
— E você não quis ir com ele?
— Não pude, bem que eu queria, tenho tanto trabalho amanhã que fico cansada só de pensar.
— Incrível quanto a vida vista daqui é linda...
— Linda por quê? Por causa do mar e dos barcos atracados no Porto?
— Sim, por causa deles.
— Não sei... Eu tenho problemas com essas idas e vindas. Sempre multiplico os barcos e fico mais triste ainda pensando em quantos barquinhos e navios existem a ba-lançar, em quantos portos, cidades antigas feito esta, balançando, balançando, ao morrer do dia. Ou partindo. Ou ancorados. Enquanto na nossa pequenez vemos apenas esses, que não são nem metade de todos os barcos e navios que existem por aí.
— E o que há de errado em ver um pedaço de tudo?
— Nada, por certo. Todavia, eu sinto dores de cabeça.
— Está parecendo o Pérsio com os trens de Portugal.
— Qual Pérsio? O de Caio?
— Não, o de Cortázar.
— Ah, só gosto do de Caio.
— Mas você não acabou de dizer que voltou a ler Cortázar?
— Sim.
— Então?
— Tem um Pérsio em Orientação dos gatos?
— Não, Luísa, tem um Pérsio em Os prêmios.
— Mas eu não voltei a ler Os prêmios...
— Como você é embirrenta.
— Claro que não... Embirrenta por quê?
— Se acaba de citar Pérsio com a história dos trens em Portugal!
— Eu? Não conheço nenhuma história com trens em Portugal...
— Luísa, agora, você já está chateando...
— Desculpe, foi inevitável. É tão bom te desmentir.
— Está bem, vou fingir que não estou ouvindo tal aberração.
— Nossa, que palavra forte, Michel.
— ...
— ...
— Enquanto você secava os cabelos, estava ali na janela, tomando café e pen-sando em como é inapreensível e passageiro tudo aquilo de belo a que nossos olhos põem luz e tentam aprisionar. Quer dizer, os olhos tentam, mas não adianta, escorrerá numa fração de segundos. E jamais conseguiremos reter aquele êxtase outra vez, o êxta-se do primeiro momento, daqueles dias mágicos em que vimos as coisas pela primeira primeiríssima vez. Só de pensar, já me sinto velho de novo. Velho e, de certa forma, um pouco morto.
— Agora você é quem está parecendo alguém...
— Quem?
— Bob Smith: yesterday I got so old I felt like I could die, yesterday I got so old It made me want to cry...
— Tudo bem, gosto dele. É um tempo palimpsesto mesmo, que fazer?
— Palimpsesto?! Isso é uma referência a Gore Vidal?
— Não. Estava me referindo ao suporte antigo.
— Ah...
— Você fica bonitinha imitando Robert Smith com a cabeça pra lá e pra cá...
— Fico?
— Fica. A propósito, o seu inglês melhorou muito...
— Você acha?
— Acho.
— Pena que foi um pastiche improvisado, se não teria caprichado na maquiagem, arranjado uma boa peruca...
— Mas foi um pastiche sutil, eu adorei, afinal, nem tudo é questão de máscaras...
— Hmmmm, estamos filosóficos hoje, hein?
— Pois é, estamos.
— ...
— ...
— Está sentindo este cheiro de sabão em pó?
— Estou.
— Aqui venta bastante.
— É verdade...
— ...
— ... [...]

IN:_Primavera nos Ossos. Salvador: Casarão do Verbo, 2012. Últimas páginas.

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