domingo, dezembro 19, 2010

LEILLA, Állex. Primavera nos ossos. São Paulo: Casarão do Verbo, 2010. 278p.

Trecho do romance:

Entre o bambuzal, a luz fraca das 4h:30, 4h:40, quase 5h:00 da manhã. Enquanto o sol se desloca invadindo a cidade, a sombra do rosto dela vai de poste em poste. Passando, repassando, qual janela de carro, capturando, refletindo-se nos pedaços da paisagem. O rosto dela. O contorno oval, exalando cheiro de gente machucada. O centro vago, escondido atrás dos cabelos. Podemos dizer sem erro que é de vento e areia o meio da cara dela. Mas não, diremos melhor: na verdade, o vento, a areia, o rosto e os cabelos pouco importam, a verdade é que ela emerge do inferno, a verdade é que ela retorna à vida. Embaçada. Descongelada. Sozinha. Assim:
Levanta-se. Confere a roupa um tanto rasgada, suja de sangue. Ajeita-a. Passa as mãos sobre o tecido tentando limpá-lo. Em vão. Conforme Dante, no inferno faz frio de travar os ossos. Movimentos pelo avesso. Anda devagar como se ainda carregasse por dentro o torpor do susto levado horas atrás, ao se certificar que se tratava, de fato, de um ataque.
Beira de morte, amputação.
A pancada.
A bordoada.
Basta trazer à tona uma faísca do vivido que, feito relâmpago, no automático, a lembrança da agressão vem viva: uma serpente à espreita, um dragão preparando a cusparada de fogo.
Sacode a cabeça, evitando que a faísca pegue fogo, atraindo-a novamente pro olho do incêndio. Concentra-se nisto: despistar o registro da agressão na memória, carvão em brasa lhe trazendo tontura, imprecisão. Despistar e cuidar de outra realidade que lhe crava a carne desde que abriu os olhos: a dor. Mais forte que a lembrança do ataque sofrido, o que lhe perfura a carne é a dor de alicate puxando os dentes. A dor de água escaldando pés, mãos, pescoço, sexo, seios. Principalmente ali, nos bicos dos seios mordidos. E as marcas de roxo pisado, ela murmura, apalpando-se, sairão algum dia?

* * *

Fácil é pensar em falar com ele. Não como quem retorna de uma rápida perda de consciência e, confusa, põe-se a dialogar com o que não existe. Não isso de borboleta errante procurando pouso em flores baldias. Que isso, apesar de bonito, é torto e não ameniza dor nenhuma.
Nada de inventar fugas, reticências ou abstrações. Se pudesse estar olhos nos olhos com ele, comentar qualquer bobagem — não da dor, da dor agora não —, cercar-se de coisas leves, comentários sobre a primavera, sobre café expresso com creme, sobre a temperatura certa do vinho tinto, sobre fumar ou não fumar cigarros mentolados, sobre as condições do tempo em Salvador. Algo meio folha de amendoeira ao vento: leve em suas reentrâncias avermelhadas, inútil em sua função original. Que amigos, amigos verdadeiros, ela leu em algum lugar e ainda se lembra, precisam apenas de proximidade, não de conteúdo ou confissões. Precisam é estalar a língua no ar, chegarem a um palmo do coração do outro, mas não adentrarem, permanecerem do lado de fora, feito guardiões que contam histórias pra enganar o amanhecer.
Uma conversa apoio para o corpo, uma conversa pilastra, coluna grega pra escorar a dor. Escore esta hemorragia, querido. Faça em segredo uma simpatia pro corpo se endireitar de novo, pra dor ficar comportadinha. Não tão aguda. Boazinha na vitrine, como dizia Baudelaire, redizia Ana C., rediremos agora, por que não?, boazinha e anestesiada, por favor.
É preciso um passo, depois outro. Dentro do inferno, sobra monóxido de carbono. De dentro do inferno, deve se sair de fininho, mas com precisão.
Novamente, o renascer. Cante uma canção antiga: te furamos com espinho, você era rosa e não sangrou; te furamos com agulha, teu corpo era novelo e se bifurcou; te furamos com a mão de Deus, você era deusa e graciosamente desviou.
Tão simples pedir ajuda a ele.
Tão impossível obter.
Um demônio toca piano.
Ou seria clarineta?
Um demônio dança longe.
Ou seria dentro?
Enquanto tenta localizá-lo na mente, falar de tudo, menos da violência, com ele e tão somente com ele, sente o mundo, o tempo escurecer. Tropeça na fraqueza: tonteira e despreparo pra arrumar os acontecimentos. O canal da mente se fecha. A imagem dele some.
Desgraça.
Desaparece aquela voz serena, aquela calmaria de lençóis de cetim que é estar aninhada a ele.
Miséria.
Como chegar perto, como aspirar de novo detrás da orelha dele aquele cheiro que só naquele cantinho da orelha dele tem?
Alisar os cabelos dele, encostar levemente os lábios, dizer eu fui violentada, meu amor.
Assim sairia do inferno, assim estaria de volta à vida.
Bastava pensar no acontecimento, deveria dizer assim mesmo o que lhe sucedera? A-con-te-ci-men-to?
Não, não tem problema, entre eles jamais existiu qualquer segredo.
Bastava pensar, pra perder outra vez voz, olfato, visão.
Comichão maldito se estrebuchando: como organizar tudo em meia dúzia de palavras?
Não, não tem problema. Mais linguagem do que ela era capaz de inventar no dia a dia de sua agência? Ora, quem mais? Podia vender qualquer coisa manipulando as imagens, as palavras, qualquer coisa, caros senhores, prezadas senhoras. Não tem problema, acharia um jeito de traduzir, amanhã, mês que vem, por que não?, agendaria tal demanda, sure, dear: eu fui violentada, assim, à queima-roupa, ficava bem?
Não podia nem conceber aquilo que o cérebro completamente perdido cochichava aos outros órgãos.
Estamos em perigo, mas ainda temos chance.
Um inimigo se espalha.
Não tente dar conta de tudo, aprenda a delegar tarefas, faça como os grandes líderes, partilhe o poder e ele se multiplicará.
De quem são essas frases ridículas?
Acabei de ser estuprada, querido, venha me buscar no meio da rua, me leve pra uma piscina de águas termais.
Nada há de ser tão sem saídas: vamos tentar outro caminho?
O corpo se eriça, qual bicho cujo caco de vidro adentrou fundo que nem noção do que é ser bicho atacado por um caco de vidro se tem mais, pois que completamente estraçalhado.
Feito carne moída a dor. Pernas se recusando a andar, olhos secando, células partidas, neurônios desconectados. Repetir pra si, pra ninguém: quase me arrancaram a vida minutos atrás. Veja: sai sangue da boca, do sexo, do ânus. Sai sangue até das unhas e não há como detê-lo. É preciso chegar em casa imediatamente, tomar banho, vestir uma roupa limpa, necessariamente de algodão, e cair na cama.
Mas voltar pra casa? Como poderia?
Torna a ver o mundo escorregadio e cai. Cai sem ouvir a resposta dele. Sem conseguir visualizar a mão cheia de pelos dele. Estendida. Salvando-a.
Cai e vai apagando. A mente soletrando the end, finish, acabou. Como uma inimiga pirracenta, a mente projetando mortalhas de seda vermelho-sangrento, úmidas num varal, orquestradas pelo vento. O último orgasmo com ele, quente de se querer morrer logo naquele quente que vem voltando ainda mais quente, ontem, ali, aquele copo com conhaque num sábado chuvoso. Uma tarde, acolá. Antes de ele confessar que amava outro cara, antes de ele querer ir embora.
Por quê, meu Deus, por quê?
Sua vida acabou, minha querida, encare os fatos.
Quando Deus se rarefaz, a vida acaba. Aprendera isso, certa vez.
La vita è finita, hai capito?
Perseguição em língua estrangeira.
Talvez fosse isto: fechar os olhos, se entregar. Por mais que amedronte, a escuridão sempre promete um alívio pra dor. Ficar imóvel, desaparecer dentro dela, poeira na luz solar.
Besta quadrada é qualquer existência. Viver não vale o esforço com que valentemente se inspira-expira.
A vida.
Miudinha.
Pedregulha embaixo dos pés.
Incrível como os olhos se entregam fácil, acomodando-se à falta de luz. O resto do corpo, porém, não. O resto do corpo é luta feroz, a fim de qualquer migalha de claridade ou lógica. Rumina, resiste, se desprega da alma. Tem vida própria, arrepio de corrente, tempestades. Enquanto a alma é longe, tão longe, tanto tempo, dias, meses, séculos atrás, enquanto a alma quer saber apenas de ficar quieta, de entregar os pontos, de não estar, a carne toma outro rumo. A carne é presente sólido, exigindo nova chance, se autoimpondo um recomeço.
Provavelmente, os vermes aproveitarão tanta energia gasta entre um polo e outro, pois são os vermes que espreitam a guerra entre corpo e alma, de camarote, aguardando o desfecho.
Vontade antiga impulsionando: vencer.
De onde, para quê, por que vem?
Não sabe. Desimporta. Reaprende.
A luz de uma vida inteira.
Quer ver a luz do sol. Não se entregar.
Desperta outra vez. Anda cambaleando, depois consegue andar um pouco mais firme, lutando contra a tontura que nasce na cabeça e vai se espalhando pelo tronco até mordiscar os pés. Nos pés e mãos, agulhas trabalham a cada passo.
Ignora-as. Esfrega os pulsos, abandona o terreno baldio para onde foi levada, à força. Na subida, avista um viaduto. A memória é suficiente pra reconhecer onde está.
Orienta-se pelo velho viaduto encravado no centro da cidade, acima de sua cabeça. Atravessa o estacionamento. Esfrega de novo os pulsos marcados.
Então, a abandonaram no centro, sem moto, sangrando, sem dinheiro.
Muito bem, muito bem.
Um rapaz vai passando, perto da árvore velha que sombreia cheia de vida uma parte da calçada. Franze a testa ao vê-la:
— Precisa de ajuda, moça?
De calças jeans e boné verde-cana. Vem correndo, assustado, ao encontro dela.
— O que aconteceu, dona?
Ela tenta calcular as horas enquanto se apoia no ombro dele.
— Você precisa de ajuda? — ele volta a perguntar, confuso.
Ela o encara. Ele torce as mãos.
Sim, queridinho, toda a ajuda possível, como não?, veja, acabara de perceber: ia precisar matar dois homens logo, logo. O pensamento foi tão rápido que ela mal acreditou: does the body rule the mind or does the mind rule the body? Ligar mais tarde pro Príncipe da Ironia, pro Deus da Melancolia Infinita e perguntar: então, querido, você já conseguiu uma resposta precisa?
Lembrar dessa música é pender de novo no vácuo. Passaram-se tantos, mas tantos anos. Ela era adolescente e queria sair do Brasil. Essa canção no café da manhã, essa canção na hora do almoço, essa canção antes de dormir. O corpo governa a mente ou é a mente quem o dirige o corpo? What’s the diference makes? Gostava até mais quando ocorria o contrário, quando o coração vinha mais ágil e tomava o centro. Uma vida dirigida pela emoção, uma vida sessão da tarde, em vez daquela tão pragmática a que estava acostumada, se pudesse escolher, o que de fato escolheria?
O rapaz pergunta novamente se ela precisa de ajuda, se fora atropelada, se estava doente. Ela balança a cabeça, negando. Se não tivesse a garganta tão seca, diria que sim, fora atropelada, não: triturada, melhor: moída. Acabaram de passar feito um trator por cima de toda a sua existência.
Nenhuma novidade aí, preste atenção: o mundo é um moinho, cantava aquele sambista. É o bonde do mal na rua, registrou aquele guitarrista, e a paz de alguém está por acabar.
Ah!, como ela precisava de socorro. Todos, qualquer um. Principalmente: um copo de água gelada. Água que soubesse cair límpida na garganta, sem arranhar ao descer pelo interior do corpo. Depois, um longo descanso entre as nuvens de algodão da infância, aquelas que de segundo em segundo se transformam em outras, mexendo-se, derramadas, entre os espaços azuis do céu. Gotas de alguma chuva nova em seu corpo, quiçá um arco-íris interrompido por trás dos prédios.
E ainda: os revólveres mais velozes do mundo, gatilhos estridentes, canhões de última geração, e pólvora, muita pólvora pra explodir todos os pênis desconhecidos pelo ar. Ou, um tanto mais primitiva, por que não?, navalhas pra arrancá-los dos corpos, leques e chumaços de algodão com álcool no nariz pra poder acompanhar a queima deles sem ter que sentir o cheiro podre infestando.
O que mais se pode desejar neste instante? Cortar fora todos os malditos pênis de todos os malditos homens do planeta. Fazer uma fogueira com eles e dançar ao redor, como fazem os índios para pedir aos deuses que mandem chuva. Porém, ela, se pudesse, pediria aos berros ao deus que houvesse naquele instante, à escuta, para mandar reinar não a chuva, mas a impotência, mandar vir não o fracasso, mas a esterilidade, mil defeitos incorrigíveis, grotescos, fatais, capazes de confundir a raça masculina, ameaçá-la, extingui-la, assim como deveria ter sido desde o princípio, fosse agora por todos os séculos e séculos.
Todavia, a garganta está mesmo complicada e uma única sentença cabe:
— Me leve à delegacia.
É tudo que pode dizer ao rapaz, apoiando-se nele apenas o necessário pra conseguir andar. Contato mínimo, antes que enlouquecesse de vez e esganasse o inocente, tão desconhecido, tão solícito.
* * *

Empurrar o corpo pra frente. So-bre-vi-ver. Mão na testa, limpar o suor. Todos os deuses dançam no jardim arruinado lá na frente. Visão embaçada de sinais. Sacudir a cabeça. Respirar. Um curativo no nariz esconde o machucado das vistas. Vem o vento no meio das pernas dizer que ela está viva. Mas não queria ouvir o vento. Ele tem uma melodia cretina. De vez em quando, joga-a em nosso ouvido. Não apenas cretina, inútil. Pele queimada de sol. Sol demais mata, o fogo se espalha, estraga a plantação. Socorro confuso de mãos competentes. Ágeis. Mãos silenciosas que limpam a sujeira, trazem analgésicos, e dizem pra ela ficar tranquila, pois tudo acabará bem.
Acabará?
Sim, isto é um hospital, relaxe, estão cuidando de ti.
Cabelos penteados pra trás, braço puxado, osso deslocado, mais dor.
Calma. Esta dor é bobinha, dá pra suportar.
Venha, Luísa.
Força.
Por aqui.
Vozes além.
Anjos?
Querer fechar os olhos e não poder. Tem fios de nylon nos olhos.
Anjos tocando coisas impossíveis de serem ouvidas.
Quem foi o miserável que pôs fios de nylon pra segurar os olhos dela?
Mania esquisita de imaginar um mundo melhor, porém, invisível. Seres do outro lado, ofertando proteção. Se fosse assim, minutos atrás, onde estariam os malditos anjos?
Gritos inesperados.
Não vai dar certo. Parem. Filhos de uma puta. É melhor desistir.
Por favor: apaga a lâmpada que é hora de dormir. Por favor: acende a lâmpada que é hora de entender.
Cheiro de éter que não havia, cama de hospital que não havia, pessoas com olhos de lobo: também não havia. É noite escura e mesmo assim o sol queima a pele sem filtro solar.
Ouvir a própria voz irromper: infeeeeeeeerno, vão embora, desgraçados, ninguém quer ouvir harpas ou canções.
Definitivamente: o tempo está acabando.
Não pode ser. Como se fosse a voz de outra pessoa: falando amenidades num quarto de hospital.
Às vezes, se esquece mesmo de passar filtro solar.
Ora, que importa? Não chateie com inutilidades assim. Quem quer saber de câncer de pele depois de um estupro?
Pro diabo, pro diabo.
A voz liberta, independente, decidida: vou arrancar cada pedacinho deles, vou arrancar com os dentes, mastigar e cuspir.
As pessoas: olham, olham. Cochicham. Horrorizadas. Piedosas.
Não consegue mais fingir: só pensa em como irá fazê-los sofrer também.
Veja: o ruído da vida é desarmônico, pega de todos os lados, entra pelos ouvidos, se espalha pelos pulmões. O ruído da vida traz fome, faz os intestinos funcionarem, a vaidade retornar. Como se misturar a ele de novo, como não estar decepada, longe dele, longe de tudo?
Ela penteia os cabelos, enquanto ouve, numa língua que não é mais sua porém sempre haverá de lhe pertencer, as notícias de seu corpo trazidas por pessoas de aventais ora brancos, ora verdes.
Os aventais ora brancos ora verdes saracoteiam dentro do quarto. Perdem-se em tortas explicações. O código deles é escorregadio. Os sons se movimentam numa fase de transição. Provavelmente quando o português ainda não era, de fato, português, mas algo indefinido, ainda pela metade, tentando, em desespero, ignorar a parte faltante: piano de cauda sem as teclas pretas; bailarino sem técnica insistindo no salto.
Que coisa desprovida de razão: escutar uma língua que fica frouxa justamente por tanto querer ser exata; mais que isso: inválida; pior: ineficaz.
Ao ouvir os aventais ora brancos ora verdes, ela pesca uma palavra aqui, outra ali. Desconfia que o que falam pode soar em espanhol a qualquer hora, mas não soa. Pode lembrar italiano de repente, pra um brasileiro cosa picola in italiano é compreensível, não? Bene, bene, guarda, sono qui, percebe? Trata-se de línguas aparentadas, aprendera tanto tempo atrás. Grazie Mille. Perfeitamente. Quase tudo é passível de conserto. Olhe nos meus olhos, ouça esta canção: faz tempo que não sei de sua vida, peça alguém pra contar como foi o seu dia, esquece essas paredes, me abrace outra vez.
Porém: não.
Todavia, não. [...]

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