Estouravam cliques na cabeça enquanto dormia. Não sabia se cinema ou fotografia. Acorda variado, buscando qualquer instrumento de conexão com a vida concreta, ali, na frente, à espera. Sair do sonho é um banho lento de luz abocanhando o quarto. Longo tempo em que não se reconhece aquele outro ser esparramado, diluído. Até achar os fios. Não precisa ser inteiramente tecido. Um fio ao acaso serve. Basta que se conecte de novo. Provisória e aleatoriamente. Por exemplo, hoje, às 2:40, foi o rádio-relógio de números verdes brilhando no escuro. Amanhã pode ser a presença invisível do mar que habita esta cidade. Ou o barulho da rua. Quiçá, o corpo do outro descoberto, respirando, tão perto.

Comentários

  1. - Poderíamos chamar o trecho acima de prosa poética?
    - Talvez. Porém, sem conotação pejorativa.
    - Claro. Música belíssima e significado, apesar do tom existencialista, claro.
    - Concordo. Destaco o trecho: "(...)a presença invisível do mar que habita esta cidade."

    ResponderExcluir
  2. Eu destaco o "Sair do sonho é um banho lento de luz abocanhando o quarto".

    ResponderExcluir
  3. Prosa poétiica, conto minimalista, não saberrei externalizar até porque isso é de menos, no entanto, a obra produz uma forte carga imagética e e um certo teor dramatico.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Entrevista com o poeta João Filho

Série: a difícil-incrível arte de viver - parte III

Série: a difícil-incrível arte de viver - parte II