Vim ver o Roberto, cara!



1. Feira de Santana ensaia uma chuva desde cedo. Manhã de chuviscos, início de tarde nublada. Prevista por todos os telejonais e rádios, a chuva é um dos medos de quem veio ver Roberto. O Estádio Jóia da Princesa só tem proteção no palco — lugar naturalmente feito pro Rei — e nas arquibancadas especiais (um toldo branco pouco confiável). Mesmo as cadeiras azuis (R$ 380,00), as amarelas (R$ 290,00) e as brancas (R$ 170,00) não foram cobertas, assim como as arquibancadas gerais (R$100,00). As senhoras precavidas que trouxeram seus guarda-chuvas não poderão contar com eles: à porta, os seguranças revistam e tomam qualquer objeto, alegando que podem funcionar como arma. Na saída, as senhoras podem pegá-los de volta, explicam os rapazes de ternos escuros. Na saída não adianta, precisamos da sombrinha lá dentro, reclama uma senhora de vestido verde chiquérrimo, cabelos quase totalmente grisalhos. Mãe, fique calma, não vai chover, atalha a filha, voz grave, vestido prateado, sapatos de 15cm. E se chover?, teima a senhora. Não vai não, mãe, São Pedro não vai fazer essa judiação com Roberto, rebate a filha, numa segurança que faz a fila toda ficar mais calma e acreditar.

2. Sabendo que São Pedro não vai judiar de Roberto esta noite, entramos felizes no estádio, uma hora antes da hora marcada no ingresso. Os fãs do Rei têm idade variada. Nos portões podem chegar famílias inteiras, casais apaixonados, turmas de amigos que se abraçam, playboys ultrapassados com jaquetões de couro. Mulheres mais afoitas gritam que o Rei é uma delícia, outras prometem pegar uma das rosas por ele jogadas, nem que seja na unha! Os homens são mais discretos, trocam apertos de mão, dizem uns aos outros quanto tempo! Só assim te vejo, não? Pois é, rapaz, vim ver o Roberto. Vim ver o Roberto é a frase que mais se ouve entre os amigos, conhecidos e colegas que se reencontram nesta noite. Uma justificativa pra se sair de casa numa sexta-feira com ameaça de chuva? Uma razão pra se estar num estádio cheio de gente pra todo canto? Um índice de intimidade? Sim, você bem sabe que, tanto em Feira quanto no resto Bahia, não colocamos, normalmente, artigo definido à frente de nomes próprios. Por isso, vim ver o Roberto é um refrão, no mínimo, curioso, a se repetir na boca de senhores e rapazes. Até o taxista que pegamos soltou esta: nossa, tinha até me esquecido que o Roberto está em Feira!

3. Em todos os lugares, há moças indicando em qual fileira de cadeira está o número que você comprou. Quando, mesmo apontando-a, você não acerta seu lugar, as moças vêm sorridentes, a ensinar. As pessoas chegam aos seus lugares e cumprimentam a fila inteira, como se fossem vizinhos, amigos, conhecidos. Vim ver Roberto com meu poeta, e, fora uma colega de trabalho com quem me bati e uma amiga de quem me desencontrei, não conheço mais ninguém por perto, mas tanto eu quanto João Filho apertamos as mãos estendidas e respondemos aos boas noites calorosos de quem chega às cadeiras amarelas. Ou é um hábito feirense ou é porque todo mundo veio ver Roberto, penso comigo. Sim, uma dessas coisas, quiçá, ambas entrelaçadas.

4. Nunca assisti a um show do Rei. Não me pergunte a razão, pois não saberei lhe dizer o motivo dessa minha estupidez. Há alguns anos, prefiro a varanda da minha casa, e só me desloco pra ver Morrissey, nas poucas vezes que ele decidiu vir ao Brasil. Morrissey não tem nada a ver com Roberto Carlos, dirá você. É verdade, embora ninguém tenha lhe perguntado coisa alguma, certo? Isso esclarecido, eu e meu poeta ficamos na primeira fileira das cadeiras amarelas, porque quando fomos comprar os ingressos, os clientes credicard já haviam escolhido as melhores azuis, só restando lugares ruins, que não justificavam o primeiro preço. Meu irmão mais velho, que já viu o Rei outras vezes, nos preparou pro que podíamos esperar: a) Roberto não se atrasa muito, de 15 a 20 minutos, em geral; b) o show não tem bis; c) normalmente, dura 1h; d) ele não vai cantar Quero que vá tudo pro inferno; e) deve terminar com Sereia.

5. O show estava marcado pra 20h30. Às 21h20, o Rei entrou no palco, debaixo de uma explosão de aplausos e luzes de celulares, de terno branco, camisa azul aberta no peito, calças azuis. O show é mega em todos os sentidos. Que carisma, que serenidade. Mesmo em momentos nos quais a voz dele já não alcança as notas — são 75 anos recém-feitos —, ele dá um jeitinho... Improvisa, recita, brinca, dirige. Entre ele e o público há tanta familiaridade que, de repente, um feirense mais animado aproveitou o silêncio entre uma música e outra e berrou o convite: venha morar em Feira, Roberto!

6. E a orquestra do Rei, ave maria!, que se pode falar desses músicos? A palavra perfeição ficou pequena de repente. Tudo é límpido, tudo é denso, tudo é no quilo, tudo é fiel, como se tivéssemos as melhores caixas, os melhores amplificadores do planeta, e puséssemos aquele nosso vinil em volume máximo. O Rei é justo e festeja sua orquestra devidamente: apresenta, elogia, destaca, brinca com os músicos. Não menciona os nomes por trás da poderosa iluminação, mas é outro ponto fantástico no show. Nunca vi nada igual, nem com artistas brasileiros (no tempo em que vivia colecionando shows), nem estrangeiros. É um banho de luz — azul, dourada, branca, verde — que se acende quando começa uma nova canção, que se apaga quando o Rei a termina, e, de vez em quando, também apanha toda a plateia, como se fôssemos partir juntos, numa imensa nave espacial. De qualquer lugar do estádio, vê-se perfeitamente o rosto de Roberto, suas rugas, seu sorriso, bem como todos os detalhes do palco. Há telões, é claro, mas quem quiser pode se esquecer deles. Penso que talvez a iluminação do show do REM, no terceiro Rock in Rio, quando me desloquei prum Rio de Janeiro infernal, em 2003, chegue perto desse espetáculo. Perto, mas não supera.

7. Ouvir o Rei no meio da multidão me remete a um tempo outro, em que me sabia menina, em Bom Jesus da Lapa. Roberto foi meu primeiro amor. Minha primeira paixão. Devia ter uns nove anos, quando descobri que o amava. Lembro do dia dessa descoberta: algum bar perto de casa tocava O divã e eu não conseguia dormir. Rolava na cama, sentindo algo bastante estranho: um peso no coração, uma vontade sobrenatural de chorar. Quando punha a atenção na letra, a vontade de chorar triplicava. Por quê?, eu me perguntava, se ninguém me fez nada, ninguém puxou meu cabelo, ninguém me bateu, por quê? Antes do amanhecer, a verdade se desnudou entre as susis, as barbies, os pôneis de cabelos brilhantes e a bola dente de leite com o escudo do Vasco (presente de meu pai). Estou completamente apaixonada por Roberto Carlos, compreendi. Vou esperar o sol nascer pra ter certeza. O sol nasceu, vi que não era dia de aula, então corri à radiola e pus um disco do Rei, a fim de dirimir todas as dúvidas. A ideia era ouvir uma música sem história romântica, pra ver se aquele peso voltava tão forte. Pus Amigo, que sempre me alegrava, por causa do naipe de metais. Mas não deu nem pra chegar ao refrão: a vontade de chorar voltou arrepiando até os móveis de massaranduba da sala. Não havia mais qualquer dúvida, estava apaixonada pelo Rei. Foi um dia de olhos insones, em que evitei falar com as pessoas, em que busquei o silêncio, a paz do quarto. Não podia avisar minha descoberta a ninguém, mas já estava tudo preto no branco pra mim: eu amava Roberto tanto quanto ele confessava amar sabe-se lá quantas mulheres nas canções. À época, soube pelas revistas que o coração dele tinha oficialmente uma dona. Por isso, quando os adultos me perguntavam o que queria ser quando crescesse, eu rebatia na lata: Myriam Rios. Para ser atriz?, indagavam ao meu redor. Não, pra ficar com o Rei, eu explicava — o que, obviamente, provocava risos, quando não censuras.

8. Durante anos vivi intensamente meu amor por Roberto Carlos. Era minha paixão em todos os natais, quando ganhava seu novo disco de presente. Meu horizonte em todas as viagens quando íamos pra Santana ou Vitória da Conquista, no fusca do meu pai, ouvindo o Rei nas fitas cassetes, e todas as estradas estampavam o sorriso dele, ecoavam a voz dele, replicando seus amores feitos e desfeitos. Desenvolvia manias malucas, como quando o Cine Marabá anunciava a soirée aos casais, tendo ao fundo Na paz do seu sorriso, É preciso saber viver, Como é grande o meu amor por você, A primeira vez, Rotina, e eu anotava os títulos dos filmes e as canções de Roberto selecionadas pra propaganda daquela sessão. Ou quando alguém dizia sua canção preferida do Rei. Anotava no caderno como se diante de algo importante. Minha mãe, por exemplo — descobri num baile no Colégio São Vicente, em Bom Jesus da Lapa — não podia ouvir Nossa canção. Uma amiga pediu que tocassem essa música em sua homenagem e, surpresa, vi minha mãe chorar feito criança. Um ex-namorado de minha irmã me confessou que gravou De tanto amor infinitas vezes numa fita cassete, e guardava-a pras noites de bebedeira. Mas para quê anotava tudo isso?, você perguntará. Pois é, também gostaria muito de saber.

9. Enquanto o Rei canta, o vivido explode nalgum canto da memória. O show dura mais de 2h. Ele canta Quero que vá tudo pro inferno, sim!, entre outras pérolas como Sua estupidez, Se você pensa, Detalhes, Desabafo, Ilegal, imoral ou engorda, Outra vez, Lady Laura, Como é grande meu amor por você... Realmente não tem bis, mas ele passa mais de 15min distribuindo rosas (brancas e vermelhas), à plateia. Se despede com tchauzinho, enquanto a banda termina Jesus Cristo. Foi um prazer, diz uma família sorridente ao nosso lado, — mãe, vó, filha e filho —, estendendo-nos a mão, em despedida. O prazer foi nosso, respondemos. A multidão vai saindo, devagar, pelos portões estreitos. Lá fora, meu irmão e a esposa nos esperam pra brindarmos a noite com vinho francês e fondue de queijo e chocolate. Afinal, viemos ver o Roberto, cara!, e São Pedro, de fato, não judiou de ninguém.


Comentários

  1. O prazer de ver o rei gerou um novo: o prazer de ler seu texto.

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  2. Que coisa boa de ler, Lora. Emocionado aqui, porque, sabe, bicho, também tenho um amor por esse Rei. Amor de Rei para Rei, amor Real.

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  3. Daqueles textos que fisga o leitor....

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