sábado, novembro 28, 2009



[...] No entanto, o que se possui de fato é a aglomeração de seres e de sentimentos nos quais se acaba transformado. Por verdade, entenda: um tesão incontrolável, jamais amenizado, junto à cabeça que dói constantemente; em suma, um passear inútil pelo que se foi, pelo que se pode vir a ser, quando, por milagre, se achar as pontas dos nós. Essa verdade triste é o que tento, acima de tudo, fazer sorrir.
O vento bate as portas de todos os ambientes onde eu poderia penetrar. O vento me assusta. Zumbidos de casas, zumbidos de trevas, as suas vidas, as minhas, aviões que torturam o cérebro.
Paciência já não tenho.
Invento medos.
Podres mentiras.
Tremulo no espaço que piso, caio, sobrevôo.
Você, o meu grande amigo, se precipita a sair do Brasil... Você está só e não quer mais enfrentar as lembranças... Você não quer mais ninguém do seu lado? O quê? Oh, não, volte, chegue mais perto de mim... Ah, quero te mostrar os últimos recortes, as partes que sublinhei, esperando, um dia, ler junto contigo para rir melhor. Sei que já rimos outras vezes juntos. Não conte muito com minha memória, ela é muito velha e concorda em ser silenciosa, feito lapsos no tempo.
As coisas que fazíamos ontem, meu amigo, na pouca luz do quarto, hã? Levemente se deixar sobre a terra. Levemente sem sentido...
Quando você se ausentou por um longo período de perto de mim, eu tive vários meninos. Entre eles havia um que sabia dançar muito bem. Movia os quadris e o ventre como se fosse uma cobra solta no espaço. Tinha a impressão, quando o via dançar assim, que do seu corpo brotava um campo de luzes extremamente cintilantes, enquanto o rosto suave dele ia se deslocando de um ponto ao outro do quarto.
Quando a música começava, eu dava por seu corpo quase nu, envolvido num pedaço de pano transparente, curto, amarrado na cintura como uma tanga, dançando e batendo... pandeiro? Castanholas? O que era mesmo que ele segurava harmonioso com os braços erguidos sobre a cabeça? Bem, não sei mais... A única coisa que eu podia fazer era derrubá-lo novelisticamente no chão, possuí-lo até o cansaço total.
Folhas secas guiadas pelo vento caem agora sobre ele... Os pés tão miúdos rodopiando, rodopiando... Não parecia realmente um homem, a não ser quando seu sexo se fazia ereto debaixo do meu. Minha escultura antiga, onde andarás agora? Registro de anjo. Veludo. Cerco suas mãos em pensamento, minha obsessão quer retê-lo, sugá-lo até o final.


Roupas sujas em repouso, os caqueiros de flores, a pilha de pratos por lavar. Respiração cansada, derrotada pela neblina dos dias.
Morfina. Leito de amarras.
O mal, o segredo dos neurônios.
Só se é mal por conveniência nesse mundo onde um par de moscas verdes e grandes consegue dominar o ar. Me punha a persegui-las quando elas entravam estupidamente em nosso quarto.
Você ria, lembrando, antes que eu me cansasse, que havia inseticida no armário.
Mas, às vezes, as moscas fugiam pela janela da copa.
Uma desgraça me vem e track na garganta. O que quero calar, mofar, esconder, vem inteiro pela boca e, calado, eu sinto seu cheiro de ocre estendendo-se por toda casa.
Sim, os homens que fui antes e depois do amor, as sensações depois da morte, as visões e os sonhos, claro-lógico-evidente-que-se-sonha-após-a-morte.
As imagens, eu sempre esbarro nelas. Homens flutuam como bolinhas de sabão, restinho de pó. Esbarro e quero retê-las, mas como?
A eternidade dentro de mim.
As formas e mundos masculinos são as que mais fogem, obcecando-me cada vez mais. Quanto mais escorregam, mais eu as quero tocar. Suas paredes: madrugadas sem ruídos. [...](Henrique, 2001, p.23)

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