Uma das decepções mais cretinas da vida é, sem dúvidas, a decepção de esperar durante uma semana, até mais, por um livro, recebê-lo das mãos do carteiro como quem recebe um bebê de poucos dias, ser tragado por toda aquela atmosfera grave, quase diáfana, que é ter em mãos um novo livro, e, quando chegada a hora de adentrar nesse universo novo, descobrimos que o livro é fraco, nada tem a nos dizer. Nos decepcionarmos com um livro é muito, muito chato. Ratos de sebos reais há anos, depois da Internet, viramos ratos de sebos virtuais também, e hoje o paraíso ou ponto de encontro sagrado dos ratos de sebo é, sem dúvidas, a Estante Virtual. Falamos aqui tão somente de leitores, pessoas que compram livros para ler, não queremos saber de colecionadores, tampouco de exibicionistas, mas, repetimos, leitores, essa corja que adora sofrer. Pois é! Por sermos leitores, nada mais que leitores, descobrimos que podemos comprar no mesmo lugar tanto livros maravilhosos quanto funcionais, podemos reaver livros esquecidos nas ratoeiras da memória, economizar na compra de livros que, mesmo com o frete, não raramente saem mais baratos do que nas livrarias, além de chegarem novinhos em folha na porta de nossa casa... Mas nem essa facilidade supera a cara de fuinha retorcida pro lado que é como ficamos quando lemos uma, duas, dez, cinquenta, cem, todas as páginas daquele livro tão esperado e, finalmente, quase sem querer, reconhecemos, sozinhos, dentro da concha da noite, inseridos no silêncio da rua, por companhia apenas os raios da luminária vermelha, reconhemos, miséria de vida!, que o maldito livro não valia um único centavo, tamanha é sua fraqueza em ser tão somente um livro ruim, um livro que jamais deveríamos ter pedido, comprado. Passamos a pensar, inconformados, talvez se não fosse tão virtual o paraíso, se tivéssemos tido a chance de folhear suas páginas, ler um trecho aqui, outro ali, perscrutar sua linguagem, talvez, quem sabe?, perceberíamos a esparrela antes de cair, inocentes, nela. Esse talvez se é um alento, uma espécie de consolo na madrugada em que se descobre o engano. Mas, agora, de dia, olhando de novo o livro abominavelmente inútil em nossa estante, nos perguntamos, será?

Comentários

  1. Deve ser coisa de momento. A leitura é para quem, quando, em que situação, etc? Pior é quando a gente escreve uma maravilha de noite e, no dia seguinte, percebe que escreveu uma boa porcaria.
    Abraço.

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  2. Isso já aconteceu comigo!

    abraços

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