Os irrealistas (trecho de romance)



Mal entrei no recinto, o fantasma me avisou:
— Não temos mais nenhum dos cinco sentidos. Aqui, só podemos perceber e sentir. Quer seja sol, quer seja lua, rabo de cometa, gente, clorofila, verme, espinho, grão... desimporta: não há mais mediação, ou sentimos tudo diretamente ou não sentimos nada.
Eu me assustei:
— Isso não é possível! Como vai se sentir o que quer que seja sem a mediação dos cinco sentidos?
— É possível, sim — ele refutou. — Pense num sonho longo: sente-se tudo, todavia, jamais se acorda. Nesse estado, não se enxerga, não se cheira, não se prova, não se ouve, tampouco se toca.
Não acreditei:
— Então, como você sabe que eu sou eu?
— Sabendo. Eu te sinto e te reconheço.
Mesmo querendo me controlar, mesmo me esforçando absurdamente pra não dar uma de mal-educado, berrei:
— Sente onde? Sente como?
O fantasma reclamou:
— Não grite! E pare com essas perguntas bobas. Não há um espaço ou uma maneira específica por onde percebemos a presença de alguém. A verdade é que sentimos uns aos outros. E isso basta. Assim como ninguém lhe apresentou ao sol e você, ao acordar, já se deparava com seus raios do outro lado do mundo, lambendo até sua alma.
— Mas o sol? — eu o interrompi. — O sol não é uma pessoa, é um astro!
— Não importa — replicou o fantasma. — No tempo em que se está aprendendo a ser gente, essa camada pouco importa e você sabe disso.
Não me contive, gritei de novo:
— Pois não acredito! Aliás, isso está muito confuso. Você não fala coisa com coisa. É um louco!
Estava, em verdade, revoltado. Talvez percebendo meu nervosismo, o fantasma riu. E seu riso me lembrou vagamente o de um amigo outrora vivo.
Só então reparei: estávamos num lugar estranho, um terreno baldio onde jatos de fumaça saiam do chão que era cheio de talhos profundos, porém, estreitos. Três pessoas por ali perambulavam, mas não pareciam interessadas em nós. Por vezes, se encostavam a uma parede repleta de buracos e se punham a espiar. Não sei exatamente o quê.
Ficamos calados, eu e o fantasma. Eu observava as pessoas, a parede, os buracos, a fumaça que escapava em espirais do chão. De repente, uma das pessoas foi embora. O fantasma voltou-se pra mim e quis saber se quem saiu era homem ou mulher, queria que eu descrevesse tal criatura.
Estranhando aquela reação, perguntei-lhe:
— Você é cego?
— É uma pergunta sem sentido, meu amigo — ele pontuou. — Todos os fantasmas são, naturalmente, cegos.
Minha irritação cedeu vez ao estarrecimento: meu Deus, todos os fantasmas são cegos! Qualquer coisa de unhas pontiagudas me cravou a garganta. Quando dei por mim, estava chorando.
O fantasma me consolava:
— Não, não se desespere... Veja: os sentidos não são importantes aqui.
Eu não queria lhe dar crédito:
— Como não são importantes? Está doido? Os sentidos são sempre importantes, afinal, são nossos verdadeiros guias!
Ele refutava:
— Desse lado, não nos guiariam a canto algum.
— Por que não? — duvidei.
— Porque não existem imagens pra decodificarmos; não há sons viajando no espaço; de nenhum canto partem os aromas; os sabores não se materializam; e nenhuma forma pode ser tocada. Compreendeu?
Eu nada entendia:
— E como se respira aqui? — questionei.
— Não se respira — ele garantiu. — Se não existe corpo, não há razão pra se respirar.
— Que horror! — eu gritei. — É uma miséria de vida então!
Ele me consertou:
— Não é uma vida — e me olhava meio severo. — Você está com esses acessos infantis porque quer, ninguém lhe disse que se tratava de uma vida, isso aqui é uma etapa apenas.
Eu insisti:
— Se não há sentidos, como você pode ter certeza de que eu sou eu? Como poderá separar o real da imaginação?
O fantasma se chateou:
— Mas que antipatia!
Me fiz de desentendido:
— Qual?
— A sua! — ele refutou
— Não estou fazendo nada — eu me defendi.
— Está, sim — acusou o fantasma. — Está enchendo minha paciência com essa bobajada de certezas e sentidos. Nunca houve qualquer certeza através dos sentidos e não se separa coisa alguma da imaginação! Enxergamos o que nos interessa; cheiramos o que estamos a fim; provamos unicamente o que nos agrada; tocamos naquilo que desejamos; e só ouvimos o que nos convém. Por que insiste em fingir que há uma verdade imperdível nisso?
Eu fiz cara de ironia:
— Bem, não é todo mundo que está atrás desse platonismo aí. Na maior parte do tempo, a vida se impõe, e dentro disso a que chamamos vida, precisamos dos sentidos, se não de todos, ao menos de dois ou três deles pra nos guiar.
— É mesmo? E pra onde eles nos guiam? Pro inferno? — tripudiou o fantasma.
Vi que a coisa estava esquentando. Por precaução, me calei. Não sabia se era possível uma briga com um fantasma. O lugar por si só já era tão esquisito!
Ficamos quietos.
Depois de um enorme intervalo, me sentindo bem mais calmo, voltei a indagar:
— Escute, objetivamente, se não me vê, não reconhece meu cheiro, não me escuta, não pode me tocar, como sabe que eu sou eu?
— Eu te compreendo — afirmou o fantasma. — A partir do momento que senti que era você, passei a te entender.
— Mas como? — duvidei. — Como me identificou?
— Eu te sinto, simplesmente — decretou o fantasma. — Desde o instante em que se aproximou de mim, eu te reconheci.
— Nada disso — eu o atalhei. — Você foi quem veio até a mim.
Ele riu, de modo suave:
— Você tem certeza? — questionou.
Novamente pensei: esse jeito de sorrir me lembra vagamente um amigo já falecido. Mas quem? Quem, meu Deus?
Antes de conseguir uma mísera pista, um nome, um rosto possível, tive uma baita tremedeira: é um fantasma, lembrei. Subitamente, essa percepção me deixou em pânico. E mesmo sabendo que sim, estava claro que ele era um fantasma, desde o momento em que pus os pés no recinto, era por demais visível isso, todavia, uma vez em pânico, não há jeito: a adrenalina sobe e nos desgoverna. Uns ficam estáticos, outros, desmaiam, e há os que, como eu, se mandam. Foi o que fiz. Virei-me, rápido como jamais aprendi a ser, e corri, corri tal qual um louco perseguido por um batalhão de inimigos invisíveis, o fôlego comprometido, os nervos à flor da pele, tratei, enfim, de cair fora.

[continua amanhã...]

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