Me disse que sentia ciúmes de quase tudo, mas, com o tempo, aquela inquietação foi se refinando, passou a soar menos desenfreada no peito, chegou ao ponto de abandonar a esfera crítica do real. Neste ponto, interrompi: como é que é? Esfera crítica do real? Ele confirmou, pouco se abalando com a minha ironia, percebeu que no plano concreto não havia nenhum sujeito que pudesse ameaçá-lo, então, passou a ter ciúmes do abstrato, do onírico, do espiritual. Não entendi. Ele explicou: sabia que uma pessoa que jamais teve a menor chance de rivalizar contigo pode ter os sonhos mais íntimos e mais sublimes justamente com sua mulher? Eu só poderia rir. Mas é verdade, ele continuou, os sonhos não podem ser vigiados, nos sonhos, qualquer homem poderia tê-la nos braços, delirar com ela, os sonhos alheios eram um espaço onde ele jamais penetraria, nunca poderia chegar ali e acertar um murro no meio da cara do filho da puta. E que importância tem isso?, questionei, deixe o cara sonhar, ora, ficará apenas nos sonhos, a mulher em carne e osso continuará sendo sua. Mas não!, ele me repreendeu, não diga isso! Você nem imagina as coisas que um cara pode fazer a sua mulher nos sonhos! Parecia totalmente afetado por aquilo. Ponderei: olha, esqueça isso, não apenas nos sonhos, mas também acordado, qualquer homem pode ver qualquer mulher, minha, sua, não importa, poderá vê-la e fantasiar o que for com ela, até com nossa mãe ele pode delirar, se quiser, e não poderemos impedi-lo. Ele batia na mesa, a mão fechada, mas está errado, está errado, não devia ser assim. Hilário aquilo! Tornava-se cada vez mais ilógico: cidadão, retomei, loucura tem limite, você quer agora controlar os sonhos, os desejos, as fantasias das pessoas? Ele discordou: não exatamente das pessoas e não exatamente quaisquer fantasias, mas apenas aquelas em que sua esposa aparecia. Desdenhei, convicto de estar diante de uma insanidade: ora, meu amigo, deixe disso. É a única zona de liberdade que o sujeito tem. Virou Stalin por acaso? Quer despojar o ser humano da única coisa que lhe confere o status de humano, a subjetividade? Tenha dó. Se fosse uma subjetividade que abarcasse sua esposa, sim, gostaria, ele confessou. O problema era como, como conseguir aquilo, ele soluçou. Começou a perder a graça, já estava patológico demais pro meu gosto: olhe, eu disse enfadado, não perca as esperanças, imbecilidades tão malignas assim são capazes de ganhar concretude, lembre-se que no século XX alguns países quase conseguiram liquidar o homem, desalojá-lo de suas tendências e anseios mais íntimos. Ele me olhou incrédulo: sério? Sim, respondi, sério, algumas ditaduras de esquerda e de direita foram tão perspicazes que individualidades inteiras resultaram em frangalhos ou em meros arremedos. Há ainda resquícios desse câncer aqui e ali. Ele me ouvia atenciosamente, as mãos cruzadas na altura do queixo, a cabeça balançando levemente. Mas onde entrava sua esposa naquilo tudo que eu estava a dizer?, perguntava, onde? Perdi completamente a paciência, bebi o resto de cerveja, pedi a conta. Fosse ao inferno com a esposa dele. Desisti.

Comentários

  1. Primeiramente, parabenizo-a pela premiação. Mas gostaria de que me confirmasse, pois tenho dúvida: esse é o texto vencedor?

    Um grande abraço!

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