"Henrique"


Desgraçado!, volte logo de Munique.
Por favor...
Eu tinha um tesão miserável por ele, quando gozávamos sempre jogava isso em seu ouvido. Louco, louco. Quase sem voz.
Escrevi-lhe. Dei muitas notícias. Que teve eleição pra governador no Rio – teve em todo território verde-amarelo-anil, mas só interessava falar dos nossos próprios narizes –, por protesto, não fui votar e estava me lixando pras multas folclóricas, grande merda é um país que obriga as pessoas a votarem, né, Vic? Falei sobre a duplicação das estradas: só engodo do governo federal, nunca se resolvia muita coisa e os acidentes se multiplicavam; sobre nossos amigos também. Que o Eros me visitava constantemente, que Ronaldo casou com o Décio, fizeram uma festa com cerimônia e tudo. Teve um bolo imenso, cheio de nozes e chocolate em pedaços. Superbacana. Você ia gostar de ter ido, bebemos até de manhã. O Ronaldo de branco e lilás. O Décio de amarelo clarinho. O Tavinho estava também, numa cadeira de rodas, todo deprimido... Quando me viu foi soltando veneno, dizendo que eu não me enganara, ele realmente estava com o vírus. Que vírus? Eu disse alguma coisa sobre ele? Não dei resposta logo porque você bem sabe o meu saquinho pra fofoquinhas. Mas nos falamos depois, num canto, eu sabia perfeitamente que ele estava com AIDS, e daí? Que diabo de fofoca foram contar pra ele? Fofoca nenhuma, ele me disse e ficou me olhando com aqueles olhos arroxeados, talvez magoados, não sei. Mas passou logo, no final da festa estávamos rindo e dançando, isto é, tentamos dançar juntos, eu de pé, ele na cadeira de rodas, porque está se sentindo muito cansado e inseguro, disse que cai de vez em quando ao tentar andar. Tão triste vê-lo assim, Vic, me deu um nó por dentro... me lembro que na infância você jogava futebol com ele... eram os gays-machos do time... Pedro foi pra Bolívia com Saulo, fazer que porra não sei, Hugo foi morar em Búzios com Jordano, tá todo mundo casando, sendo feliz, ou pelo menos querendo, tentando, e você? Por que não volta logo? Decidi sair da casa do meu avô mesmo sem você estar aqui, aquele casarão parecia esconder minha mãe em cada porta e cada lustre. De repente, deu de aparecer tanta formiga lá, cara! Tivemos que chamar a detetização...! Meu avô foi pra Portugal, passar uns tempos com suas irmãs insuportáveis, não sei porque Deus me deu tanta tia... Você sabe que não sei diferenciar uma da outra? São tão iguais, com os vestidos azuis de listras brancas, os rostos rosados, as bolsinhas douradas, os sapatos pretos, os movimentos cansados, as mesmas frases, as mesmas palavras – Vic, você acredita que elas ainda falam tu e vós? Pois falam, com verbo flexionado e tudo! São tão abusadas essas senhoras, não consigo chamá-las de velhinhas, acho que nariz empinado e olhar medindo as pessoas de cima a baixo não combinam muito com esse nome: velhinha. É tão carinhoso! Gostaria que fôssemos velhinhos pros nossos sobrinhos e não senhores ou tios... embora eu não tenha sobrinhos... serei dos seus, né? Sim, o meu amigo Eros e sua irmã não já têm dois filhos? Então...
Você vai morar comigo quando voltar, cara?
Sim ou não? Responda logo.
Já fui ver uns apartamentos hoje. Vários apartamentos que a imobiliária do meu avô alugava, foram desocupados ao mesmo tempo... Mas não sei se você iria gostar desses... Não diga que pro lugar de onde você vem qualquer coisa serve. Detesto quando você cisma de falar assim, perde-se completamente a noção de escolha. E repare que nós somos dos poucos que ainda podem escolher, entende?
Me masturbo sempre, pensando em você.
Às vezes, encho a cara, como um cão vadio rodando os bares altas madrugadas...
É tão miserável não te ver... O Cazuza acaba de morrer e você não está aqui pra conversar comigo... É uma desgraça, sabia?
Hoje tem Legião Urbana no Jockey Club Arena. Vou pensar que ainda estás do meu lado quando tocarem Daniel na Cova dos Leões...
O Vic escreveu pro Eros, a carta chegara no mesmo dia em que terminei a minha. Falou de um grupo de pesquisadores que ele conheceu, dos estudos que vinha realizando juntos, do maravilhoso vinho tinto que tomara, de uma peça de teatro sobre a vida no campo, de sua preocupação por saber que eu andava usando cocaína. Tudo coisa atrasada, de pelo menos dois meses... Pedia pro Eros confirmar se eu usava mesmo cocaína. Quem contou pra ele? Eros? Achei engraçado ele perguntar se eu estava viciado, quantas vezes usava por dia, semana, mês. E que pena, ele havia escrito já no final da carta, soubera que o Cazuza estava muito mal, ele sentia tanto! No final da carta, mandava Eros tomar conta de mim. Havia um parágrafo que dizia:
Você deve saber que não sou nada romântico, mas Henrique é presença constante em meu pensamento, ora é uma vontade, ora é a própria projeção. Utopia. Realidade. Eu o vejo triste, velho, de tantas maneiras que em verdade nunca esteve. Presente. Muito presente. Sonho com um amanhã vitorioso me tomando nos braços, como por Henrique tantas vezes fui tomado. Adormeço feliz pra acordar inseguro. O que será que Henrique faz a essa hora no Brasil? Já amanheceu por lá, ainda é noite? Será que Henrique tem insônia? Minha vontade é gigante, mórbida até. Minha vontade se chama Henrique. Somente Henrique.
Fiquei bobo.
Úmido.
Latejando.
Pedi pra copiar aquele trecho da carta. O Eros disse que eu podia levar.
– Inteira?
– Claro, a carta foi escrita pra você mesmo!
Não esperava.
Não do Vic.
Nessa época eu namorava um rapaz de Botafogo. Quer dizer, não namorava exatamente, mas nos víamos vez em quando, íamos ao cinema e trepávamos. Ele tinha um sotaque baiano. Porque a mãe era baiana, ou ele nasceu na Bahia e veio adolescente pro Rio, qualquer coisa desse tipo, não lembro bem. Só sei que, porra, naquele dia, marquei com ele e na última hora desisti. Saí sozinho naquela noite. Não queria saber, não queria. A carta tinindo em meus ouvidos. Um frio nos calcanhares. E dentro. Creio que no fígado, no saco, no coração.
Fiquei imaginando o que o Vic diria ao me ver tão abandonado, pequeno, febril.
Encontrei um ex-colega de faculdade dele, carregava uma porção de livros, panfletos, apostilas.
A linguagem da carta me pôs em erupção. Gostaria de descobrir tantas cidades com ele e estava ali no Rio conversando com seu ex-colega sobre cigarros e literatura. Na penumbra das árvores cariocas. O cara gostava como eu de Marlboro e Caio Fernando Abreu, cheirava fortemente a jasmim e se dizia louco pra sair do Brasil.
Consegui lembrar vagamente de um encontro com ele certa vez no Leblon. Alguém, talvez o Vic, talvez o Tavinho, talvez o Eros, chamando-o de gavião, ou de tucano ou de pardal. Não, não seria de urubu? Agora me chamam de Paris, ele disse, porque só penso em ir pra lá. Os olhos dele estavam alongados pelo lápis preto, uma vez vi um lápis preto na bolsa da minha mãe...
Falei pra Paris que íamos os dois ao show, impedindo-o de continuar a falar de dinheiro e cigarro, dinheiro e cigarro, e uma ou outra frase pescada em Clarice Lispector.
Tinha até lua cheia.
Paris ficou muito contente quando eu disse que você estava longe, meu amigo. Deu de me beijar no pescoço.
Comprei ingressos pelo triplo do preço e entramos já no finalzinho de Há Tempos, começo de Daniel... Vic, o Renato Russo estava usando bigode, você sabia? E dedicou o show ao Cazuza, que morreu ontem – sinto muito lhe dizer assim: Cazuza morreu ontem. Penso no quanto nós gostávamos das músicas dele, mas tudo acaba pequeno diante do fim... Acharia uma dádiva se você estivesse comigo no show da Legião. Acredite, eles tocaram até Andrea Doria, a canção que você disse que nunca tocavam ao vivo... (Claro que tocam, Vic!) Eu nos braços de tantas entidades alucinógenas. O cheiro de jasmim do seu amigo evaporando, sumindo entre o amontoado de axilas que se erguiam ao nosso redor. E as luzes, você não acreditaria na chuva de fogos de artifício que houve no final. Até o axioma do dia seguinte me mostrar o vão do quarto, da cama de Paris. O corpo dele cheio de mordidas minhas – pelo menos ele jurava que eram minhas. Bombas estourando em minha cabeça. E as formigas passando no teto do quarto. Brincando de disco voador.


Avitaminose.
Soro.
Densidade.
Fotografias.
Congestão.
Mau humor.
Suicídio?
Não.
Sim.
Que palhaçada!
Oh, não, isso é sério.
A inexistência de Deus.
Vic.
E Deus.
E Vic.
A páscoa.
O sacrifício, o sacrifício.
Eu, Deus e Morrissey: Everyday is like Sunday. Everyday is silent and grey.
E sua ausência, cara, e sua ausência!
Maria Madalena, a mulher de Cristo.
Maria, virgem mãe de Deus.
José, o carpinteiro.
E Deus perturbando a paz dos homens, enchendo o saco de toda gente que não acredita nele. Acho que encherá sempre desde que se tenha um nervo aberto lá na Grécia antiga... Eu venho da Grécia, mas venho muito mais de Roma... E de um curto intervalo na Alexandria. O mundo que não vingou.
Água sanitária.
O vício nas veias.
O vírus nas ruas.
E Jesus querendo se impor, Jesus com sua história de sangue e perdão.
E José, coitadinho, José tão bom padrasto! Sempre tive tanta pena de José, meu Deus...!, quando criança contei pro Vic, mas ele não se importou.
Vic, Vic! Comecei a ter medo da AIDS. Enumerar os rapazes que comi. Sonhei coisas abomináveis com meu amigo Eros, que nem gay era. Morte e putrificação. Jornais me espetando os cantos da boca, das unhas. Você nunca voltava da Alemanha, me irritava profundamente em ver o tempo passar sem te ter.
Tudo latejando.
Minha neurose era só um ângulo, aquele em que nos colocamos uma vez no fundo do carro quando visitávamos São Paulo. Pra nos masturbar. Minha neurose era só esse resto de carícia próximo do MASP.
Talvez, se procurasse outro amor...
Mas...
Não me interessa.
Em minha cabeça não caberia.


Objetivei seu retorno:
Se você tem coração, volte logo – eu preciso nos ver foder mais uma vez.
O Eros disse que não iam aceitar um telegrama assim. Ainda mais sendo pro exterior.
Aquietei-me. Escrevi apenas:
"Tenho tido vôos em ângulos alternados, arredondados e trêmulos, talvez oriundos de você."

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Romance: "Henrique", editora Domínio Públicco, Salvador, 2001. À venda na Livraria LDM (Rua Direita da Piedade, s/n, Piedade, Salvador, Bahia, em frente ao Banco do Brasil).

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