Depois, ela foge. Foge pro telhado, pro jardim. É incrível como sabe escapar rápida. Como quando éramos namorados e brincávamos de nos perder nas novas cidades que visitávamos. Chegamos a passar quase uma hora no centro do Rio de Janeiro a procurá-la, íamos e vínhamos feito barata tonta, enquanto ela se escondia num sebo de livros e vinis, divertindo-se em nos olhar de quando em quando, protegida pelas estantes.
Basta que nos lembremos disso, pequeno infinito detalhe, pra acharmos os lábios dela, soltos, descolados, como pedaço de porcelana, rindo de nós. Antes do sono, os lábios dela voam pela janela. Dá adeus, se escondem entre as persianas, em cima do telhado, molhados de chuva, os lábios dela, gritando, cantarolando, menina, tão menina, bruscamente, fica séria e nos diz que não, não será mais possível, ela está cansada, não quer mais.
Mas não, querida, dissemos a despeito de toda a tristeza que vem se achegando, sorrateira, não entregue os pontos. Ainda não os perdemos. Os sonhos, os dedos, os anéis, os venenos. Estamos vivos, vê? Acharemos a medida certa. Acredite. Continuemos. Em frente, em frente.
Não ter conseguido colher toda a beleza do que nasceu entre nós tão espontâneo, tão real, machuca demais. Porém, não façamos drama. Não há nada a lamentar. Vamos andar na cidade, fazer dos nossos pés uma arma pra romper a névoa. Arma certeira. Não há outro jeito. É preciso prosseguir.

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