Série: a difícil-incrível arte de viver - parte IV



A BELEZA DO MUNDO

1. São 16h12 de uma agradável segunda-feira. Tomo meu café vespertino na varanda e ouço minhas baladas preferidas dos Scorpions - com fones, é claro. Mas logo sou obrigada a retirar os fones pra assuntar o mundo: um menininho tenta andar na rua Recife, guiado pelo pai. Deve ter 1 ano, e é todo desajustado com o espaço, parece que quer andar até com a cabeça, tamanha é a força com que se joga a cada passo. Braços, pernas, cabelos vão juntos na passada, enquanto o pai segura na mão dele e o estimula: vamos, mais uma vez, vamos, meu filho, vamos!

2. Há momentos em que o neném para e arfa. Olha a calçada, olha o pai, olha pra frente. Daqui não posso ver a cor dos seus olhos, tampouco conjecturar o que expressam. Talvez duvide que essa seja a forma certa de se aprender a andar. Quem sabe considere uma tarefa cansativa, uma brincadeira sem futuro que o pai lhe inventara nesta tarde morna. Mas, pelo sim, pelo não, ele toma fôlego e ergue o pé, como quem vai chutar o universo. O corpo todo segue junto, e o neném se desequilibra, pende prum lado, enquanto a mão do pai o segura e o conduz, de novo, ao centro da calçada.

3. De repente, temo que ele ultrapasse o ensinamento paterno e voe, pois agora se atirou pra cima, e não pra frente. Mas o pai estava atento e o impediu de virar pássaro, avião, nave espacial, super-homem, e sair afoito pelo mundo. Devagar, meu filho, diz a voz grave do pai, devagar.

4. Os carros passam pela Recife, alguns diminuem a velocidade e espiam o acontecimento. Creio que rapidamente constatam que:
- não é um escândalo político;
- não é uma rebelião de presos;
- não é uma saída pra crise;
- não é uma estúpida atriz hollywoodiana relinchando em público;
- ninguém está cometendo racismo, homofobia, misoginia ou golpe;
- é apenas um ser humano aprendendo a andar.
Decepcionados, os condutores aceleram e sobem a Carrascoza, ou entram sem dar sinal na Belém do Pará.

5. A voz do pai ignora a desatenção dos donos dos carros, ressoa, firme, paciente, no largo: vamos, meu filho, um, dois, três, muito bem, muito bem, meu filho, mais um!

6. Que processo, penso eu, na varanda, terminando meu café. Como somos minúsculos, como dependemos da boa e infinita vontade do outro. Haverá alguma outra criatura cuja condição de existência seja tão frágil e constrangedora quanto a nossa?

7. Mais tarde, o garotinho andará automaticamente, e mesmo sabendo que não há lei alguma que nos garanta o equilíbrio entre um passo e outro, jamais poderá se lembrar desse verão na rua Recife, início de 2017, em que a mão do pai o conduzia e o livrava de se esborrachar no chão, a cada nova passada.

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