Santa Maria em dois dias



1. Você atravessou o país. E para atravessar o Brasil é preciso descer em três aeroportos (Salvador-Rio de Janeiro; Rio-Porto Alegre; POA-Santa Maria) e subir em três aviões. Você tem problemas de circulação sanguínea e, obviamente, suas pernas incham nesse vaivém pelas nuvens do país. Mas é preciso não ser tão Drummond assim, é preciso rir e ignorar as pedras do caminho, é o que você pensa, por isso, durante a viagem, toma muitos cafés com menta, fala com seu grande amor através de torpedos (pela Claro, pois a TIM não funciona no extremo Sul), e vai lendo um belíssimo texto de Orhan Pamuk, chamado A maleta do meu pai.

2. “O escritor fala de coisas que todos sabem mas não sabem que sabem”, escreve com uma simplicidade rara Pamuk, logo depois de ter afirmado: “ser escritor é reconhecer feridas secretas que carregamos, tão secretas que mal temos consciência delas, e explorá-las com paciência, conhecê-las melhor, iluminá-las, apoderar-nos dessas dores e feridas e transformá-las em parte consciente do nosso espírito e da nossa literatura” (p.27). Amém, você diz.

3. Numa das paradas, o terceiro café lhe dá vontade de um Marlborozinho. Vontade abortada, você constata: não se pode fumar em canto algum, está escrito, pior: desenhado em todos os cartazes. Mesmo fora do aeroporto, no ponto de ônibus, no ponto de táxi, mesmo atravessando duas pistas, está escrito e desenhado em todas as pilastras: é proibido fumar aqui. Você dá de ombros e guarda o cigarro. Não faz mal. Não tem problemas em não fumar, assim como, há cerca de 20 anos, não tem problemas também em fumar dois, três cigarros por dia, sobretudo após um bom expresso. Você pensa o que terá acontecido com os verdadeiros fumantes, aquelas pessoas que consomem duas, três carteiras diárias, que têm pavor de voos e aeroportos e, numa hora dessas, acoelhadas por tantos cartazes de proibições, devem passar muitíssimo mal. Olha em volta e não vê, todavia, nenhuma dessas pessoas. Terão sido exterminadas? Desistiram de lutar? Acoelhadas, você lembra, é um termo de Lygia Fagundes Telles.

4. Mas quer saber? Desimporta. Você dá de ombros e segue em frente, afinal, acaba de atravessar o país e, nesse outro canto do Brasil, já devidamente em terra e acomodada, percebe, estupefata, que também há pessoas que falam alto em quartos de hotel. Pior: há mães que tentam corrigir o comportamento dos filhos aos gritos e filhos que correm nos corredores do hotel como se estivessem num playground, ignorando os gritos fracassados das mães. Mais: há rapazes de boné que ouvem música no smartphone, sem fone, porque decerto julgam ser universal o gosto idiota deles por sertanejo, assim como há outros hóspedes monstros que não apenas assistem à TV, mas a anunciam ao andar inteiro. E você achava que isso de incomodar deliberadamente o outro fosse coisa de soteropolitano! Ai, ai, caramba!!! Você interfona à portaria e reclama: menos circo, por favor.

5. Os hotéis têm qualquer coisa melancólica que você não consegue explicar, e se ficam em rodovias, são ainda mais esquisitos, ainda que confortáveis. Esse se chama Park Hotel Morotin, e é rodeado, de fato, por um parque: verde tão verde a perder de vista. Ao fim da jornada, neste hotel, você abre o diário e escreve que atravessou ou desceu o país, geograficamente falando, e, assim, pode agora constatar que há taxistas e garçons gentilíssimos, há pessoas na rua que não se incomodam em parar pra te dar informações, bem como pessoas que sorriem gratuitamente pra você (ou seria pra ti?). Mais: aqui o sol se levanta tarde, às 6h40, o que lhe faz perguntar: não deveria ser às 5h? Pior: o sol se levanta tarde e se põe às 20h30, e não às 19h. É preciso jantar com o sol batendo no vidro do restaurante do hotel. É muito estranho porque, num efeito psicológico talvez, você vê o sol na janela e acha que não, não é hora de jantar! Vê o sol e acha, realmente, que não tem fome agora – muito embora seu estômago esteja lhe dizendo, neste momento, um sonoro “Epa! Não é bem assim!”

6. Os shoppings, veja você, são ainda mais iguais, repetem as lojas, os preços e mesmo as disposições das lojas e praça de alimentação. É como se fossem obrigados a uma lei invisível da repetição. Mas espere... Nesse Le Royale surge algo diferente: “prezado cliente, aproveitamos a água da chuva para nossas descargas”, avisa um cartaz no banheiro. Que simpático!, você pensa, todos não deveriam fazer assim?

7. Exceto por esse rasgo de consciência ambiental, você percebe que há uma lei universal da qual ninguém escapa – a lei da mesmice –, é o que abre as asas sobre nós. Donos de cachorros conversam com seus pets com aquela vozinha caricata de criança que você acha insuportável. E os pets respondem latindo, como todos os pets de todos os cantos do mundo, os olhinhos cheios daquela vontade tão antiga de dizer: “não sou criança, meu caro, por incrível que pareça, sou um cão!”

8. O shopping fica quase em frente à Igreja Nossa Senhora das Dores, que é muito parecida com todas as igrejas católicas por onde você já andou. E é nela, agora, onde você se senta, pronta pra beber o silêncio vertical dos vitrais. São minutos, horas talvez, dentro da paz colorida dos vitrais. Antes de ir, você se ajoelha, a fim de agradecer o lado bom da mesmice: o silêncio fundamental de todas as igrejas. Ah!, estava realmente precisada! Obrigada, amém.

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