Contei a ele que sonhamos com a mãe dele presa numa casa toda de cristais e gelo. Ele respondeu que havia uma casa assim no filme do Super-homem.
— Qual Super-homem? O do Christopher Reaver?
Ele suspira, impaciente:
— E existe outro Super-homem, meu pai?
— Milhares. Eu já vi pelo menos uns sete.
Ele arregala os olhos:
— Você conhece sete Super-homens?
Confirmamos. Talvez até mais.
— Não, você está maluco. Só existiram três. E todos eram o Christopher Reaver.
— Não, senhor. Há muitos outros. Com a mesma origem, a mesma roupa, os mesmos poderes, os mesmos problemas, a mesma namorada jornalista.
— Mentira, você está inventando, meu pai.
Não, não estávamos inventando. Inclusive há um canal a cabo, não lembramos direito, mas há, onde passam um Super-homem muito jovem, confuso, confuso, o rapaz. De olhos azuis também. Nem se sabe Super-homem ainda, está a se descobrir.
Ele nos olha, confuso:
— Como assim um super-homem que não sabe que é Super-homem?
— Exatamente. É uma série que se reporta ao início de tudo. Esse rapaz está se descobrindo ainda. Aquela velha história da jornada do herói... compreende?
— Estamos feitos, então... É tipo o Neo, no início da Matrix?
Não, não tinha nada a ver com Matrix. Evitamos demonstrar nossa real antipatia por esse filminho intelectualoide, cultuado tanto por ele quanto pela mãe.
— É apenas um super-homem adolescente.
— Você assiste a este troço, meu pai?
Assistimos, certa feita. De onde tiraríamos tais detalhes, se não víssemos alguns episódios? Mas desistimos no meio da temporada. Era cansativo. De qualquer forma, o que queríamos com tal exemplo era justamente mostrar a ele que, ao contrário de sua mania de fixar determinadas referências como únicas, existiam muitos super-homens espalhados pelo mundo. Nós conhecíamos cerca de quatro a seis, quiçá sete, e olhe que nem éramos da geração-quadrinhos, como ele.
— Que absurdo! — ele protestou, fingindo-se de magoado. — Sete super-homens! Com certeza, deve ser tudo boiola.
Uma qualidade do nosso filho era fazer comentários imprevisíveis e engraçados assim. Gargalhamos juntos, enquanto ele inventava apelidos, posições e até cenas esdrúxulas para se vingar dos sete super-homens que vieram bagunçar sua compreensão de mundo. Afinal, nos esquecemos completamente do sonho com a mãe dele, que era o que nos interessava falar no início da conversa.

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