Um ruído de ferro contra a calçada de pedra. Carrinho de paralítico. Simples. Sentou pra ouvi-lo. Deve ser aquele mendigo da rua 08. Tentou acompanhar trincando os dentes. Um segundo enorme de barulho, depois, nada, tudo cessou. Passou meio século. De repente, barulho de asas. Pássaro. Não. Asas pesadas e grandes. Pato. Ou marreco. Galinha não pode ser, geralmente cortam-lhes as asas. Só havia uma frestinha de luz na porta. Haveria sorte hoje? Quando o barulho ou o ser que o produzia se encontrava naquele campo minúsculo de claridade, podia se arrastar até lá e descobrir. Mas tinha que ser dia de sorte. Às vezes, não era. Reconhecia-os vez em quando, um estampido parecido com o de arma de caça e ah!, é hoje! Então, lavava o rosto e esperava a completa solidão pra começar a descortinar imagens. Delas tirava vitalidade com a qual ia enchendo vagamente os pulmões para atravessar os dias seguintes, dias de não-sorte. Nesses, contentava-se em mastigar barulhos. Choro de criança, bombas de São João. Pés vagarosos, pés velozes, pés ritmados, trotar de cavalos, carroça de boi, pés que pedalam, sapatos. Leiteiro. Cachorros brincando, cachorros farejando, cachorros estranhando. Música. Meninas indo, meninas vindo, meninas rindo, meninas gritando. Chuva. Fósforo riscado. Bem-te-vi, pardais. Voz rouca gritando, voz sussurrando: amor. Chocalho. Tosse. A vendedora de doces. O vendedor de café. Gente que sai pro trabalho, gente que volta pra casa. Pão. Cheiro de pão dentro de sacos de papel. Cordas de violão afinando. Pombos ciscando. Pedras atiradas, gatos fugindo, latas voadoras, sacos de lixo que o vento transforma em pássaros. Um coração no escuro da cidade. A morte tinindo. Vida dentro de músculos. Uma bota pesada, uma porta que abre rangendo, alguém reclama de ter a unha encravada. A realidade de um ruído que sempre machuca: um homem ainda muito bonito quase lhe estraçalhando os dedos do pé. Horas confusas de cores escuras, azuladas, violetas, que entram no campo de visão zumbindo e maltratando que nem abelhas. Mas, afinal, hoje seria dia de sorte? Espreitou pela fresta e, valha-me Deus, que mau agouro, um urubu! [...]

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