Trecho de Chuva Secreta - lançamento 09/11, às 19h, Stand da Casarão do Verbo, Bienal da Bahia


A feiura é uma desgraça sem conserto. Como se te amputassem a vida e te obrigassem a fingir, diariamente, estar vivo. Você, morto, é forçado a encenar o teatro dos vivos, sabendo-se, íntima e miseravelmente, em putrefação. Existe dor maior do que odiar a imagem de si mesmo? Rejeitar cada milímetro dessa imagem que você sonha ser de mentira, e é real, desse corpo que você pensa ser emprestado ou passageiro, mas, talvez por pirraça, talvez por descuido do Criador, é definitivo, é seu?
Às vezes, o cansaço de viver em autorrejeição traz alguma trégua, e, como por encanto, você deixa de visualizar a si mesmo do outro lado desse que é, sem dúvidas, o pior objeto confabulado pelo homem: o espelho. Deixa de visualizar a si mesmo amiudado, retorcido, no centro do espelho carrasco, do espelho desgosto. Vem se assentar na face uma estranha mancha branca, qual brincadeira em que seu rosto foi tirado de foco. Assim, desfocado, é possível atravessar a luz diabólica do espelho, pairar sobre ele, percepção suspensa, quieta mágoa de não ser o que se quer. Instante de alienação, quando se alimenta a mais idiota de todas as esperanças, a de que, num passe de mágica, tão misterioso quanto um dia lhe foi relegado ser feio no mundo, sem qualquer explicação ou lógica, seu rosto, seu pescoço, seus cabelos, so-bretudo seus ombros, ora atarracados e desarmônicos, sejam belos e perfeitos, uma obra de arte, diriam os outros quando lhe vissem do outro lado, desencarnando o patinho feio, materializando o mais belo dos cisnes.


Ser feio, verdade seja dita, corrói vagarosamente os nervos. E quando se diz feio não se quer apenas mencionar aqueles estranhos narizes que sobram em certas faces, nem se deseja lembrar de pelos nocivos ao ambiente, ausência ou excesso de carne nos lábios, pele lixa de unha resistente a qualquer creme, perna mais curta que a outra, cabelos infelizes, testa larga, tórax estreito, bunda batida, peito caído, bochechas de mais, bochechas de menos, barriga flácida, olhos de peixe morto, pálpebras desengonçadas, pau minúsculo, vulva pra fora... não! Refere-se, aqui, à feiura absoluta, à feiura sem esperança, que faz as pessoas virarem a cara, não responderem a seus bons dias, maldizerem a ideia estúpida da natureza ao lhe conceber. Plástica? Só se fosse dos pés à cabeça.


O sexismo, a homofobia, o racismo, os dependentes químicos, os portadores de deficiência física ou de problemas mentais, tudo, tudo pode ser minimizado ou corrigido. Os direi-tos de quem se enquadra nessas minorias podem ser reconhecidos, ou, caso haja resistência do entorno, pode-se lutar em prol deles, organizar campanhas, confrontos públicos, propagandas, cartilhas, processos judiciais e políticos, promoções culturais, cirurgias, reparações. Quando não, há o conforto da compaixão humana, gosmenta, caindo sobre àqueles desafortunados. Mas, Deus, é preciso ser honesto ao menos uma vez!, é preciso verdadeiramente reconhecer: quem tem compaixão com os feios? Quem, de fato, perdoa a feiura-desconcerto, a feiura-constrangimento, aquela que desconhece sexualidade, classe social, etnia, não respeita orga-nismos saudáveis ou enfermos, que se sobrepõe a qualquer tentativa de amenização? A feiura-exagero, a piorar a luz miserável do mundo, a irritar o entorno?


Alguns dirão: a insatisfação é a mola -mestra de todo ser humano. Mas o que quer que digam em seus cantinhos fétidos não tem importância, não interessa. Aliás, por amor à verda-de, deve-se acrescentar: ser feio, demoniacamente feio, pode também trazer uma boa patologia — acaba-se por restar indiferente à fala, à dor alheia. Em geral, não se toma conhecimento do outro, não se quer saber.

* * *

Queria você que fosse a vida e apenas ela afiando as garras no corpo covarde que sempre recusa a guerra e gosta de risos e sacadas, de lugares perfeitos pra se abrigar. Mas, você bem sabe, existem outras coisas agarradas à dinâmica da vida, coisas que mudam de plano, confundem, exaurem. Ora são vultos antigos desautorizando a lógica do presente, ora são pensamentos retrocedendo, e é você indo, você vindo, você de novo, a se contorcer, patinho feio virando cisne, mais-que-perfeito, lá, em algum lugar aonde se deseja, se tenta tanto e nunca, never, jamás, se consegue chegar. Feito aqueles sonhos irritantes em que se está em perigo, próximo à entrada de várias pontes, mas não se é capaz de atravessar uma sequer. Como saber qual é a ponte correta e, pior, dentro dela, ao se escolher uma entre tantas, na entrada, no meio, no final, como saber pra que serve atravessar a ponte escolhida, se de olhos abertos uma ponte é uma ponte, nada além?

Calma. Hoje é seu aniversário. Reze uma oração pra seu pai. Acenda duas velas, uma pra ele, outra pra si mesmo. Você faz aniversário no dia da morte dele. Isso traz mais proble-mas: coisas defronte de outras, funduras se sobrepondo a superfícies, inutilidades enfraque-cendo o real. Mas, espere... o real, você disse? Ora, o real! Que vem a ser? Uma criança cor-rendo com roupa esvoaçante, por cima dos telhados das casas quietas? Está mais do que na hora de se esquecer o real.
Você não tem fome, bebe apenas café preto. Algumas pessoas ligam te dando para-béns, desejando felicidades. Às vezes, se atende, outras, não. Esse movimento é aleatório, não depende do número registrado no visor do telefone, depende de se querer, naquele instante, atender ou se fingir de ausente. Marlene ligou quando se estava no banheiro, deixou mensa-gem na secretária. César ligou agorinha, você atendeu. A mãe ligou três vezes. Depois de duas horas, você resolveu ligar de volta pra ela. Mas a fala das pessoas, é preciso reconhecer: nada implica, nada faz valer. O desejo das pessoas não é uma companhia nem uma falta, não é uma possibilidade nem um mistério. São somente o desejo e a fala delas, uma realidade sonolenta, do outro lado do mundo, desconectada.

Após os telefonemas, cai no sofá e lembra: sonhou coisas confusas, outras bonitas. Dormiu muito cedo, quando despertou, fazia um tempo fresco. Havia um bebê, você dava banho nele. Depois, não era mais um bebê, e sim o gato do pai, que também já morreu. Era difícil dar banho no gato, mas o pai ajudava. Estavam no quintal da casa de sua infância. Em seguida, uma mudança brusca de cenário: você se encontrava numa cidade quente, desconhe-cida, a praça cheia de gente, tudo era sujo, fedia. Enjoado, você atravessava a rua, querendo se livrar daquele mundo. Do outro lado, havia uma quietude de espelhos, e, no interior deles, a metamorfose: você era a pessoa mais bela de todo planeta! Daquelas belezas irreais, como no cinema ou na TV, traços milimetricamente dispostos, corpo forte, primoroso, dor nenhuma nos movimentos. Plasmada, precisa, sem falhas, sua beleza levitava de vitrine a vitrine, com uma fluidez só permitida às primeiras luminosidades do dia.

* * *

Há uma lei em todos os aniversários: seja em qual for o dia da semana em que ele caia, falta-se ao trabalho ou a qualquer outro compromisso, a fim de permanecer a manhã toda em casa, à toa. Por vezes, escolhe-se andar de bicicleta, outras, almoça-se fora, vai-se sozinho ao cinema ou a exposições de arte, perambula-se por parques, atravessa-se a ponte rumo à Atalaia Nova, onde é possível passar três, cinco horas em absoluta paz. Quase sempre se encerra o dia com uma garrafa de vinho tinto.
Milagres não existem, eis o mantra a se repetir ao cisne-obsessão que, volta e meia, aproveita o seu cumpleaños pra instalar cantigas bobas no pé do ouvido. Enquanto você se move pela cidade, em cima da bicicleta, tenta ignorá-lo, optando, à força, somente por existir, sem demandas nem queixas, existir vazio, pleno, pedalando devagar, sem pensar no caminho, cara enfiada nos óculos escuros, chapéu, fones no ouvido, preparado pra ignorar o mundo, caso o mundo resolva se colocar, por qualquer que seja o tempo ou motivo, no centro luminoso do caminho. Isto se aprendeu desde pequeno: ignorar o entorno, os acontecimentos. Passar invisível entre eles, morto-vivo, caramujo. Ensimesmar-se, e assim se vingar do mundo com seus serezinhos saudáveis, os rostos corados, como quem comeu pudim de leite da vovó a vida inteira, numa cozinha de azulejos portugueses.

O pai dizia alguma coisa vaga sobre o tempo. Relíquia de que agora não se pode cap-turar com exatidão. O olho solto do espaço nalgum canto do planeta a sugar aleatoriamente os fragmentos do tempo. Cada novo cérebro agarra um pedaço dele e tenta sobreviver. Talvez fosse importante, quem sabe? É preciso pensar a respeito. Mas quando? Como? O tempo é um trem mental. Péssimo condutor a te fazer embarcar em estações previamente perdidas. As imagens, quem dera você pudesse existir no centro, não na periferia delas, ah!, as imagens de onde você foi decepado, elas abrem seu leque de infinitos pontos multicores, te sustenta por três, seis, nove segundos, depois, tudo se perde num lamaçal desprezível.

O pai era um intelectual. Dizia coisas impossíveis. Coisas sem utilidade, entretanto, bonitas, capazes de sumir na atmosfera, qual som por vezes tirado da enorme moringa de barro, quando a empregada ia enchê-la d’água e batia toc-toc, tão distraída, toc-toc, ela batia o caneco de louça na barriga da moringa. Uma vez, você comentou o quanto lhe doía ser feio. O pai fez um silêncio de suspiros, aquele silêncio pior do que todos os silêncios, porque cheio de palavras contidas que o outro quer dizer, mas, por falta de coragem ou por piedade, não diz. Há algo pior do que a falta de coragem, se não a piedade? A tal energia a que chamamos vida é mesmo uma grande lástima, disse ele, dias depois, descontextualizado, triste. Vem, envolve-nos, depois abre crateras, deixando-nos de cara com o cansaço. É cansaço de esmolar olhares, cansaço de esmolar beijos e abraços, de ser um corpo não livre, de querer correspondência, querer, acima de tudo, permanecer.

Quando ele disse isso acerca da vida, a calma disfarçando certa tristeza na voz, tudo dito num fôlego único, como um ator que ensaiou apenas essa fala e ali estivesse, últimos segundos da peça, antes de o diretor mandar cerrar as cortinas vermelhas e o público monotonamente se levantar pra bater palmas. Como um ator secundário, condenado a ser detalhe final de uma trama já resolvida por atores maiores. Quando ele disse isso, a ficha caiu: o pai!, também o pai era feio de doer! Você era tão autocentrado na sua desgraça de ser feio que demorou a perceber: a feiura é uma herança dele. [...]


* Trecho do conto "Não se esqueça de pisar firme no coração do mundo", que integra Chuva Secreta.

** O conto "Não se esqueça de pisar firme no coração do mundo" foi publicado, antes, em alemão, na antologia Wir Sind Bereit, da Editora Lettrèatage (Berlim, 2013), organizada por Marlen Eckl e lançada na Feira de Frankfurt, este ano.

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