segunda-feira, abril 13, 2009



[...] Dias doentios virão. Varanda de ladrilhos cor de carne. O vácuo. Quer você tenha casa, quer viva num caixote de papelão, pouco importa. Conserte os cabelos com as mãos quando o vento marinho jogá-los na tua cara... Afaste-os do rosto em direção à nuca, depois solte-os, e eles voltarão a assanhar. Não importa quem você seja, que segredo ou missão acha que a vida guarda pra si. Estará de cara com o nada, suas forças minarão.
O sol principiará lá fora, de sua fraqueza não vai querer saber. Se revolte. Quebre copos na cozinha. Jogue os cacos pela janela. Uns brilharão no asfalto, outros, na lataria escura do tonel de lixo. O rumor de vidro caindo no asfalto pode fazer você se sentir bem. Ria, amansado(a), deite-se outra vez e não vá trabalhar, pois é um daqueles inúmeros dias em que se precisa esquecer a si mesmo, e não se esquece.
Novamente, como numa senha: choverá forte, depois tudo cessará. Ficará um mormaço e um vento gelado. Você pode lavar os cabelos, se cabelos você tiver. Você pode fechar e abrir os olhos, caso não seja cego(a). Você vai se sentir órfão(ã), mesmo tendo pai e mãe vivos. Faça um pouco mais de café. Escolha algum livro e deite na cama. Se você for dos/das que leem. Ou escolha uma boa trilha sonora. Caso goste de música.
Dias estancados na janela. Passarinhos aqui e ali. Por mais que se esqueça o lugar onde se vive: alguém passará lá embaixo com aquela fitinha branca do Senhor do Bonfim, no pulso, te lembrando, sempre: é sexta-feira, dia de Oxalá. Estará no pulso de vários pedestres. A fitinha. Molhando na chuva, mofando no inverno, umedecendo no outono e gostar-se-ia de romanticamente dizer: floreando na primavera. Mas não é ver-dade: nos dias doentios não haverá flores. A primavera estará longe, muito longe. Esqueça-a. Você está profundamente só. Dentro do seu próprio silêncio-peso. Olhando os objetos ao redor. Portanto, boa sorte. Por isso, boa sorte. Agora e sempre: boa sorte.

7 comentários:

  1. Allex, hoje, por que a sorte ficou de viés, este teu texto é uma minha radiografia. E os dias doentios vieram.
    Aceito o café, quinta-feira, depois das 19h.


    Beijos

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  2. dias doentes sempre e virão

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  3. GDamulakis11:38 PM

    Simplesmente devorei sua novela. Cada vez mais fã. GD

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  4. ola...Fuçando na net,tive o prazer de ler e nem me lembro como cheguei até um trabalho de conclusão de curso ou uma monografia de "Letras"...bom estou aqui para dizer eu li ela toda...rsrs, de inicio foi Renato Russo que me fez ficar presa ali, depois foi a melodia dançante da tua escrita...bom para resumir,eu acho que vc é vc!rsrs...

    abraços poéticos

    Parabéns pela escrita e blog...

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  5. retificando..uma tese de pós graduação em letras.

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  6. [...]Dias sadios virão. Varandas coloridas iluminadas por mentes em ebulição. O tudo. Quer você queira, quer não, pouco importa. Terá de vir. Não importa quem você seja ou em que acredita, não estão deixando você em paz. Nunca houve paz. A saída está na cara, mas o medo também. Beba um copo de cólera e suas forças surgirão.
    O sol nasce todo dia, manda embora a apatia. Se revolte. Quebre a TV da sua salinha, cuspa na sua visinha, dê um murro na cara do seu chefe. O som do nariz dele se partindo vai fazer você se sentir melhor, mais gente. Ria alto, desobedeça, raspe a cabeça.
    Está chovendo há séculos e os rios que correm são de sangue.Você pode fingir,pode dormir, pode adicionar mais um "miguxo" no Orkut, todo mundo é feliz lá. Mas não pode fugir, vivemos em cadeia.
    Por mais que você tente esquecer o lugar onde vive, as pessoas ao redor te lembrarão. E não adianta olhar pro céu, virar a cara pra não ver,já estamos numa cruz e só porque o otário do Jesus sofreu, não quer dizer que temos que sofrer. Deixar pra lá, fazer oferenda pra Oxalá, isso de nada vai adiantar.
    Venha! Nos dias sadios haverão flores. Ante é preciso sangrar podando os espinhos. Não espere a sorte. Venha, recarregue suas armas, traga seus amigos, venha como você era, como você é, como você quer ser. Venha, porque o que vem é perfeição.

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  7. Maurício Freire5:38 PM

    Profª Állex, sei q não me conhece, sou um aluno bastante ausente. Tava lendo seus textos e tomei a ousadia de escrever um com fragmentos (alterados) do seu. Ignore os erros de digitação e dê o veredito.

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