terça-feira, dezembro 19, 2006

Porque brilha


Toda vez que a porra bate em seu estômago, ele não agüenta. Tira os olhos da vida porque em nada há de caber com esse corpo e essa dor. Enjoa, sua dor é só um enjôo crescendo e tomando conta da boca. Parece sem sentido que se trabalhe tanto apenas pra se conseguir isto: minúsculos comprimidos. Cápsulas de cores tão vivas. Joga toda sua energia toda atrás disto, em torno disto, buscando isto. Machucado com vodca. Vinho tinto. Conhaque. Mas bem que ele prefere com uísque. Sim, o que mais gosta é com uísque. Dois, três. Esprimidinhos no fundo do copo. Mudando a cor da bebida e dos olhos. De todo e qualquer objeto que atravessar o campo dos olhos. Na hora é tão bom. Tudo é excessivamente brilhante. Vê um cara de terno escuro com um guarda-chuva laranja. O cara brilha como se fosse de inox polido. Prata. Lataria banhada de sol. Sabe-se lá mais o quê. Mas, não, espere: o guarda-chuva ficou vermelho. E dói nos olhos. Gostoso ver como o vermelho brilha. A vida não podia ser apenas um vermelho que brilha? Todavia, já está virando roxo. Por quê? Miséria. Perde-se tão facilmente aquilo que se conquista a ferro e fogo. Tudo bem, tudo bem. Não importa. Agora: azul-turquesa. Hein? Ah, verde-exército. Rosa-chiclete. Porra, de repente fica preto e perde todo o contraste com o terno escuro que o cara usava: marrom de óleo diesel. Foda-se. Quem vai se matar por causa de um guarda-chuva? Quem, cara pálida? Segue andando, pouco importa, senta na Praça do Medo, embaixo da estátua de pedra em homenagem ao livro. Ao ato de ler. Quer parar de ver bolhinhas pipocando no horizonte. Não pára. Se lembra que devia ligar pra alguém. Um amigo/amiga. Silvinho? Cris? Violeta? Zeca? Quem? Podia ligar pra Helena, mas não: Helena vai se queixar que Fernanda ainda não chegou de viagem, que isso a deixa muito preocupada, e patati-patatá. Mulheres sapatas. Bah! Que saco. O enjôo de novo. Grita que tem tanta dor dentro de si que quer explodir toda a cidade. Vai vomitar, não vomita. Um travesti pergunta se ele quer trepar. Dá o braço a ele/ela. E vão caminhando. Pra onde? Não sabe? Pro seu apartamento, ele diz, ou pro meu. Me dá um cigarro. Você tomou bola, gatinho? Porra de gatinho, me chame pelo meu nome. Mão suada presa na sua. Riso alto. Você vai ficar de quatro pra mim, vai? Até de oito, meu amor. Tô ficando enjoado de novo. Por que, benzinho, por minha causa? Segura a mão do outro, mais forte. Não, por você não, você é jóia. Passa o braço na cintura do travesti. Aperta: não me deixe cair, eu estou tonto. Toda vez que essa porra bate no seu estômago, ele não agüenta. Segura a bolsa do travesti, enquanto o vê abrir a porta de entrada do prédio. Um gato mia, imitam-no, subindo as escadas de dois em dois degraus. Ele vai atrás do outro e lhe dá uns beliscões. Parece ser bonita aquela bunda na sua frente. Mas, não, caralho, vai vomitar, agora, não!, se segura. Não vomita. Começa a passar lentamente. Eles se beijam na boca quando entram no apartamento. Está ficando meio vidro perdido no escuro. Os brincos do outro. Balançando. A única luz vem do letreiro do bar lá de fora. Quer beber alguma coisa?, o travesti pergunta de mão cravada no pau. Quero. Uísque, tem? Dos bem baratos, gatinho, é só o que eu posso comprar. Faz mal não, serve. O travesti se afasta pra buscar a bebida. Bruno tira outro comprimido e põe na boca. Mais outro. Você toma tanta bola assim, gatinho? Vê se tira logo essa roupa cheia de rendinhas, tá me irritando o peito, ele reclama. O outro ri, vai tirar já-já. Gatinho, gatinho, mania mais besta... Fica de costas. Pisca os olhos. O cara de paletó marrom de óleo diesel de novo. Está molhado de chuva. Começa a chover horrores na sala do travesti. Casa com goteiras. Que nada, o outro diz, não tem chuva alguma, venha cá, benzinho, vem. O paletó ficando cinzento, prateado, dourado, bronze. Ele adora tudo que brilha. Mordem-se no pescoço. Toda vez esse revirar no seu estômago, enquanto na cabeça ele ouve blim, blom, blim, blom. Tem sinos na sua casa, cara? Tem não, meu amor. O travesti tira toda a roupa e cai no sofá. Bruno tira o membro pra fora, desce as calças até os joelhos e vai naquela direção. Mirando o meio das pernas do outro. A bunda do outro realmente não é nada mal vista assim. O cara aparece novamente, está sem o guarda-chuva, Bruno não consegue entender. O paletó tem remendos nos punhos, isso é novo, nunca se reparou antes. Mas não, não pára, brilhe, brilhe forte, assim, até o final. Agora é mais que vidro perdido na escuridão, é meio fosforescente também. Ele é alucinado por coisas que brilham. Mesmo que essa porra continue fazendo peripécias no estômago, a sensação do amor, de repente, a encobre. Bruno olha os braços do outro apoiados no sofá, sustentando o corpo, as pernas se dobrando abertas, quase de quatro e dizendo sacana “só fico assim pra você, amor”, ao que ele responde: yeah, eu sei, eu sei.

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