O piso da casa é gasto, não se percebe ruídos. A luz que chega é delicada, luz de mundo nublado, e bate diretamente nos quadros verde-sépia da parede.
O que uma noite sem sono dá?
O domingo não acha esperma algum no lençol. Dentro das malhas finas da manhã, meio perversa meio recomeço, o único cheiro é de mulher dissipada, afagando travesseiros. O corpo está só. Embaraçado, voltando à tona. Um suspiro e a mão abandona o sexo. Faz que tateia a própria pele, seu cheiro a um palmo do nariz. Sopra os pêlos entre os dedos, sempre se arranca muitos pêlos nesses movimentos circulares, solitários. Livra-se de palavras ditas no ontem, o quarto deserto, 72m², nenhum traço dele.
Mas há qualquer traço dele por ali, sim, que se seja precisa ao menos uma vez. Há no azul do firmamento parado, nuvens paradas, atravessando horas, cuspindo nas rédeas do tempo, algum homem que se mistura à manhã, à canção que não se sabe quantas vezes mais será repetida, aos membros arranhados, à flor que morre no chão da varanda, que rola pra debaixo do sofá por capricho do vento, o único vento forte que entrou pela janela desde às 2:00 da madrugada.
Aí lhe vem um verde vivo: a memória já entupida de heranças, de porfazeres. Quer apenas que tudo se extirpe, ficar sozinha como peixe dentro do vidro. Sozinha com a bebida cor de caramelo, a chuva que obriga o sol a ir embora, a aspirina, o espirrar agora mais constante, o cabelo que novamente acha de perder o tom.
É refazer sempre.
Qualquer um dos fios desse emaranhado de coisas e imagens contidas que se perca, trará de novo o homem que não se tem mas que se sabe o tempo inteiro lá fora, selando, perscrutando a solidão.
Ocorre que não se quer senti-lo.
Frases mortas dele em círculo, como se a sitiassem.
Sabe que num momento leviano como esse o corpo dele junto ao de outro cara, lado a lado, atravessam a cidade - Brasília, onde ele foi morar - ou quedam-se agarrados entre odores e travesseiros. Quem sabe se um arranca violento o tecido que cobre o peito do outro, quem sabe se a violência prossegue em beijos, mordidas beirando sangue, ou promessas apaixonadas, ou sinceras confissões.
Miséria de vida maldita. A essa hora, ele deve estar com outro homem.
Pensando nisso, masturba-se. Depois, angustia-se.
Perde a calma.
Quebra cascos de Coca-Cola na cozinha.
Amaldiçoa a si mesma, a cidade, a TV.
Aumenta o volume, gritando por cima da voz de Patti Smith, de Chrissie Hynde. Mulheres fortes como tu, ele dissera. Serão, será?
Cala-se.
Masturba-se mais uma vez. [...]

Comentários

  1. Laíla Sampaio7:20 PM

    allex, li seu texto gostei muito..
    gostaria de te enviar um trabalho de um amigo meu que está querendo publicar suas poesias e saber sua opinião...fui sua aluna na unifacs, meu nome é Laíla.Pode então mandar seu email para mim? lailasl@oi.com.br
    um abraço..

    ResponderExcluir
  2. Como sempre, mais um texto maravilhoso.
    Lá no anjo baldio tem um vídeo-poema novo. Grande abraço.

    ResponderExcluir
  3. Állex, obrigado por tua visita lá no blog. Este fim de ano tive muitas exposições e salões e não pintei muitas camisas. Quando tiver lhe aviso, tá bom? Bjs.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Vim ver o Roberto, cara!

Entrevista com o poeta João Filho

Série: a difícil-incrível arte de viver - parte III