domingo, agosto 15, 2010


Se você soubesse o tanto de reajustes entre o acordar e o prosseguir... ah, se soubesse! O dia é vazio, as possibilidades minúsculas, mas se vai tentando, há tanto, vai-se tentando transformá-las em gigantes. Voltar ao luxo de estar no centro de si mesmo, não à deriva. Baixa temperatura. Suor saindo fácil sob a pressão do algodão molhado. Pensar na morte não ajuda, na vida muito menos. Vai ficando tarde por dentro. A escuridão faz traça, qualquer pensamento é inutilidade correndo nos fios dos postes. Ou no ralo da pia. Ou no barulhinho das plantas. Beber demais ora ajuda, ora não. Mas há um costume estranho, pegou-se por aí: encher lenços de éter e aspirar até à exaustão. Outro: pingar mercúrio num pedaço de espelho. Fragmentos de prata com escarlate. Ignorar as dores alheias que por ventura empestam o ar do mundo. Que mundo?
Em alguns momentos, você sabe, podemos ser tocados pela sombra das árvores. Resto de felicidade mofada que por acaso o peito escondeu. Fumar sempre duas marcas de cigarro alternadas. Sentir-se severamente frágil, uma saudade absurda, invariavelmente do que não existiu.
Força antiga no varal. A boca retorcida pinga água com sabão. Querer estar perto dele. Já. Pra ninar o silêncio das noites e dos dias claros, de chumbo ou de sol. Chamaremos em pensamento. Põe tua mão aqui no meu colo, meu amor. Lá do outro lado do mundo, se você soubesse o tanto de reajuste... ah, se soubesse.

Um comentário:

  1. Ó,Állex, como queria saber o que é "o centro de si mesmo". Nem adianta dizer: "meu eu..." pois já somos dois.
    Meu Deus, como me tocou: "Põe tua mão aqui no meu colo, meu amor." Me senti menino, desprotegido, seguro no teu colo.
    Obrigado pelo texto, me alcançou aqui, do outro lado.
    Abraço.

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