O sol que a chuva apagou, Ed. P55, 2009 (trecho)


[...]
Acendo uma vela azul, um incenso de Noz Moscada. O Matheus me mandou cinco caixas dele. Cada uma tem 10 varetinhas. Você gosta deste cheiro, Ian? Posso acender um a um, dia-a-dia, se você me responder sure, honey, naquele seu jeito rápido de falar mal abrindo a boca, yes, Thiago, você diria como quem está de saída e volta correndo porque esqueceu algo importante, motor do carro ligado, itinerário previamente decidido, chaves, carteira, sobretudo, você diria, it´s fine, dear, jogando um beijo ou simplesmente confirmando: I do. É bom este incenso? Estou meio resfriado pra saber. Ligo o violão, vou lembrando e tocando, primeiro, aquela tua preferida da Chrissie Hynde; segundo, Giz, da Legião; terceiro, Such a woman, do Neil Young, mudando woman pra man, como você fazia, no chuveiro; quarto, The one I love, do R.E.M. Abro uma garrafa de vinho: se houver mesmo aquela história de vida eterna, esteja por aqui e brinde comigo, meu bem. Sim. Meu querido. Duas taças. Essa é pra quem eu mais amei no mundo. Essa é pra alguém que ficou pra trás. Sem você eu não conseguiria chegar até aqui. Jamais. Há milênios teria desistido. Vem de ti a força que me faz pisar forte no chão, seguir em frente, não fraquejar, não cair. Yes, I know. Não, não desapareça. Quando começar a chover de novo, quero estar de mãos dadas contigo. Fecho os olhos, tento de todas as formas ver seu rosto, sentir seu corpo, próximo, colado a mim. Mas não, não é o Ian, é a Maria Alice, no início da quadra, irritada, reclamando que alguém esbagaçou a caixa com pedaços de giz coloridos que ela roubou da escola pra jogarmos amarelinha. Desenhamos na calçada da quadra inteira. Você gosta de mim, Thiago?, ela perguntava, os olhos escuros, brilhantes, você quer ser meu amigo? [...]

Comentários

  1. Passando para agradecer a gentileza e parabenizá-la pelo livro: Adorei!

    Rodrigo

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