Foi lá naquele pedacinho de varanda, entre o lírio branco que de uns tempos pra cá inventou de querer morrer e as samambaias em vasos de gesso pintado, que ela disse lembrar por vezes de Drummond afirmando que Deus era grande e cabia numa janela inteira para o mar.

Piscando os olhos, ela, naquele jeito meio índia desbotada por não ter mais nenhum resquício de um dia ter sido índia a não ser o leve puxado dos olhos, encarando a linha do horizonte e enrolando o cabelo lisíssimamente marrom, ela disse exatamente assim: segundo Drummond, Deus era grande e cabia numa janela inteira para o mar.

Do lado de cá, ele suspirou a fim de manter sua serenidade, conseguida há milênios, e respondeu, devagar, morno, naquele jeito de consertar o impossível, ele respondeu que não compreendia por qual razão ela pegava frases de alguém, misturava com de outrem, rasurava, mexia nos sentidos, na estrutura, e, não satisfeita com a mudança dos sentidos, ainda achava de confundir as autorias.

Ela ia gargalhar, mas se conteve, porque ele a encarava, calmo, morno, esse seu jeito de sempre, e consertava, pacífico: Drummond jamais falara em grandeza de deus algum, o que Drummond dissera, ou antes, escrevera, que poeta não diz coisa alguma e se disser muito pouco se aproveitará, o que escrevera, enfim, foi: o amor é grande e cabe numa janela para o mar.

Comentários

  1. Seu texto é de uma brancura pacificadora. Não sei, tive a impressão de estar numa varanda, olhando o mar, ouvindo música de Jobim, ao fundo e bem suave. Tive vontade de ler Drummond!
    Talvez eu esteja demais sensível, mas seu texto tocou em mim.

    abraços

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