Série: a difícil-incrível arte de viver - parte II



DO QUE FICA NAS VIAGENS

1. Duas horas andando na noite lusitana pra se perceber: Salvador e Ouro Preto me estragaram as vistas, pois todo pedaço de Lisboa me lembra algum lugar onde já estive. Lisboa, no entanto, é mais limpa. Tudo é velho e tudo funciona muito bem (estranho axioma para uma brasileira). Mesmo diante da sensação de que virando a próxima esquina vamos sair no Santo Antônio soteropolitano, andamos sem cessar. Pense que é possível andar na Baixa dos Sapateiros às 23h. Sendo esta Baixa limpa e organizada. Pense que nela há - em vez de comércio fechado, lixo nas calçadas e pessoas te ameaçando - um vento de outono, sangrias vistosas em jarros transparentes, burburinho de palavras cujo significado te escapam e restaurantes com cadeiras na porta. É quase isso.



2. O café da manhã no Borges Chiado não é nem de longe o maravilhoso café a que estamos acostumados nos hotéis do Brasil. Há três ou quatro tipos de frutas, todas inteiras e com casca, dois tipos de iogurte, pães estupendos, dois tipos de feijão sem caldo (feijão?!), uns ovos mexidos feios tão feios, ovos cozidos ainda com a casca, linguiça, pepino e tomate. Volte e novamente registre, pasmada: pepino e tomate?! Sim, alguém os come pela manhã, supõe-se! Mas café da manhã em hotel é detalhe menor, porque se come divinamente bem e barato em qualquer canto da cidade.



3. Estamos naquela passagem bíblica da Babel, quando todas as línguas do mundo são ouvidas, e a mente, tensa, quer codificá-las: isso é francês; aquilo é alemão; inglês, claro, inglês nunca há de faltar; quero saber quando falarão o português de Portugal... Agora ficou bastante estranho, será alguma variação do alemão? Esses senhores são bochechudos e rosados, russos ou poloneses? Consoantes, consoantes, ainda bem que não falo essa língua, ficaria cansada no fim do dia, não há nada mais cansativo do que atravessar uma sequência de consoantes; agora obviamente é espanhol, um espanhol um tanto mais difícil, decerto, europeu; de repente, palavras conhecidas no meio do oceano: "poxa, eu queria mesmo era um suco de limão", brasileiro, óbvio, parece carioca; mas brasileiro não vale, quero ouvir os lisboetas, afinal, onde estão? Esse espanhol é mais fácil, deve ser das Américas, cristalino como água, chileno? Opa, italiano, ah!, italiano!, esse ritmo com que abrem as vogais; japonês, tenho certeza, não vi aquele mundo de filmes em vão... Que vem a ser isso, meu Deus? Outra língua oriental? Árabe? Se seguirmos o esterótipo visual, provavelmente árabe... Mas espere: quando falarão o português de Portugal?



4. Fernando Pessoa espalha-se por todos os cantos, em estátuas, dizeres, camisetas, canecas, chaveiros, ímãs, mas no Largo do Carmo alguém exagerou: em todas as janelas de um prédio antigo há imagens de Pessoa. Desenhos na vidraça, com tinta preta e figuras a partir do que parece ser um aramado(?). João Filho fotografa. Seguimos as janelas e damos com uma porta lateral, onde há mais Pessoa retratado. Concluímos ser uma fundação ou uma exposição sobre o poeta, embora não haja qualquer identificação. A porta está entreaberta. Entramos. Numa antessala, há uma estátua de Pessoa, sentado, uma escrivaninha, máquina de datilografia, cadernos, cadernetas, livros, quadros. A luz é esverdeada e ao lado do poeta há uma cadeira vaga. Me sento e converso com ele. João Filho tira fotos. Seguimos por um corredor. Há mais portas de vidro e a cada porta que passamos mais representações: de Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis... Na sala principal, um senhor careca está sentado e lê um livro. Quando nos vê, se volta e indaga se pode nos ajudar. João Filho explica que fomos atraídos pelas imagens de Fernando Pessoa, como a porta estava entreaberta, julgamos que era um museu ou fundação. O senhor nos olha com reprovação, balança a cabeça e diz: não, isso é uma Gestalt, logo, não deveriam estar aqui, pois é para convidados. Espantados, pedimos desculpas e saímos, às gargalhadas. Na saída, avistamos um grupo enorme de turistas que também vinha atraído pelas imagens pintadas nas janelas. Falavam em inglês e obviamente iriam repetir o nosso erro. Pensamos em avisá-los: é uma Gestalt, só entrem se forem convidados. Depois repensamos: quer saber? Aquele senhor que ponha um cartaz avisando dessa restrição. Quer deixar tudo escancarado numa cidade que recebe hordas de turistas diariamente e não ser incomodado? Fosse no Brasil, até a careca dele seria roubada. Mas que diabo é uma Gestalt?, resmunga João Filho, indignado.



5. Não sei o que falar dos monumentos, do Mosteiro dos Jerônimos, da Torre de Belém, do Padrão dos Descobrimentos, do Castelo de São Jorge, da Catedral da Sé. Realmente: não sei. Você, se os conhece, que me diz?



6. Em Braga, a irmã do poeta Sebastião Alba nos mostrou uma Catedral que tem pouco mais de 900 anos. E ela aponta e fala num tom absolutamente normal: 900 anos. Tá, venho de um país que tem 500, que devo dizer? Para com isso?



7. Os diálogos roubados me apaixonam e sempre volto com páginas deles. Na Alfama, uma senhora falava ao telefone:
- Pois não quero que ela fique ressentida, ao contrário, desejo que seja livre, e que fique com muitos gajos também.
(Com muitos gajos?! Que desejo formidável pra se direcionar à outra criatura!)
Na fila da exposição de Joan Miró, uma menina de oito ou dez anos, parecia chateada e falava com a mãe:
- Mas eu preferia ver o Goya!
E a mãe, com enfado:
- Disso eu já sei, não é preciso repetir!
(Eu quis gritar à menina: eu também preferia o Goya, querida!!!)
Um cego, na rua Garret, nos pede passagem:
- Vós que estais à frente, deixai-me passar, por favor.
E o morador de rua:
- Uma ajuda a mim é possível a vós?
Reclamei com João Filho: olha essa sintaxe, quando eu for escrever isso no meu diário, não saberei onde pôr a vírgula. Não tem vírgula, ele rebateu.
Mas numa livraria do Porto, nasceu meu diálogo roubado preferido de todos, ao telefone, o livreiro dizia:
- Não, não me mande esse, porque estou a preferir traduções de poetas, e esse senhor não me parece ser um poeta, logo, esperarei sair a tradução do senhor Pinto, porque este, sim, é um poeta.
(Que critério excelente, pensei! Não sabemos quem é o senhor Pinto, pena, não? Quando teremos um raciocínio tão claro assim?)






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